quinta-feira, 29 de julho de 2010

Para refletir...

Hoje farei diferente... Não vou comentar nenhum livro, ou série, ou filme... Vou simplesmente deixar um texto aqui; um pequeno texto que diz muito sobre muita coisa em poucas linhas... Na verdade é um pequeno poema, de ninguém menos que o Mestre de todos os poetas portugueses: Fernando Pessoa, ele-mesmo, também conhecido como o Ortônimo... Sem mais, o poema:
NATAL
Nasce um deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
***
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.
Quanta sabedoria pode haver em tão poucas palavras... Sabedoria essa que vem permeada pela dor - uma dor bem específica e muito característica de Fernando Pessoa e de alguns de seus heterônimos - a dor de existir... talvez a pior de todas...
Por hoje é só... Se bem que já é muito. Pessoa sempre é muita coisa, e muita gente ao mesmo tempo...
Enfim, coloquei esse poema (um dentre tantos os que adoro de Pessoa, aliás foi difícil escolher), apenas para fazer a gente refletir um pouco, sobre a vida, sobre o mundo, sobre a morte... às vezes é bom, não é? Mas lembrem-se: reflitam, mas não muito, há sempre um limite... se o ultrapassarmos, ficamos loucos... o excesso de razão traz esse problema, por isso é preciso saber dosá-la.
Será que Pessoa sabia qual era o limite? Será que eu sei?

6 comentários:

  1. Antes de ler suas perguntas finais eu já ia me antecipar dizendo que eu estou convencida de que não sei dosar a razão. rs
    E que passo para o lado da loucura em muitos momentos.

    E, nossa!, não imaginei que viria aqui dizer algo profundo sobre mim mesma, mas acabei de o fazer. É... Pessoa, traz esse peso e essa exigência de profundidade. Pessoa e heterônimos obrigam-nos a tocar as feridas e a pensar sobre os limites difíceis e mal-pensados pela fala comum. A beleza da poesia...

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  2. Há poesias de Pessoa e seu heterônimos que são tão profundas, tão agudas, tão ácidas que causam uma angústia desesperadora; provocam um medo irritante em relação aquilo que está por vir, entende o que quero dizer? Mas, ao mesmo tempo, nos ensinam a lidar com essas sensações... Ou pelo menos assim eu tento fazer.

    Hahahaha, você também cruza a linha da sanidade, Bru? Isso não é de todo ruim, e só o fato de ter consciência disso já é um grande passo para saber administrar essa sensação. O perigo é cruzar o limite e nunca perceber...

    A poesia desperta as sensações e reflexões mais complexas... Realmente... Nisso está toda a sua beleza.

    Obrigado por mais essa visita, querida.
    Saudades de falar contigo, acho que nos veremos amanhã, não?

    Beijos,
    Bruno.

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  3. Como aprendiz de cientista e adepto da filosofia budista(e ao mesmo tempo, paradoxalmente cristão), eis aqui um elogio e uma crítica; quando a Ciência, a Religião e a Filosofia deixaram e caminhar juntas e passaram a brigar uma com a outra, as coisas se complicaram. Claro que há dor em existir; a própria Terra foi formada pelo atrito, pressão e aglutinação de partículas, nossa existência não estaria isenta disso. Porém, como se suporta a dor faz toda a diferença; dor é inevitável, sofrimento é opcional. E como acredito piamente, pela Ciência, pela Filosofia e pela Religião, que o Universo pende sutilmente sob a lei da causalidade, sou a favor do pensamento e da reflexão sim, porém com ressalvas. Deprimir-se por uma visão talvez nihilista não é útil; pessimismo nunca venceu nenhuma batalha.
    E para quem pense que a vida não nos dá alívio, é só olhar em volta: o que são os amigos senão um alívio para as dores? Quando precisamos deles(e você, Holmes, é um bom exemplo disso), eles estão lá, como um bálsamo para o coração ferido.
    Refletir demais sobre a morte, sentindo seu peso ants da hora ou remoendo as que ao seu redor é ruim. Esquecer-se de que tudo sofre transformações(a impermanência de tudo o que existe)e fingir que a vida é um mar de rosas também. Há quem vá dizer que sou tendencioso: o negócio é seguir o caminho do meio.
    Forte abraço,
    Sirius

    P.S.: Gosto bastante do Fernando Pessoa, diga-se de passagem.

