domingo, 22 de agosto de 2010

O Dia do (amor) Vampiro

Esse ano descobri que dia 13 de agosto é o dia oficial do Vampiro. Uma iniciativa da atriz Mariliz Marins (a filha do Zé do Caixão), que todo ano organiza uma espécie de passeata até o hemocentro onde, então, os participantes doam sangue. Uma atitude bonita, num dia simbólico.
Esse ano, porém, além da já tradicional "Doação de Sangue" em larga escala. O dia dos Vampiros foi comemorado, numa sexta-feira (13!), com a abertura para o público da Bienal do Livro. O evento foi dedicado, nesse dia, ao dia dos Vampiros; para tanto contou com um bate-papo fantástico entre os grandes escritores Martha Argel, Giulia Moon e André Vianco. O bate-papo foi sensacional e deu para conhecer muito mais do universo vampiresco desses grandes autores.
Além disso, estavam lá vários outros autores chegados aos vampiros, como J. Modesto, Adriano Siqueira, Regina Drummond e Nelson Magrini. E tive a feliz oportunidade de conversar com cada um deles...
Aproveitei então para adquirir o livro que esses sete autores lançaram em conjunto: Amor Vampiro. Uma coletânea com alguns contos vampirescos desses autores fantásticos. O livro é bom e o li durante essa semana que passou, e é por isso que só agora venho contar para vocês sobre o Dia dos Vampiros. Amor Vampiro se abre com os três contos do autor Adriano Siqueira, que publicou comigo na coletânea Tratado Secreto de Magia, da Editora Andross. Seu conto de abertura chama-se "O Outro lado do Espelho" e trata-se de um romance entre uma bruxa e um vampiro. Ela quer se mordida, ele a quer morder, mas tem medo do que pode acontecer. Seu conto seguinte é curioso e seu título não podia ter sido mais providencial, pois o li no próprio dia 13: "O Dia dos Vampiros", em que narra a história de uma mulher traída e um vampiro fugido, um vampiro que apesar de sanguinário parece ter vislumbres de humanidade em seu ser sombrio. Por fim há o conto "A Grande Chance", talvez o melhor dos três, embora seja o mais singelo... É um conto discreto que te engana por parecer inocente, mas que... Infelizmente não posso falar mais, senão perde a graça!
O conto seguinte é do consagrado autor vampiresco André Vianco, e sem dúvida o conto faz jus a sua fama. Diferente de outros livros que já li do autor, esse pequeno conto se passa num lugar e num tempo distante, numa era remota, com pessoas simples e bondosas. Um mundo de crenças e superstições. Com uma pitada de terror, conta a história de Maria, uma jovem grávida e completamente desamparada, e Ezra, um humilde lenhador que acaba por se mostrar piedoso e valoroso, a despeito do preconceito vigente no mundo em que habita. Maria dá nome ao conto: "A Canção de Maria", e sua voz rege a narrativa, em que a Sede e o Amor de um vampiro travam uma batalha interna pela sobrevivência de uma criança recém-nascida. Não direi quem vence, mas adianto que o final é muito bonito.
O conto seguinte: "A Flor do Mal", da escritora Martha Argel, já muito conhecida aqui do Cérebro-Casa, é um conto ousado (acho que essa é a melhor palavra para descrevê-lo...). De certa forma, o título desse conto já é em si provocador e para alguém que adora poesia como eu é no mínimo instigante ler um conto cujo título é quase o mesmo do mais célebre livro de Baudelaire... As flores do Mal... Um título ambíguo como esse já dá pistas do que podemos encontrar na história: tal como na obra de Baudelaire, o belo e o maligno se unem desfazendo o maniqueísmo com o qual normalmente dividimos as coisas... Reunidas na figura de uma sedutora vampira italiana, essas características se desdobram em sua obsessão por um jovem mortal que a ama e a odeia, sentimentos que o afligem e atormentam. É interessante notar ainda as nuances entre o que é o Amor para um Vampiro e para um Mortal, ou mais do que isso, as nuances entre o Amor, a Paixão e a exacerbada Obsessão, todos eles permeados pelo Ódio. Contudo, o texto termina por surpreender ao mostrar que os sentimentos das criaturas eternas fatalmente são passageiros... O que me fez pensar: o quão breve deve ser algo efêmero para quem os séculos passam apressados e esquecidos... Para quem é eterno, nada mais é eterno. Isso me fez pensar.
J. Modesto nos brinda com dois contos: "O Amante Notívago" e "O Anjo e a Vampira". Ambos muito bons, cada um a seu modo. O primeiro me chamou a atenção pela técnica narrativa; feito de forma suspensa, em que o narrador apresenta ora uma personagem, ora outra, não se sabe muito quem são, para onde vão, o que querem e por que motivo. O texto vai se construindo aos poucos e as histórias vão se iluminando à medida em que os enredos paralelos se entrelaçam... Já o segundo conto, é mais singelo, mais sutil, mais romântico do que todos os demais, é o a história de um amor impossível, um Romeu e Julieta do mundo sobrenatural... Gostei muito do fim...
Segue, então, o conto de Nelson Magrini, de nome Isabella. Um conto que acima de tudo é inteligente. Acho que essa é a palavra que o resume. Isabella é a vampira mais sobrenatural de todas as do livro, na medida em que tem, por exemplo, o poder de se desmaterializar no ar em forma de fumaça; a despeito disso, porém, a outra personagem de Magrini, um físico, tenta explicar cientificamente os fenômenos insólitos que com ela se passam. Explicações que me encantaram, apesar da resistência com que normalmente encaro a física.
A Lua Cheia permeia todo o conto e é justamente a respeito da Lua que Magrini expõe uma das mais brilhantes ideias que já li a respeito das criaturas noturnas, uma teoria que conjuga o natural com o sobrenatural, o mágico com o científico. Ao fim, o conto toma o tom ousado do conto de Martha Argel, que me surpreendeu completamente.
O conto de Regina Drummond é diferente de todos os demais: não tem propriamente vampiros, ao menos, não no sentido dos demais, e também não tem o amor como tema, ao menos, não como tema vital. É, antes de tudo, um conto de Medo. Daqueles que sugerem e suscitam o medo. Não tem o lado sensual dos contos de Martha, Modesto, Magrini e Giulia, pois não é um conto romântico (não que todos os outros sejam, mas são polvilhados, cada um a seu modo, por um pouco de romantismo). "A Velha, o Jovem e o Casarão" é um conto de Terror, em que sonho e realidade se misturam num labirinto vertiginoso que circunda o leitor enveredando-o involuntariamente numa teia de suspense e mistério. Como disse, o conto se destaca dos demais por ser diferente, mas integra-se ao conjunto pela qualidade... Particularmente, gostei muito desse conto. Talvez, porque não espera algo do tipo dada a temática da coletânea. Ele me pegou desprevenido.
Por fim, mas não menos importante, há os "Dragões Tatuados", de Giulia Moon; o começo da saga de Kaori, a vampira oriental; saga esta que é desenvolvida no livro Kaori - Perfume de vampira, que já está na minha estante à espera de um tempinho para ser lido. O conto de Giulia narra a história de Samuel, um "observador de vampiros", personagem intrigante e engraçada. A história é ótima, e a ideia é fantástica. Em meio ao bairro da Liberdade, em São Paulo, Samuel conhece Kaori, a misteriosa e sedutora vampira. Uma vampira diferente, não só por ser oriental, mas por saber poupar suas vítimas e presenteá-los com "dragões". O intrigante da história, é que termina sem verdadeiramente acabar, e por isso estou tão curioso para ler a "continuação" em forma de romance. Assim que tiver lido, posto aqui, é claro. No conto há uma cena fantástica em que dois dragões "dançam". É uma cena indescritível e não se eu explicar porque estrago a surpresa, só digo que jamais havia pensado em algo assim...
Bem, com isso dá para se ter uma noção geral do livro O Amor Vampiro, um livro muito bom que traça um panorama do que há de melhor da literatura fantástica-contemporânea-brasileira. Agora me resta a missão de ler os livros de cada um desses autores... Em minha estante me esperam o Trevas, de Modesto; Relações de sangue e O vampiro antes de Drácula, de Martha Argel; Guardiões do tempo, de Magrini; e Kaori - perfume de vampira, de Giulia Moon. Preciso de tempo. Muito tempo para ler todos os livros que me esperam em minha estante, mas aos poucos vou postando aqui... Espero também ter mostrado o quanto é interessante e importante "O Dia dos Vampiros".
Sobre a Bienal ainda tenho muita coisa a dizer, mas isso fica para uma outra postagem. Abraços.

