Na França da segunda metade dos anos 1960, um grupo de poetas, escritores e matemáticos (!!!) se reuniu para fazer algo novo dentro da Literatura. A ideia era fazer algo original que saísse da mesmice que vinha dominando a literatura da época. O grupo autodenominou-se “OuLiPo” (Ouvroir de Littérature Potentielle), que significa algo como “Oficina de Literatura Potencial”...
A Literatura Oulipiana se baseia no princípio de escrever a partir de “contraintes”, isto é, de restrições que eles mesmos se impunham para forçar a produção de uma obra mais original, o que de fato dava muito certo. Como exemplo de livros célebres do OULIPO, lembro aqui de La Disparition (O Desaparecimento), de Georges Perec, que trata-se de um romance policial, em que a letra “E” desaparece, assim como desaparece em todas as palavras do texto, escrito sem um único “E” (salvo no nome do autor...); vale lembrar que em francês o “E” é a letra mais frequente de todas. Ou então, o caso de Raymond Queneau, um dos fundadores do grupo, que escreveu a obra Exercices de style (Exercícios de Estilo), que se compõe de vários textos curtos que narram todos a mesma história por diversos vieses...
Havia diversas “contraintes”, algumas mais simples de se entender como a Perec, outras mais complexas como a “N + 7” que consistia em reescrever um texto a partir da substituição de cada substantivo do texto pelo sétimo substantivo que lhe seguia ao dicionário, entendeu? (eu também não!). Ou então, você podia escrever um texto no qual a inicial de cada palavra deveria seguir a ordem do alfabeto. Apenas alguns exemplos, dentre uma infinidade de restrições, que os próprios autores se impunham...
Os Oulipianos se definem como camundongos que constroem seus próprios labirintos... É uma proposta nova, algo diferente, e que existe até hoje!!! (Confiram o site:http://www.oulipo.net/). Nomes célebres como o do escritor italiano Ítalo Calvino estão entre na lista dos grandes oulipianos.
Enfim, imagino que se perguntam por que falo tanto de um movimento francês sendo que me propus a falar de um brasileiro, não é? O fato é que descobri um Oulipiano brasileiro...
Já há algum tempo acompanho o trabalho de meu amigo Edson Rossatto, editor da Andross Editora... Também contista e roteirista de histórias em quadrinhos, Edson sempre demonstrou um certo gosto por impor a si mesmo, tal como os Oulipianos originais, um labirinto, uma dificuldade para que pudesse superá-la. Sua “contrainte” é simples de entender, mas dificílima de por em prática: consiste simplesmente em se impor um limite de caracteres que o obriga a enxugar seu texto o máximo possível, de modo a extrair-lhe a essência em poucas e vitais palavras.
Num primeiro momento Edson fez Microcontos, pequenas narrativas de até 600 caracteres, a restrição, porém, não foi suficiente para o autor que queria textos cada vez mais e mais concisos... Somente o sumo de sua literatura! Chegou então ao conceito de Nanocontos, que se constituem de 100 caracteres exatos! Nem mais nem menos! Seus nanocontos são pequenas histórias com começo, meio e fim; concisas, dizem o que há para ser dito. São pequenos versos que trazem em si uma unidade que comporta todo um enredo.
Seus nanocontos podem ser lidos no blog: http://www.cemtoquescravados.com/ e estão no livro Cem Toques Cravados, que será lançado no próximo dia 04 de Outubro de 2010 e está a venda na Livraria Cultura (Mais detalhes abaixo).
Enfim, entenderam agora? Nada mais OuLiPo do que um livro inteiro composto com uma “contrainte” dessas... Quem sabe não começamos uma nova tradição de Literatura Potencial aqui, em Terras Tupiniquins... O Edson já está fazendo a dele...
Vejo vocês dia 4?
Para saber mais sobre a obra, segue abaixo o texto de divulgação do livro
Cem toques cravados, de Edson Rosatto
LIVRO REÚNE NANOCONTOS COM APENAS CEM TOQUES
Cem Toques Cravados, de Edson Rossatto, foi inspirado em obra de Mário Lago e em tiras de quadrinhos. O lançamento acontece no próximo dia 4, na Livraria Martins Fontes,
Os nanocontos estão para a literatura assim como as tiras estão para os quadrinhos: uma mensagem rápida, de sentido completo e instantâneo, num espaço reduzido. O escritor e roteirista Edson Rossatto vem se dedicando ao gênero nos últimos meses e acaba de reunir sua produção no livro Cem Toques Cravados (Andross Editora, 128 páginas, R$ 19,90), que tem lançamento no dia 04 de novembro,
Alguns dos nanocontos apresentados na obra são inéditos, enquanto outros foram publicados originalmente no blog www.cemtoquescravados.com e no Twitter (@cemtoques). Desde setembro, alguns deles vêm sendo veiculados nos vagões do metrô de São Paulo por meio da TV Minuto.
A experiência de Rossatto com textos curtos vem desde 2004, quando escreveu o livroCurta-Metragem exclusivamente com textos de até 600 caracteres, os chamados microcontos.Nos anos seguintes, editou duas antologias, Expresso 600 e Histórias Liliputianas, ambas de microcontos.
Inspirado no livro 16 Linhas Cravadas, do escritor e ator Mário Lago, Rossatto impôs-se o desafio de escrever os nanocontos com exatos cem caracteres, como Mário se impôs escrever com exatas 16 linhas. O autor lembra que outra inspiração foi o trabalho dos desenhistas de tiras de quadrinhos. “Como não sei desenhar, parti para um formato literário que tivesse o mesmo efeito das tiras”, explica.
Recheados de fina ironia, os nanocontos de Rossatto assemelham-se a outro gênero literário, a crônica. Em sua maioria, são instantâneos do cotidiano, mas há também textos em forma de epitáfios, classificados e outros.
ALGUNS NANOCONTOS:
Triste, afogou as mágoas na bebida e acabou com tudo: mandou chover quarenta dias e quarenta noites.
Queria que o pai comprasse um novo porque o outro morreu. “Irmãos não são vendidos em lojas, filho”.
“Só acredito vendo”, disse Tomé. Então Jesus se deitou no chão e fez trezentas flexões em um minuto.
Mãos dadas pelas ruas. Ele conduzido por ela. Coração apertado pela separação: primeiro dia de aula
LANÇAMENTO:
Cem Toques Cravados
Autor: Edson Rossatto
Data: 04 de novembro de 2010
Local: Livraria Martins Fontes
Avenida Paulista, 509 – próximo à estação Brigadeiro do Metrô
Horário: das 18h30 às 21h30
Informações: (11) 2167-9900
Organização: Andross Editora
Realização: Livraria Martins Fontes
Gostei muitíssimo dessa matéria. Bruno, você está de parabéns!
ResponderExcluirObrigado, Edson! Mas o crédito é mais seu que meu. ^^
ResponderExcluirMuito obrigado pela visita,
Você é sempre muito bem-vindo aqui no Cérebro-Casa.
Grande abraço!