terça-feira, 14 de setembro de 2010

Por que lemos? (Reflexão a propósito de um fragmento de Roland Barthes)

Uma das disciplinas que estou cursando esse semestre se trata de um curso monográfico sobre o crítico literário francês Roland Barthes.
Para quem não conhece, Barthes foi um dos poucos críticos (imagino que do mundo inteiro) a ver seus livros virarem best-sellers, de tão lidos e comentados que eles foram.
Barthes é conhecido por algumas teorias malucas, entre elas a da "Morte do Autor", que prega (grossíssimo modo) que só podemos estudar uma obra literária quando seu autor já morreu. Ou então sua posição de que escrever crítica é também escrever literatura e que, portanto, um texto crítico deve ser escrito com cuidado, tendo sempre em vista a ornamentação e a linguagem...
Aqui vou falar um pouco sobre uma de suas teorias, e tentar ampliá-la em outra teoria que insanamente me veio a mente... Vamos ver se dá certo. O fragmento que me incitou a refletir sobre o motivo de lermos encontra-se no prefácio da obra Sade Fourier Loyola - obra que se dedica ao estudo desses três autores franceses. Vejamos o que diz Barthes:
Nada de mais deprimente do que imaginar o Texto como um objeto intelectual (de reflexão, de análise, de comparação, de reflexo, etc.). O texto é um objeto de prazer. O gozo do Texto geralmente é apenas estilístico [...] Às vezes, entretanto, o prazer do Texto se dá de uma forma mais profunda (é só então que pode-se verdadeiramente dizer que há Texto): quando o texto "literário" (o Livro) transmigra em nossa vida, quando uma outra escritura (a escritura do Outro) chega a escrever fragmentos de nosso próprio cotidiano, breve quando se produz uma co-existência. O índice do prazer do Texto está então em podermos viver com Fourier, com Sade. Viver com um autor não significa dizer necessariamente cumprir em nossa vida o programa traçado nos livros por este autor [...]; trata-se de fazer passar em nosso cotidiano fragmentos inteligíveis (de fórmulas) resultantes do texto admirado. [...] O prazer do Texto comporta também um retorno amigável do autor. O autor que regressa não é certamente aquele que foi identificado por nossas instituições (história e ensino de literatura, de filosofia, discursos da Igreja); não é mesmo o herói de uma biografia. O autor que saí de seu texto e entra em nossa vida, não tem unidade; ele é um simples prural de "encantos", o lugar de alguns detalhes tensos; fonte, no entanto, de vivo brilho romanesco, um canto descontínuo de amabilidades, nos quais, todavia, nós lemos a morte mais certamente do que na epopéia de um destino; não é uma pessoa (civil, moral), é um corpo.
(Roland Barthes, Sade Fourier Loyola, pp. 704-5 - tradução nossa).
(Nossa não tinha me dado conta do quão grande era esse fragmento, em meu caderno ele parecia muito menor... Não sei se ele está claro. Barthes não escreve de forma fácil e a tradução que acabei de fazer para postá-lo aqui não deve ajudar muito, creio eu, uma vez que está totalmente improvisada... Mas enfim... espero que dê ao menos uma noção do que ele quer dizer. Mas se não ficou claro, tentarei explicar ao longo dessa postagem...)
Segundo Barthes os textos não são objetos intelectuais e sim objetos de prazer estético, Indo, porém, um pouco mais além do que ele disse podemos pensar que o prazer que a leitura proporciona é um prazer ambíguo, uma vez que ao mesmo tempo nos agrada e provoca certo desconforto (ao menos isso acontece com textos de grandes autores tais como Clarice Lispector, Joseph Conrad, Machado de Assis, Baudelaire, etc. etc.) nem que esse desconforto seja - e isso é palpite meu - porque o livro acabou.
Mas como um texto consegue provocar esse prazer?
Barthes diz também nesse trecho que a grandeza do texto literário está em fazer com que o leitor "transmigre" para a história, ou que esta se incorpore à vida do leitor. É, pois, na diluição das fronteiras entre realidade e ficção que parece se encontrar tal prazer estético, ou satisfação, de modo que, ainda segundo ele, conheceríamos o autor pela leitura; não o autor histórico, mas a verdadeira essência do autor (isso já é interpretação minha a partir do texto de Barthes). Concluo, portanto, e aqui já passo a tecer minha própria reflexão a partir do que li do crítico e do que minha professora disse a respeito do assunto, que segundo Barthes, "Ler" é viver com o autor, viver com (ou a partir de) um texto. O livro proporciona uma espécie de companhia; combate, por isso, o tédio e a solidão.
