terça-feira, 3 de agosto de 2010

A Literatura Fantástica e a Hegemonia Anglófona

Não sei se todo mundo percebe, ou se é coisa da minha cabeça, mas sempre que o assunto é Literatura Fantástica não há reverência maior do que a anglófona, digo anglófona e não inglesa, pois, embora seja inglesa de nascença, também passou pela Irlanda e ganhou o mundo com os Estados Unidos... E não vou mentir: Eu amo a literatura fantástica anglófona! Quer seja a clássica, quer seja a atual! Mas ultimamente conheci muitos outros grandes autores do fantástico, um melhor que o outro, de várias nacionalidades, porém muito menos conhecidos e muito menos lidos. O motivo? Jamais o soube, mas cada vez mais creio que seja o fato de não terem sido originalmente escritos em inglês.
É verdade que a literatura fantástica nos moldes que conhecemos hoje nasceu na Grã-Bretanha. A maioria dos críticos concorda que um dos fundadores do gênero foi Horace Walpole e o seu Castelo de Otranto. Embora, é claro, o fantástico, grosso modo, já pudesse ser encontrado em textos o mais clássicos impossível como a Ilíada e a Odisséia, de Homero, As Mil e uma Noites e, por que não, a Bíblia. Na idade média, por exemplo, uma literatura fantasiosa pode ser lida nos romances de cavalaria... Enfim, o fantástico permeou toda a história da literatura, todavia, é somente no século XVIII que, como eu disse, ele assume os moldes em que se encontra até hoje, ligado ao sobrenatural, ao horror - uma literatura que se baseia na dúvida do leitor, segundo Tzvetan Todorov, sem dúvida alguma, o maior teórico do assunto.
Eis o papel da Inglaterra na formação do Fantástico.
(Um parênteses: Temo que o texto esteja ficando muito teórico e acabe, por isso, ficando enfadonho. Vou, pois, tentar me apressar e chegar logo ao tema que quero debater aqui...)
Bem, é por tudo isso que falei que em antologias de literatura fantástica ou qualquer lista de autores do assunto predominam os autores anglófonos: de Poe, Bran Stocker, Conan Doyle, H. G. Wells, Henry James, R. L. Stevenson, Rudyard Kipling à Stephen King, Lovecraft e Anne Rice. Um bom exemplo é uma antologia chamada Clássicos do Sobrenatural, publicada pela editora Iluminuras, numa linda edição (foto ao lado). O livro traz contos de uns 15 autores, e, curiosamente, todos são anglófonos! Ora, chega a parecer que não há escritores fantásticos de outros idiomas, o que não é, de modo algum, verdade... É fato que há bons autores de língua inglesa que produzem livros desse gênero, porém o que dizemos dos demais países?
Como já postei por aqui recentemente descobri a literatura fantástica brasileira! Conheci autores muito bons como Martha Argel e Giulia Moon, autoras das obras O Vampiro da Mata Atlântica e Kaori - Perfume de Vampira, respectivamente, além de, é claro, André Vianco que eu já conhecia de longa data e sempre admirei... Recentemente descobri ainda uma publicação eletrônica que se dedica especificamente à literatura fantástica, trata-se de uma revista on-line muito bem elaborada que possui o sugestivo nome de Revista Fantástica. A publicação tem o objetivo de divulgar o material que está sendo produzido atualmente em território nacional, ou não... É um ótimo trablho e vale a pena conferir.
Vale dizer, ainda, que o fantástico no Brasil, não se faz, porém, apenas de escritores contemporêneos, e já no século XIX Álvares de Azevedo escreveu Macário, Noite na Taverna e alguns poemas narrativos que sem dúvida podem ser assim classificados.
Também em língua espanhola podemos encontrar grandes escritores que se debruçaram sobre o fantástico, como Borges e Cortázar. Dos alemães e russo nem é preciso dizer, Hoffmann, Púshkin e Gógol, respectivamente um alemão e dois russos, são autores excelentes que se debruçaram sobre a literatura fantástica, embora nem sempre sejam lembrados.
Contudo, são os franceses que me parecem mais prejudicados e é sobre eles que quero falar mais atentamente e indicar algumas obras... É claro que os russos, alemães, latinos e brasileiros que escreveram sobre o fantástico não são tão privilegiados quanto os ingleses e americanos, parece-me, entretanto, que, ainda assim, ganham muito mais espaço do que os francófonos que se enveredaram por esses caminhos...
Afinal, quem conhece Nerval, Mérimée, Gautier, Villiers de L'Isle-Adam e Maupassant? Claro que há quem os conheça, não são autores obscuros, mas a fama que têm não se deve aos textos de fantasia que