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  4. Caro Sírius,

    Que alegria receber sua visita, meu amigo... É sempre muito bem-vindo, mas acho que já sabe disso, não?

    Gostei muito de seu comentário, aliás, de sua reflexão, já que fez mais do que um simples comentário... Acho incrível como você consegue conjugar um pensamento científico e espiritual, a um só tempo, e produzir um argumento convincente e coerente. Isso não é fácil para mim, mas continuo tentando – pendo para a Ciência, mas busco a fé... Você tem toda razão: pessimismo não vence batalhas... e por isso eu tento não me crer pessimista. Contudo, minha fé falha algumas vezes e, por isso, tendo à reflexão, talvez excessiva. Eu acredito em tudo um pouco, mas sempre desconfiando...

    Não se preocupe, porém, comigo... Essa postagem nasceu por acaso... e o que escrevi não era o que estava sentindo no momento, e sim coisas em que pensei quando analisei esse poema para a faculdade, junto com outros poemas de Pessoa e Reis – o tema do trabalho era a Morte, mas vale ressaltar que embora eu tenha adorado fazê-lo, não fui eu quem escolheu essa temática fúnebre... rsrs

    É curioso que quando eu escrevi essa postagem a idéia era simplesmente postar um poema que suscitasse reflexão, nada mais que isso. Estava com preguiça de escrever meus longos textos habituais e resolvi fazer algo diferente... Todavia, à medida em que fui escrevendo acabei me perdendo em pensamentos e mudando um pouco o “tom” da postagem, que talvez a tenha tornado mais interessante (ou não). Mas a poesia de Pessoa tem esse efeito sobre mim, sempre que leio um poema dele(s) acabo me perdendo em meus próprios pensamentos – ainda mais depois de já ter refletido tanto para redigir um ensaio. É incrível como ele, Pessoa, consegue sintetizar tanta coisa em tão poucas palavras... Fico fascinado e encantado, mas, às vezes, também perturbado, pois os temas mais recorrentes não são, por mim, facilmente digeridos... Não é, porém, por ser difícil que deixo de gostar.

    Você tem toda razão: a vida não é só dor – aliás, acho que a dor acaba sendo diluída em meio a tantas coisas boas que nos acontecem... Apenas nessa postagem há duas provas fantásticas da beleza da vida: 1. A Amizade, como você mesmo apontou, e agradeço a referência que me fez ^^; e 2. A Literatura, de modo específico, ou a Arte de modo geral, que, em minha opinião, dão sentido e beleza à vida – além de possibilitar que ela se perpetue, afinal, quem lembraria de Pessoa se não fosse a sua Arte?... Creio seriamente que a Arte é uma das poucas coisas capazes de vencer a morte... e é por isso que me apego a ela, a ela, à minha famílias e aos meus amigos... Com essas três coisas não preciso de mais nada... E mando o pessimismo às favas! Hahaha...

    Grande abraço,
    E volte sempre, terei muito gosto em debater contigo filosofia, literatura, religião, enfim, os mistérios da vida... Ou qualquer outra coisa ^^
    Cordialmente,
    Holmes...

    PS: HAHAHAHA, Acho que é impossível não gostar de Pessoa, não é?

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  5. Lógico que quando vi Fernando Pessoa senti uma força me levando ao link.. kkkkkkk
    Nem preciso fazer nenhum comentário sobre ele..
    Mas vim deixar um simples comentário sobre o texto, ele eh profundo, nos faz refletir e pensar. Todos já fizeram perguntas existenciais, inclusive sobre Deus. Se acreditamos em Deus para tentar dá alguma resposta as nossas perguntas que nem a ciência consegue explicar, tentam.. tentam.. Mas por algum motivo preferimos ser levados pelo legado da religião.. e de suas multi ramificaçoes..
    Pensamos, vamos atrás e tentamos nos convencer de algo para aliviar pelo menos essa angustia.. Sempre misturamos dor com esses tipos de reflexoes pq acredito que na dor, nos tornamos mais sensíveis, mais intrisecos..

    Humm do que a gente tava falando mesmo?
    hehehe
    =p

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    1. Esse "do que a gente tava falando mesmo" foi perfeito, Rê! Adoro digressões =D
      Saudades, querida,
      beijos!

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