quarta-feira, 21 de julho de 2010

Em defesa dos Best-Sellers

Hoje vou fazer diferente... Não vou falar de um livro ou um autor, e sim de vários... Mais especificamente vou falar de um tipo de livro: os best-sellers.
É comum as pessoas condenarem os best-sellers, livros considerados sem conteúdo, mal escritos, etc. etc. Principalmente no ambiente acadêmico onde são praticamente linchados... Não discordo totalmente, mas afirmações assim categóricas são no mínimo injustas. Particularmente eu gosto de best-sellers. E explico porquê.
Quem fala mal de best-sellers, certamente não os lê. Porque se lesse veria quanta coisa boa faz sucesso. Muitos acham que o fato de um autor fazer muito sucesso entre o público não-especializado desmerece o livro. Eu acho o contrário. Na verdade o sucesso é um grande trunfo, e admiro o autor que o conquista, pois obviamente isso veio de seu talento. (É evidente que alguns ficam famosos por pura sorte, mas não é desses que estou falando.)
O professor e escritor Felipe Pena diz o seguinte:
"Em literatura, entretenimento não é passatempo. É sedução pela palavra. Tudo é linguagem, mas a narrativa é a base da literatura. Uma história bem contada é o objetivo que perseguimos.A ficção brasileira precisa ser acessível a uma parcela maior da população. O que não significa produzir narrativas pobres ou mal elaboradas. A escrita simples não é superficial: é a tradução laboriosa da complexidade. Escrever fácil é muito difícil."
Citação que tirei do cabeçalho de seu Blog... Creio que ele tem total razão. Escrever fácil não significa escrever mal, é apenas um modo simples de dizer coisas complexas...
Não que eu seja contra à literatura clássica, mais cult ou canônica, ao contrário, quem me conhece sabe que estudo em minha pesquisa a Poesia Simbolista de Cruz e Sousa e Camilo Pessanha, e sabem que sou um fã incondicional de Machado de Assis, Horácio, Joseph Conrad, Baudelaire e Mallarmé... Mas uma coisa não exclui a outra. Tem gente que tem vergonha de gostar de best-seller... E se vangloria de ler os contos da Clarice Lispector e os poemas do Drummond. Mas isso é uma grande bobagem! Gostar de um não impede ninguém de apreciar o outro. Eu me divido entre os livros do Harry Potter e a literatura Simbolista sem problema. Ambos fizeram parte de minha formação e ambos são importantes, cada um a sua maneira.
Se hoje faço Letras e amo literatura não é por causa do Machado (quero dizer, não num primeiro momento) e sim por causa de J. K. Rowling, a autora de Harry Potter.
Até os 11, 12 anos eu não lia literatura. Sonhava em fazer biologia e apenas lia textos dessa área, mais especificamente, apenas lia textos sobre pássaros. Aos doze anos, porém, fui apresentado a dois livros: O Cão dos Baskerville, de Sir Arthur Conan Doyle (uma das tantas histórias de Sherlock Holmes) e Harry Potter e a câmara secreta, de J. K. Rowling (sim, eu comecei lendo pelo segundo). Ambos os livros me ensinaram a gostar de ler e me encantaram de tal forma que em menos de um mês eu já havia lido tudo mais que havia tanto de um como do outro autor. Viciei-me! A literatura me cativara e dali em diante passei a ler mais e mais, primeiro só autores ingleses, depois americanos, depois franceses e finalmente brasileiros... Li Machado de Assis e Álvares de Azevedo e me encantei e quando li a poesia de Cruz e Sousa, não tive dúvidas: faria Letras! Enfim, isso é um pouco de minha história, mas não é importante, o que importa de fato é que se hoje sou um apaixonado por literatura é graças aos Best-sellers. E é por isso que eu os defendo.
Que alguém não goste de um best-seller, é tremendamente compreensível. Eu também não gosto de todos, acontece... Entretanto, ninguém pode negar a importância desse tipo de literatura...
Esse tipo de livro tem uma função crucial em nossa sociedade que é formar leitores. Esse papel é dos Harry Potter, Código da Vinci, Marley & Eu, dentre outros e não de Dom Casmurro e Morte e vida Severina. Tudo nesse mundo tem seu lugar, cabe a nós sabermos respeitar. Além disso, há muita coisa boa que merecia mais destaque e não recebe apenas por ser um best-seller. Eu particularmente acho Jonathan Strange & Mr. Norrell um dos romances mais bem escritos que existe, mas nem por isso ele é estudado pela crítica, provavelmente por ser um best-seller (não muito no Brasil, mas sim na Europa e América do Norte).
Para concluir, antes de julgar um livro pela capa, vale a pena tentar entender o que há por de trás dele... Nem todos nasceram para ser Proust ou T. S. Eliot. Alguns simplesmente fazem livros para divertir, e são esses que criam leitores, que posteriormente vão ler Proust e Eliot... Enfim, defendo os best-sellers, pois sem eles não existiriam leitores e sem os leitores o que seria da literatura?