escreveram... Como vou exemplificar... Creio que muitos conheçam, por exemplo, Gérard de Nerval e Théophile Gautier. O primeiro é considerado referência entre o romantismo negro - quase um Byron francês, enquanto o segundo foi um Parnasiano, famoso, principalmente, por ser um dos melhores amigos de Baudelaire - lembro por exemplo o fato de As flores do Mal ser dedicado a Gautier. Ambos foram poetas, e não maus poetas... Não obstante, também escreveram prosa, e boa prosa, e seus assuntos preferidos foram aqueles que remetem ao sobrenatural. Villiers de L'Isle-Adam, coitado, sequer ficou famoso, e a quase ínfima fama que conseguiu foi graças às suas peças teatrais, e não aos seus Contos Cruéis, nome sugestivo que deu aos seus textos fantásticos. Tampouco Mérimée teve o mérito que merecia, pois sua obra Carmen acabou ficando maior que o próprio autor de modo que seus outros textos acabaram no esquecimento, ou quase. Aliás, mesmo a sua obra nem sempre é lembrada como sua, pois desde que Bizet a musicou, muitos esquecem que antes da ópera, houve a novela.
Já o caso de Maupassant é ainda mais complexo. Discípulo de Flaubert, amigo de Zola, Maupassant frequentou os círculos de literatura Realista e Naturalista. Seu estilo ácido e irônico, lembram-me muito o nosso Machado, foi, porém, em seus textos de literatura fantástica que encontrei algumas das maiores obras que já li, como no caso de Le Horla, ou O Horla, como ficou o título em português... Ainda assim, Maupassant tem uma sorte rara! É um dos poucos que é editado aqui no Brasil como autor fantástico em edições como a Contos Fantásticos - O Horla e outras Histórias, da editora L&PM (vide foto) e o 125 contos de Guy de Maupassant, publicado pela Cia. das Letras (vide foto), que, porém, não traz APENAS contos fantásticos (embora, é verdade, também valha muito a pena ler seus outros contos... que, de fato, são um melhor que o outro! Em uma outra ocasião espero dedicar uma postagem inteira a ele). Mas enfim, fora Maupassant, é difícil achar autores franceses de literatura fantástica em português, salvo em algumas - raras - antologias como a Contos Fantásticos do Século XIX, organizada pelo célebre autor italiano Ítalo Calvino e publicada em português também pela Cia. das Letras (foto no início da postagem)...
Alguns contos de Mérimée e Gautier podem ser encontrados nela. Mas fora isso, nada, e por que? Não se sabe, mas possivelmente por não terem escrito em inglês. Parece que as pessoas acham que francês só sabe fazer literatura realista, assim como tem quem ache que brasileiro só faz literatura regionalista, e tanto um como outro, não podia ser mais absurdo! Há muito além daquilo que se julga o comum... Eu mesmo que adoro a literatura fantástica e, sobretudo, a francesa não conheço nada contemporâneo, francês e fantástico, apesar de estar certo de que há muita coisa boa por aí - escondidas, como estava Muriel Barbery, a quem dediquei uma postagem, até pouco tempo. Quando eu descobrir algo novo, eu posto aqui, por enquanto, fica a dica dos autores que mencionem, que podem ser encontrados em antologias, ou no original - e apesar de clássicos, são super atuais. Infelizmente ainda não há traduções de tudo o que merecia ser traduzido... Mas quem sabe um dia...
Quanto à literatura anglófona, é imprescindível lê-la. Não podemos, contudo, nos deixar levar e seduzir totalmente, pois é muito fácil nos perdermos na cultura hegemônica e esquecermos todo o resto que há a nossa volta... Como diz Sherlock Holmes é muito difícil ver o óbvio, e o óbvio é que vivemos sob a égide do mundo anglófono e é por isso que ignoramos nossa própria literatura e a de outros países... O curioso nesse caso é esquecermos da França que é quase ou tão hegemônica literariamente como a Inglaterra ou os Estados Unidos, porém, quando o assunto é literatura fantástica, ao menos, por enquanto, são eles que mandam...
A postagem de hoje não ficou bem do jeito que queria e do jeito que gosto de fazer - e ficou gigante!!! Creio que ficou muito academizada e, temo eu, um pouco cansativa, mas enfim, o que vale é que tentei divulgar alguns autores pouco conhecidos, como os franceses que escreverem sobre o fantástico no século XIX, e que merecem ser lidos... Espero que alguém procure por eles - nem que seja um continho -, pois vale a pena, assim como vale a pena ler a literatura contemporânea brasileira... Quem sabe o que Maupassant, Mérimée, Gautier e os outros têm a ensinar? Só lendo para saber...

4 comentários:

  1. Ei, Bruno! Vim visitar seu blog, que está ótimo, por sinal. Beijos e parabéns pela iniciativa.

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  2. Oi, Mari, como você está, querida? Quanto tempo! Que coisa boa vê-la por aqui... fico feliz que tenha gostado ^^! Obrigado!

    Será sempre muito bem-vinda!
    Volte mais vezes... Espero que esteja tudo bem por aí com você e com a pequenina.

    Beijos,
    até mais.

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  3. Olá, meu nome é Daiane.
    Vc conhece Murilo Rubião? Ele era Mineiro e comtempla muito bem a literatura fantástica no Brasil. Li alguns de seus contos fantásticos e recomendo!

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  4. Olá, Daiane, tudo bem?

    Já ouvi muito falar do Murilo, mas ainda não tive oportunidade de ler nada dele. Recomenda algum livro?

    Valeu pela dica,
    e obrigado pela visita!

    Beijos,
    até mais!

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