segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Um poema-canção (de ninar)


Camilo Pessanha, sem dúvida, é um dos melhores poetas de língua portuguesa. Pessanha era português, simbolista e viveu quase toda a vida adulta em Macau, na China. Sua poesia era muito admirada por ninguém menos do que Fernando Pessoa. Não obstante, Camilo parecia ser modesto e pouco se preocupou em preservar sua obra que só foi recolhida e publicada por amigos e que até recentemente não tinha sequer uma boa edição... É, pois, um poeta digno de nota, mas que, infelizmente, foi toda sua vida (e sua morte) negligenciado... Vamos ver se consigo reverter isso divulgando aqui um pouco de seu trabalho (nossa que pretensão!), não, não espero tanto, mas gosto de lembrar daquela fábula do beija-flor que tentou apagar sozinho o incêndio, então, acho válido - cada gota d'água faz seu trabalho afinal... Quem sabe um dia o trabalho dele seja mais reconhecido, não é mesmo? Em outra ocasião postei um de seus poemas na postagem "Para refletir [2]..." e agora quero
lhes mostrar uma poesia que acho particularmente bonita...




Viola Chinesa¹
(A Wenceslau de Moraes)
Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa.
Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.
Mas que cicatriz melindrosa
Há nêle que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?
Ao longo da viola, morosa...



O que talvez mais me chame a atenção nessa poesia é seu caráter extremamente musical, que faz com que quase se possa sentir embalar pelo som suave e vagaroso da viola... O poema não deve ser lido de forma rápida! É preciso achar a cadência e se deixar levar... Lentamente... Morosamente...
Pessanha é sempre assim: musical. E também melancólico, coisa que também me agrada; contudo, não neste caso. Gosto de "Viola Chinesa" simplesmente por sua sonoridade e leveza (não que ele não seja também rico em questão de conteúdo), mas ainda assim gosto de deixar me encantar... Ele me transmite uma calma melancólica deliciosa, fato que o torna infinitamente dissonante (para usarmos um vocábulo litero-musical) do outro poema de Camilo que comentei aqui: O soneto de Gelo, que, em contraponto, é rígido, áspero (talvez essa não seja uma boa palavra, mas enfim), a voz da desesperança, a personificação do desencanto... "Viola Chinesa" não se pretende nada disso, é uma canção, melancolicamente monótona no melhor estilo verlainiano, mas ainda mais despretensiosa...
No embalo dessa música o leitor sente-se conduzir:
Pra lá,
pra cá,
pra lá,
pra cá,
ao longo da viola morosa...
Pra lá,
pra cá,
pra lá,
pra cá,


Até, enfim, adormecer...
Ora vejam só! Parece que s

em querer parafraseei Bandeira, então de bônus aqui vai mais um poema de nome muito sugestivo:


Debussy

Manuel Bandeira
Para cá, para lá . . .
Para cá, para lá . . .
Um novelozinho de linha . . .
Para cá, para lá . . .
Para cá, para lá . . .
Oscila no ar pela mão de uma criança
(Vem e vai . . .)
Que delicadamente e quase a adormecer o balança
— Psio . . . —
Para cá, para lá . . .
Para cá e . . .
— O novelozinho caiu.



Qualquer semelhança não foi mera coincidência, embora Bandeira esteja muito mais em paz do que Pessanha em seu tormento schopenhauriano...
Ainda assim, ambas as canções embalam...
E assim adormecemos...
Ouvindo: "Claire de Lune", de Claude Débussy...


¹Camilo Pessanha, Clepsydra, Ed. Crítica de Paulo Franchetti, 2ª ed. Lisboa, Relógio d’Água, 1995, p. 108.

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