10 comentários:

  1. Nossa, acho que é a primeira vez que concordo 100% com vc, Bruno hahaha
    É exatamente esse o espírito da coisa. Preconceito é ridículo, sobretudo num curso como o nosso, que preza pela mente aberta. Eu também não comecei por Machado de Assis, comecei por Harry Potter (mas do primeiro haha) e acho que é um livro muito rico.
    Fato é que sobra muito nariz empinado na academia e falta humildade e pesquisa de verdade.
    Abraço!

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  2. Eu ri de sua primeira frase, Renato! Realmente não concordamos muito, ou melhor, não concordamos sempre, mas adoro conversar contigo, acho que é justamente os pontos de vistas ora divergentes, ora convergentes que tornam o bate-papo mais interessante, não é?

    Agradeço pelo comentário e pela visita ao Blog (aliás, seja bem-vindo e volte sempre ^^). Pois é, eu escrevi essa postagem para defender livros como Harry Potter que são os responsáveis por vários estudantes de Letras como nós, e leitores em geral, amarem ler. Acho que livros que tem uma função de tal importância não deveriam ser menosprezados como infelizmente são e cabe a nós (futuros professores de literatura) mudar esse ponto de vista ultrapassado, não acha?

    Grande abraço,
    Bruno.

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  3. "Tudo nesse mundo tem seu lugar, cabe a nós sabermos respeitar." Belíssima frase, Bruno, belíssima. Vinda de um lindo texto. Durante a leitura, muitos pensamentos formaram-se na minha cabeça, vou tentar amarrá-los aqui (sempre a minha dificuldade).
    Primeiro, concordo. Sobretudo com o fato de que a simplicidade na narrativa não é algo fácil e nem deve ser rechaçada.. Pelo contrário, é uma conquista, e a admiração do leitor é outra conquista valiosa. Devo acrescentar que uma característica que você admira nos autores, de expressar o complexo com simplicidade é também uma característica de sua escrita. Seu texto, além do mais, é belo porque desata preconceitos, e tece uma reflexão interessantíssima sobre o lugar dos best-sellers. Fora que, particularmente, sempre acho que a beleza pode estar onde menos se espera, nos lugares comumente inusitados. Outra coisa é que eu simplesmente adoro quando você reflete partindo de sua experiência, sem medo nenhum de desdobrá-la aqui, conosco. Fica uma delícia de ler, e também é um caminho bem interessante para pensar as coisas de modo mais geral, afinal, as coisas que realmente importam são aquelas que nos tocam de perto. Por mais que em muitos momentos meu pensamento passe pelo do Adorno, tenho lá minhas ressalvas, principalmente em seu pensamento sobre a indústria cultural. Mais como você, tendo a achar que o best-seller tem um lugar de importância, este da formação do leitor. Tendo a pensar que a literatura só vira lugar de interesse quando tem algo a dizer para quem lê, e esse algo a dizer em geral é facilmente acessível nos best-sellers... E então eles podem ser uma ponte. :)
    Tenho um pedido: continue escrevendo!
    Beijos e desculpe a empolgação enevoada deste comentário! rs

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  4. ps. mais um argumento para você: você sabia que o "L'élégance du hérisson" esteve no top de vendas das livrarias francesas?

