quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Para refletir... [2]

Faz tanto tempo que não apareço por aqui... A ausência quase total de tempo não me tem permitido esvaziar o meu Cérebro com a frequência que gostaria... Mas enfim, deixo aqui mais um poema para refletir, que, por puro acaso, e somente me dou conta disso agora, tem muita relação com o poema de Fernando Pessoa que postei anteriormente. Na verdade estou trabalhando sobre o poema abaixo em minha pesquisa e por isso quis compartilhá-lo com vocês. Achei muito bonito e profundo...
Soneto de Gelo
Camilo Pessanha
Ingênuo sonhador - as crenças d'oiro
Não as vás derruir, deixa o destino
Levar-te no teu berço de bambino,
Porque podes perder esse tesoiro.
***
Tens na crença um farol. Nem o procuras,
Mas bem o vês luzir sobre o infinito!...
E o homem que pensou, - foi um precito,
Buscando a luz em vão - sempre às escuras.
***
Eu mesmo quero a fé, e não a tenho,
- Um resto do batel - quisera um lenho,
Para não afundir na treva imensa,
***
O Deus, o mesmo Deus que te fez crente...
Nem saibas que esse Deus onipotente
Foi quem arrebatou a minha crença.
Bonito não é? E um pouco desesperador também... Os poemas do Camilo Pessanha assim como os do Fernando Pessoa têm normalmente esse efeito desistabilizador. Ao menos sobre mim... Mas talvez eu seja muito suscetível a levar em consideração o que leio em poesia... Mas enfim, o EU-lírico desse poema, e também de outro de Pessanha e Pessoa, normalmente é um sujeito tão perturbado, tão cindido, fragmentado e desiludido que só resta uma infindável descrença e um uma espécie de culo à dor, não a uma dor vulgar, mas a uma dor cósmica - a dor de estar vivo (Por trás disso há toda uma filosofia de viés schopenhaueriano, mas isso é matéria para uma outra postagem). Mas o que acho bonito de verdade é o conselho que o Eu dá ao leitor - "O Ingênuo Sonhador"; Embora ele tenha perdido toda e qualquer esperança, toda e qualquer fé nos deuses e nos homens, ele guarda a lembrança saudosa dessa época. Não existe nada mais acalentador do que acreditar, não lhe importa em que... Enquanto se acredita as coisas são mais mágicas e tudo pode ser possível... Viver torna-se mais fácil. Enfim, eis o conselho do Eu do poema de Pessanha, alguém que perdeu toda e qualquer Fé: Acredite o máximo possível! Tenha Fé e Esperança! Eis tudo.
Bonito não é? Sempre aprendo muito com os Poemas de Camilo... E acho que o título veio bem a calhar... Não há gelo propriamente dito, mas hoje está bastante frio... E eu adoro o frio.
PS: Sempre vejo isso nos blogs e acho interessante então começarei a fazer também:
Estou ouvindo Enya.
Assim contrasto o desespero do desiludido do poema de Pessanha com a calma e tranquilidade que a voz da Enya me proporciona...

Nenhum comentário:

Postar um comentário