Então acho que mais do que suscitar uma sorte de prazer, a literatura nos faz companhia, uma vez que nos transporta para um outro mundo, para uma outra mente. Quando lemos, é o próprio autor quem nos faz companhia, mas também seu mundo, suas personagens. "Ler" é um paliativo para a solidão. Afinal, eu creio que todo o tempo nós fugimos da solidão, mesmo quando pensamos fazer o contrário... Confuso? Vou tentar explicar...
A TV, o Rádio, a Literatura, a Música, o Cinema, os Video-Games, enfim, praticamente tudo aquilo que proporciona um entretenimento solitário me parece ser, na verdade, um tipo de artifício para combater a solidão, pois fatalmente em algum momento todo mundo se sente só, mesmo quando há a presença de mais pessoas (ter gente presente não significa ter companhia!) e penso que ninguém gosta de se sentir só.
Imagino que você, leitor, esteja pensando: "Mas, às vezes, eu gosto de ficar sozinho". Bem, é extremamente provável que goste mesmo, mas em resposta a isso penso o seguinte: Ninguém gosta de ficar sozinho, porém como é totalmente impossível termos sempre uma companhia humana que nos agrade buscamos consolo naquilo que nos fornece entretenimento: num programa de TV, num filme, em algo para ler ou ouvir. Buscamos a companhia virtual desses recursos, e de tal forma nos habituamos a ela que sentimos uma espécie de "saudade" dessa companhia fictícia quando dela somos privados. Em outras palavras, às vezes, todos querem ficar sozinhos, pois simplesmente estão sentindo falta daquilo que inicialmente servia para lhe matar a solidão ou o tédio. Não sei se estou conseguindo me explicar claramente, mas, em suma, o que quero dizer é que só gostamos de ficar sozinhos, pois sentimos falta da companhia que buscamos por termos ficado sozinhos. No caso de Barthes essa companhia é um livro literário, mas pode ser diversas outras coisas como já expus.
E onde Barthes se encaixa nisso tudo?
Então, tentando unir a teoria de Barthes com a minha reflexão, penso que gostamos da companhia artificial porque tal como explicou Barthes o texto faz com que vivamos junto com o seu autor (e eu acrescentaria, com as suas personagens). Ao ler um livro você compartilha de um mundo à parte, você se insere nele, conhece pessoas, tem experiências, e o mesmo poderia ser dito a respeito de um filme, de um jogo, de uma música. Ou seja: As pessoas lêem primeiro porque se sentem sozinhas, e depois porque se habituam ao tipo de companhia que um livro proporciona. Afinal de contas, esse tipo de companhia é sempre garantida e você pode dispor dela à vontade; se ela te irrita, você a deixa de lado, pegando-a novamente se sentir saudades.
Aplicando essas teorias a um exemplo prático, posso dizer que o Blog funciona de maneira parecida; escrevendo aqui sinto uma espécie de companhia: a companhia de um leitor pressuposto, mas que nem sempre existe. Sei que é bizarro, mas ainda assim é verdade. A internet nada mais é do que uma grande forma de buscar companhia que, nesse caso, pode ser real ou virtual, ou um intermediário entra as duas. Mas voltando ao tema do blog, penso que ninguém escreve se não achar que vai ser lido, seja um blog, seja um conto, seja um livro. Eu comecei a escrever com 13 anos quando comecei a ficar mais tempo sozinho... Isso me parece bem sintomático. Se lemos porque queremos companhia, acho que escrevemos mais ou menos pelo mesmo motivo (embora aí estejam envolvidas algumas outras questões), só que nesse caso criamos nossa própria companhia.
Acham que estou viajando? É bem provável, ler literatura (ou crítica literária) tem esse efeito sobre mim...
PS: Creio que as últimas postagens foram um pouco densas demais, logo mais espero retomar as minhas resenhas, mas, para tanto, preciso de tempo para ler mais... Estou sentindo falta desse tipo de companhia...

2 comentários:

  1. Seu blog e excelente, seus textos também são ótimos, vou tentar me inspirar no seu blog para melhorar o meu, se quiser depois e só da uma olhada o link ta logo a baixo: http://derlandreflexivo.blogspot.com/

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  2. Olá,Derland, tudo bem?

    Obrigado pelas visita e pelos elogios. ^^
    Fiquei lisonjeado.

    Espero que venha sempre visitar o Cérebro-Casa.

    Já estou seguindo seu blog.

    Abraços,
    Bruno.

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