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  5. Bru,
    primeiro de tudo novamente muito obrigado pelo comentário, não apenas pelos elogios que fez, mas por levantar tantas questões importantes e interessantes, que só vêem a contribuir (e muito) com a discussão... Fico feliz que você, assim como o Renato concordem comigo, pois como disse em minha resposta ao comentário dele, somos apenas nós (leitores e futuros professores de literatura) que podemos mudar (ou ao menos tentar) esse preconceito tolo e injustificado.

    Obrigado pelo elogio a minha forma de escrever... Parto de minhas experiências, pois cartesiano como sou, acho que tudo fica mais fácil de se entender quando exemplificamos e que outros exemplos eu poderia usar senão minha própria experiência enquanto leitor? Às vezes temo estar falando demais sobre mim e tornar o texto entediante... então, fico feliz que você não ache! (mas talvez seja porque você me conhece, rsrs)...

    E imagine, não há porque se desculpar! Seus comentários são e serão sempre muito bem-vindos (assim como os do Renato), fico felicíssimo de vê-la empolgada com a discussão, afinal, a idéia é essa, não é? Levantar um tema e discutir, debater, refletir...

    E vou atender seu pedido com a condição de que você continue comentando, combinado? :D

    Ainda teremos muito o que falar, seja aqui, seja no seu Blog ^^.

    Beijos e mais uma vez obrigado!

    PS: Nossa eu não sabia disso, mas é uma notícia maravilhosa!!! Coincidentemente (talvez não tanto assim...) o minha próxima postagem será sobre "L'élégance du hérisson"... Estou pensando sobre ela desde que li o lindo texto em seu Blog. :D
    Obrigado pela informação, estará inclusa na minha postagem, rsrs... Beijos!

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  6. E Bru, eu esqueci de dizer uma coisa importantíssima! A teoria da simplicidade narrativa, isto é, de que escrever fácil não significa escrever algo simples, não é minha é de um escritor amigo meu, o Felipe Pena, cuja obra eu gosto muito. O crédito é todo dele, como citei na postagem ^^. Eu apenas me vali de sua teoria para defender os best-sellers...

    Escrevi, aliás, uma postagem inteira sobre o Felipe, chama-se: "Uma grata surpresa", e o Blog dele está na lista de blogs relacionados, vale a pena dar uma espiada ;)

    Beijos...

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  7. Concordo plenamente com a sua defesa, esse generalizar é horrível.
    Que nem todos os best-sellers são bons ok, concordo, mas o fato é que nem todo o livro é bom (pelo menos não para todos), independente do tipo, é uma questão de gosto.Além do mais não é possível negar sua importância, são estes livros que fazem com que diversas pessoas comecem a ler, o importante não é se você começa por eles ou até por HQs e gibis e sim o incentivo à leitura.

    PS: Finalmente comentado, como prometi. kkk

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  8. Oi, Dani, obrigado pela visita, querida!
    Que bom que gostou do texto! "Em defesa dos best-sellers" é sem dúvida o preferido aqui, eu acho, rsrs... fico feliz em ver que tem gente que concorda comigo.

    Beijo,
    Seja sempre muito bem-vinda ao Cérebro-Casa!
    Espero que goste,
    até mais,
    Bruno.

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  9. Ótimo texto me deu ótimas ideias para um possível TCC :)

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  10. Olá, Nara! Obrigado pelo seu comentário! Fico feliz que meu texto tenha te dado algumas ideias... Caso te interesse, dê uma olhada na postagem "Nova Defesa dos Best-sellers", uma espécie de continuação desta aqui. Segue o link:
    http://cerebro-casa.blogspot.com.br/2012/10/nova-defesa-dos-best-sellers-ou-de-como.html

    Até mais!

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