segunda-feira, 26 de julho de 2010

Teorizando a Teoria de Machado

Imagino que quem já leu algumas postagens do Cérebro-Casa, ou me conhece minimamente, já saiba o quanto admiro Machado de Assis. Claro, para cumprir o clichê de aluno de Letras é preciso ser fã do fundador da Academia –, todavia, por mais que eu sempre tente fugir dos clichês, deste é impossível! É simplesmente inegável o talento de Machado.
Curiosamente, porém, por mais que eu adore seus romances – que são de fato fantásticos! – concordo com meu professor de Literatura Brasileira (o grande Profº. Alcides de Oliveira Villaça) que sempre diz que o melhor de Machado não se encontra em seus textos longos, e sim em seus textos mais breves, em que cada linha transborda de sabedoria – uma sabedoria aguda e ferina, eu acrescentaria.
Acho incrível, por exemplo, a atualidade de seus textos... Alguns são verdadeiras lições de vida e tanto serviram em meados do século XIX, como servem agora no início do XXI. Contudo, dentre todos os contos (ou ao menos dentre os contos que tive a oportunidade de ler) acho que um se destaca pelo seu teor atual: “A Teoria do Medalhão”.
Para quem nunca leu este conto, recomendo veementemente que o leiam - de preferência antes de continuar a leitura de minha postagem... Ele está disponível em PDF no site Domínio Público.
Enfim... O Conto de Machado (que, aliás, não é um conto propriamente dito, ou, ao menos, não é um conto nos moldes tradicionais, pois na realidade é um diálogo) trata-se da conversa entre um pai e um filho que está prestes a completar a maioridade. O Filho - Janjão - é um completo idiota, enquanto seu pai acumula a sabedoria da experiência. Como uma espécie de "presente" de aniversário, o Pai resolve expor uma Teoria para o filho que, se seguida a risca, garantiria o sucesso absoluto e sem grande esforço... E a teoria consiste basicamente em tornar-se um Medalhão.
Bem, antes de mais nada é preciso entender o que significa um Medalhão no contexto do conto, pois certamente não estamos falando de uma espécie de acessório que pode ser pendurado no pescoço, é evidente que não. Medalhão, para Machado, é aquela pessoa que adquiriu certa notoriedade, sem razão aparente - em outras palavras, e usando um vocabulário mais atualizado, é uma sub-celebridade, alguém que quer ser famoso e conhecido a todo custo, sem ter talento algum.
O objetivo de um Medalhão é, portanto, ser grande, ilustre e notável, além de, é claro, estar acima da obscuridade comum.
Uma vez esclarecido isso, vamos a receita do sucesso, segundo a teoria do pai de Janjão, receita em doze passos:
1. Não tenha idéias próprias - isso é muito arriscado; o mais aconselhável é reproduzir idéias alheias.
2. Estude retórica. É fundamental conseguir falar bem, bastante, de forma bonita que encante o ouvinte, mas sem dizer, de fato, qualquer conteúdo.
3. Busque atividades que te distraíam e tente ficar constantemente acompanhado, para não dar ares à imaginação.
4. Uma vez em público permaneça alguns instantes calado, pois o silêncio sugere introspecção.
5. Converse sobre as coisas mais banais e monótonas, são elas que agradam o público.
6. Nunca entre em locais públicos às escondidas, é inteiramente necessário que todos o vejam o máximo possível, de preferência em locais de referência, como em livrarias. Porém, não converse sobre literatura, nem leia nada, isso pode te dar idéias.
7. Utilize um vocabulário rebuscado, máximas latinas (ou, conforme o caso, americanas e francesas), ditados, dizeres, isso traz um maior impacto ao seu discurso, mesmo que você não esteja dizendo nada.
8. Use e abuse da Publicidade, especialmente na forma de autopromoção. Isso garante que não te esqueçam.
9. Presenteie aqueles que te admiram para que continuem te admirando mais e mais.
10. Promova eventos e mantenha boa relação com a imprensa.
11. Quando for fazer um discurso utilize da metafísica, mas não deixe de lado a vulgaridade. A imaginação é completamente proibida.
12. Por fim, fuja a tudo que sugira originalidade, reflexão, etc. E nunca, nunca use de ironias... O riso franco e aberto, porém, é extremamente aconselhável.
Eis a fórmula do sucesso, fácil, não é? A partir disso qualquer um pode ser famoso!
Em suma é isso o que diz o conto - resumi o diálogo em 12 mandamentos práticos e praticáveis: a fórmula para se tornar uma celebridade. E, para o Medalhão que não percebeu ainda, evidentemente, estou satirizando. A partir disso, podemos concluir, portanto, que Machado jamais poderia ser um Medalhão, pois ele transborda ironia como esse conto mostra tão magnificamente. Eis porque Machado é tão atual...
Percebem a semelhança entre o Medalhão do conto e alguns tipos atuais?
Alguns políticos, alguns cantores, artistas, modelos, etc.? Reconheceu alguém? Parece que muita gente seguiu com cuidado as lições de Machado - pobre ingênuo, não captou a ironia, não sabe que nunca se deve confiar no escritor... Aliás, atualmente há programas de TV especializados em produzir Medalhões e eles levam os mandamentos muito a sério e nem precisam ler Machado para isso... Feliz daquele que consegue não ter idéias! Contudo, para os pobres mortais que padecem de imaginação fértil e língua afiada sempre há a possibilidade de ler Machado e ao invés de seguir suas lições simplesmente rir com ele - não um riso escancarado, isso seria de péssimo gosto - mas aquele riso sutil, de canto de boca - possivelmente seguido de uma piscadela, aquele riso irônico que tanto agrada os poetas... Só isso já vale a pena... não vale? Afinal, de que vale ser famoso se não se pode ter idéias?
Enfim, creio que já falo demais, sinceramente espero que, "guardadas as proporções", essa postagem tenha o valor do conto de Machado... Tentei teorizar sua teoria, não sei se consegui, mas enfim, já é tarde, vou dormir.

2 comentários:

  1. Nossa!
    Amei este texto.
    Muito interessante.
    Gosto muito de Machado de Assis.

    :*

    ResponderExcluir
  2. Olá, Mari, tudo bem?

    Seja bem-vinda novamente ao Cérebro-Casa!
    Obrigado pelo elogio... Mas o crédito é todo de Machado, ele é genial, não é?

    Até mais,
    volte sempre!

    ResponderExcluir