quarta-feira, 29 de setembro de 2010

De novo Baudelaire: Sobre Cães, Perfumes e Poetas

Estava eu lendo mais alguns poemas em prosa de Baudelaire quando me deparo com um que é no mínimo genial... Fiquei tão pasmo com a verdade de suas palavras que tive de vir imediatamente postá-lo aqui, embora eu não goste de repetir os autores que já comentei; Baudelaire, contudo, é uma exceção e merece ser uma exceção, afinal, assim o foi em toda a sua vida, um eterno incompreendido, uma pessoa à parte do mundo, o albatroz no convés de um navio maltratado pelos cruéis marinheiros, como o são igualmente todos os artistas (alguns mais outros menos, isso depende da época e de sua genialidade)... Isso tudo é esplendidamente mostrado, de maneira sutil, irônica e sarcasticamente enganadora, no poema (em prosa) que transcrevo abaixo:

O Cão e o Frasco*

"Meu bom cão, meu belo cão, meu querido cachorrinho, aproxime-se e venha cheirar um perfume excelente, comprado na melhor perfumaria da cidade."

E o cão, meneando a cauda, o que, acredito, é nestas pobres criaturas o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, se aproxima e traz, curioso, seu úmido focinho ao frasco destampado; então, subitamente recuando de terror, late para mim em forma de censura.

"Ah! cão miserável, se eu lhe tivesse oferecido um pacote de excrementos, você o teria farejado com delícia, e talvez devorado. Assim, mesmo você, companheiro indigno de minha triste vida, se parece com o público, ao qual não se deve jamais apresentar delicados perfumes que o exasperam, mas lixo cuidadosamente escolhido."

*(Charles Baudelaire, Pequenos Poemas Em Prosa [O Spleen de Paris]. São Paulo, Hedra, 2009, p. 51.)

Ficou abismado? Decepcionado? Entediado? Irritado? Incomodado? Extasiado? Bem, Baudelaire tem esse efeito sobre as pessoas. Sua escrita é tão mordaz que só faz rir o mais incauto, pois na verdade é ele quem ri o tempo todo de todos nós e de si mesmo – aquele riso ironicamente amarelo de superioridade e desdém de que já falei. O riso do desiludido.

Às vezes, fico pensando o quanto ele sofreu sendo o gênio que foi nos anos 1850. Não deve ter sido nada fácil. Aliás, não seria muito diferente hoje em dia, não é? O público, em geral (e não estou generalizando só simplificando) ainda é como o cão, com a diferença de que este é supostamente (há controvérsias!) irracional... Quanto mais eu vejo o que faz sucesso no cinema, nas rádios, na TV, etc. mais percebo que o povo ainda prefere o pacote de excrementos... triste, não é? E pior! Ainda o devora avidamente e olha com desdém para quem se abisma! É triste, mas é verdade e sempre foi assim, Baudelaire já sabia isso há 150 anos... E sofria por isso. Aliás, o artista é sempre quem sobre, já dizia Schopenhauer. Mas enfim, depois disso tudo eu me pergunto quando é que o povo vai preferir o perfume?

Ouvindo: Dig – Incubus!

2 comentários:

  1. adorei... Baudelaire é ácido e incomoda, e é tão, mas tão bom, que nos incomoda ainda hoje.

    tava com saudade do seu blog. ;)

    beijos
    bru

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  2. Oi, Bru! tudo bem, querida?

    E eu estava com saudades de suas visitas.
    Baudelaire é demais, né?
    Ele consegue não apenas nos incomodar,
    mas também fazer com que nos coloquemos
    no mesmo lugar do poeta, e, às vezes,
    até do Cão, hahaha, não é mesmo?

    Ele me instiga. "Pequenos poemas em prosa"
    foi sem dúvida um dos melhores livros que já li.

    Volte mais vezes, querida.

    Beijos,
    Bruno.

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