sexta-feira, 16 de julho de 2010

Um outro tipo de Mago

Não sabia sobre o que fazer essa primeira postagem. Digo primeira, pois as outras duas foram apenas explicações sobre o título e o Blog em si. Essa é a primeira postagem, de fato, e por isso decidi falar um pouco sobre um dos livros que mais adoro: Jonathan Strange & Mr. Norrell, da inglesa (é claro que tinha de ser de uma inglesa) Susanna Clarke.
Jonathan Strange trata de um tema super comum nos dias de hoje: magia (tema comum, mas que todo mundo adora). Em poucas palavras, trata-se da história de dois magos na Inglaterra do século XIX, durante o período das guerras napoleônicas. Até aí, nada demais... não é? Afinal o que não falta numa livraria são livros de magos, bruxos, etc. O diferencial, porém, da obra de Susanna Clarke é misturar o fantástico a alguns outros gêneros muito conhecidos: o romance histórico e a sátira social. O que a primeira vista pode parecer meio (?) chato para o público não-especializado, mas na verdade acaba ficando muito, mas muito bom mesmo... (Mesmo desconsiderando o fato de eu ser exagerado, o livro ainda é 'muito bom').
Os dois protagonistas, Jonathan Strange e Mr. Norrell, não se enquadram ao protótipo dos magos: não usam roupas espalhafatosas ou esdrúxulas; não são velhos barbudos e com longas cabeleiras brancas; tampouco usam varinhas (em outras palavras: não são Gandalf, Dumbledore, Harry Potter). Vestem-se como dois cavalheiros deveriam se vestir na época, e portam-se de igual maneira. Ou seja, são ricos, refinados e esnobes. Mr. Norrell é tão comum (e cafona) que chega ao cúmulo de usar aquela peruquinha ridícula que os franceses usaram por muito tempo... Não consigo imaginar nada mais ridículo (e cômico). Mr. Strange, por outro lado, limita-se a ostentar seus cabelos vermelhos (o que contrasta com o velhinho de peruca), porém, nesse livro até essa informação banal torna-se interessante (e até engraçada), já que o narrador, com seu humor ácido, comenta que não consegue achar bonito, ninguém que seja ruivo (deixo claro que essa é uma opinião do narrador do livro).
Nada diferencia esses dois dos outros membros da Londres da época, tirando o fato evidente de que podem fazer magia (senão não seriam magos e o livro não teria graça, é claro). Mas isso não é relevante todo o tempo, embora seja sempre o tema principal. Suas vidas tem tudo o que pode haver de mais ordinário: frequentam bailes, casas de lordes e duques, tomam chá à tarde (evidentendemente, são ingleses!), enfim, tudo aquilo que pode ser facilmente encontrado num livro que retrate a vida social da época, como alguns de Henry James, Jane Austin, etc. Livros que normalmente o povo não gosta, pois são cansativos e todos meio parecidos (mas eu gosto). Contudo, o assunto dessas reuniões nada tem de ordinário, pois até a coisa mais tosca fica legal quando tem magia no meio... Magia de bom gosto, é claro.
Nesse meio tempo Inglaterra e França se batem na famosa guerra e história e ficção se mesclam de tal maneira que, não fosse absurdo, a gente poderia pensar que foram os magos quem deram a vitória à terra da Rainha (vai saber, não é? As coisas, às vezes, são mais legais do que parecem... Ou ao menos eu prefiro pensar assim).
A narração do livro tem sua graça, como comentei. Entretanto, não é aquele humor pastelão (ninguém merece livro com humor brega, não é mesmo?), é um humor refinado cheio de ironias saborosas e ácidos sarcasmos (no melhor estilo House - imagino que já deu para notar que gosto de uma ironiazinha, que, afinal, não faz mal a ninguém). Mas continuando, o livro tem uma narração cáustica que não te faz gargalhar (aliás, acho que nenhum livro te faz gargalhar, nem livro de piada), mas sim abrir aquele sorriso discreto de canto de boca, seguido de uma piscadela. Um humor quase machadiano, não fosse o absurdo da comparação, pois há um abismo que separa os dois mundos - um tão bom quanto o outro, guardadas as devidas proporções.
Também a Magia do livro não é como a de outros livros... Não há, como disse, varinhas, ou cajados, vassouras, ou caldeirões (Nada contra, adoro Harry Potter, mas ninguém precisa de outro Harry Potter, não é? Acho que é bom algo diferente, só para variar). Por outro lado, há muitos espelhos. Nada há de mais importante para esse tipo de mago do que um espelho, alguns livros e uma bacia de prata com água cristalina... No livro qualquer um pode ser mago, desde que estude bastante, tenha espelhos e água cristalina (fácil, não é? É claro que estou exagerando novamente).
Mas enfim, não posso falar mais sobre o enredo (seria muita sacanagem contar o final do livro), quando meu intuito é justamente incentivar a leitura deste livro. Aliás, o que mais me impressiona a respeito da obra de Susanna Clarke é a completa falta de sucesso!!! Como pode? Um livro tão bom! (Eu diria o melhor, mas seria exagero de novo). O livro tinha tudo para dar certo: magia (que está na moda); humor refinado (coisa que nunca sai de moda); uma boa escrita, mas de fácil leitura e entendimento (ninguém quer ler livros que ninguém entende... Tá, a crítica quer, mas isso é outra coisa...); uma trama interessante que surpreende, além de é claro, ser um livro inteligente, sem ser pedante... Junta-se ainda o fato de ter feito um enorme sucesso na Inglaterra e outros países, segundo me consta (não lembro onde vi isso, mas sei que vi em algum lugar, na dúvida, jogue no Google). Por que então, não fez sucesso aqui no Brasil?
Tenho três teorias: a primeira é porque ainda não fizeram um filme (estão prometendo já há alguns anos, mas até agora nada e todo mundo sabe que hoje em dia livro só faz sucesso mesmo depois que vira filme); a segunda é porque o livro é caro (o povo gasta dinheiro com tudo, menos com livros neste país); e a terceira é porque não teve nenhuma propaganda (coisa básica), embora não exista melhor propaganda do que o boca-a-boca e é por isso que resolvi falar desse livro antes de qualquer outra coisa aqui no Blog.
Enfim, só para terminar: Jonathan Strange & Mr. Norrell não é somente a história de dois magos, é a história de dois cavalheiros (acho que isso ficou meio brega, mas acho que deu para entender o espírito)... Como bem exemplifica esse trecho do livro:
“- Pode um mago matar um homem com magia? - perguntou Lorde Wellington a Strange.
Strange franziu o cenho. Pareceu não gostar da pergunta.
- Creio que um mago poderia – admitiu – Um cavaleiro, jamais.
Lorde Wellington assentiu com a cabeça, como se tivesse esperado exatamente esta resposta. [...]”
(Janeiro – Março de 1811)
(Trecho extraído de Jonathan Strange & Mr. Norrell, de Susanna Clarke, São Paulo: Cia. das Letras, p. 321.)
Creio que depois disso não é preciso dizer mais nada, o livro fala por si só... E se não te convenci a ler até agora, eu desisto. Aos que consegui convencer, boa leitura!

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