terça-feira, 21 de setembro de 2010

Baudelaire, a Ironia e os Espelhos

Muito provavelmente o homem mais genial que viveu no século XIX foi Charles Baudelaire, o poeta que, para muitos, fundou o que hoje chamamos de Modernidade, por assim dizer...
Baudelaire é célebre principalmente por ter escrito dois livros: As Flores do Mal, livro de poemas, clássico na forma e inovador no conteúdo; e O Spleen de Paris - ou pequenos poemas em prosa, inovador em todos os aspectos...
Nestes textos que deu-se o nome de "poemas em prosa", Baudelaire encontrou grande expressão artística e cunhou uma forma que muito se aproxima do que hoje chamamos de "crônica", aqui no Brasil...
Não obstante, seus poemas são muito mais poéticos do que nossa crônica e muito mais profundos...
Abaixo segue um que acho simplesmente perfeito:
O Espelho
Entra um homem horrendo e se olha no espelho.
"Por que olhar-se no espelho se nele só vai se ver com desprezar?"
O homem horrendo me responde: "Meu senhor, segundo os imortais princípios de 89, todos os homens são iguais em direitos; possuo, portanto, o direito de mirar-me; se com prazer ou desprazer, só diz respeito à minha consciência".
Pelo bom senso, sem dúvida, eu estava certo; do ponto de vista da lei, porém, ele não estava errado.
Fantástico, não?
Quem me conhece deve imaginar o porquê de eu ter escolhido esse poema e não outro qualquer, o fato é que espelhos me fascinam! Por mais que a física possa me explicar como a imagem é refletida sobre a superfície lisa do vidro, nada me convence de que espelhos são objetos vulgares... Há algo de mágico neles, mágico e enigmático... (e estou certo de que Jonathan Strange concordaria comigo).
Eu sempre me perguntei, por exemplo, para onde vão nossos reflexos quando não estamos olhando... mas enfim, estou me esquecendo que comecei essa postagem para falar de Baudelaire... (e vou tentar falar um pouco mais antes de falar mais dos espelhos).
Não obstante, além do fato do texto girar em torno de um espelho (o que por si só já me chama a atenção), acho válido atentar para a ironia baudelairiana que me parece simplesmente deliciosa! Acho fantástica a resposta que o homem horrendo dá ao Eu-poético, e ainda mais fascinante é a conclusão que esse faz, jamais admitindo estar errado...
A ironia é traço marcante de Baudelaire... Nada lhe descreve melhor do que aquele sorriso sutil de canto de boca e ar de desdém. O risada franca e aberta lhe é desprezível... e parece-me que faz todo o sentido quando pensamos no modo como via a vida... Para Baudelaire o poeta é um gauche, um ser desajustado e incompreendido, embora iluminado. Só pode, pois, rir ironicamente da ignorância alheia.
E me parece que o tom irônico combina tão bem com a imagem do espelho... (Eis que começo a tecer teorias...)
Pois vejamos: O espelho, parece-me, é um objeto bastante ambíguo; pode não somente deixar a todos arrazados, como também elevar o ego dos mais narcísicos, contudo, quando olhamos para o espelho o reflexo sempre nos olha com aquele sorriso de canto de boca baudelairiano, pois por mais que goste do que está vendo naquele momento, sabe que aquilo é passageiro - você sabe disso e o reflexo também sabe -, mas você sorri porque se acha belo e ele sorri de sua inocência e da própria desgraça. Por isso nunca é um riso franco, mesmo que o seu seja. O dele nunca é um riso completo, afinal, é apenas o riso de um reflexo. Os reflexos têm, creio eu, pensamentos próprios, mesmo que por fora se esforcem para agir como agimos. É tudo um grande truque. O espelho faz, na verdade, como também faz o Eu-poético deste poema: acaricia o próprio ego para não se dar conta do quanto estamos enganados. Sempre estamos enganados, ou melhor, estamos nos enganando. Afinal, não é para isso que servem os espelhos? Para nos iludir? Para mostrar algo que não é, ou que é, mas não parece, ou que parece e é, mas não será por muito mais tempo?
Na dúvida, se acham que estou ficando maluco, vão ler o conto "O Espelho", de Machado de Assis, e depois conversamos... Lá dá para aprender muito sobre espelhos e ironias, mas isso é matéria para uma outra postagem, por hora pensem no que disse Baudelaire... Até mais!
Ouvindo: Carla Bruni!

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