6 comentários:

  1. Grande Bruno!

    Foi um prazer tê-lo na Bienal. Obrigado pela bela resenha e pelas palavras dirigidas a Isabella. Já encaminhei aos demais autores.

    Grande abraço, meu amigo!

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  2. Caro Magrini, que honra tê-lo aqui no Cérebro-Casa!

    Espero vê-lo por aqui mais vezes, sua visita será sempre muito bem-vinda. Obrigado!

    Quanto ao que eu disse sobre Isabella, acho que não dei conta de mostrar o quão fantástica ela é. Mas para isso só lendo o conto mesmo ^^.

    Grande abraço, até breve!

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  3. Oi, Bruno! Parabéns pela resenha cuidadosa, que esmiuça bem as particularidades de cada conto. Obrigada pelas palavras dirigidas a Kaori. Ela também agradece! rs
    Beigiunhos gelados!

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  4. Giulia! Que coisa boa vê-la por aqui também ^^. Aliás, o Cérebro-Casa só tem recebido visitas ilustres...

    Obrigado, eu é que agradeço... E mande um beijo para a Kaori, diga que estou ansioso para saber mais da história dela.

    Beijo, até.

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  5. Ahhhh.. Realmente essa bienal parecia estar fantástica, uma pena não ter podido ir.. Preciso me lembrar de pedir à você que me avise sempre que forem ocorrer esse tipo de evento.

    Admito que fiquei com uma tremenda vontade de ler esse livro... Pode me emprestar??

    Além disso, senti falta do nome de Nazarethe Fonseca nessa lista...
    Não sei se você conhece, é a autora de Alma & Sangue (tenho aqui em casa se tiver interesse).
    Embora pouco conhecida (e com menos publicações do que nossos ilustres indicados) também é uma escritora fantástica, me inspirou muito na criação de minha personagem vampira (à qual um dia espero conseguir terminar de escrever sua história e publicar o livro (Amém!)).

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  6. Oi, Gi, seja bem vinda, ^^

    Realmente a Bienal estava Fantástica!
    E fica tranquila, eu aviso dos próximos eventos, sim. Há duas semanas houve o Fantásticon - 4º Seminário de Literatura Fantástica e foi demais! A Nazarethe estava lá junto com todos os outros que citei (menos a Regina Drummond). Eu a conheço sim, embora nunca tenha lido nada dela. Está na minha lista.

    Quanto ao "Amor Vampiro" eu tenho sim, e posso te emprestar, mas no momento ele está com o Felipe ^^. Quando ele terminar eu te passo....

    Enfim, volte mais vezes,
    é sempre bem-vinda ao Cérebro-Casa!

    beijos!

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