terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Embriagado com Poesia - Sobre outro poema de Baudelaire

Há quanto tempo não venho esvaziar o meu Cérebro-Casa! Dezembro passou inteiro sem que houvesse tempo de passar aqui e janeiro já vai alto e só agora, finalmente, consegui vir postar aqui no blog – O Cérebro-Casa já está cheio; há tanto a postar. Fico devendo uma nova resenha para a próxima postagem, mas por enquanto para marcar o início de 2011, e, para não perder o costume, segue mais um poema em prosa do grande Baudelaire:

EMBRIAGUEM-SE

Há que estar sempre embriagado. Tudo está nisto: é a única questão. Para não sentir o fardo do Tempo que lhes dilacera os ombros e os encurva para a terra, embriagar-se sem cessar é preciso.

Mas de quê? De vinho, poesia ou virtude, a escolha é sua. Mas embriaguem-se.

E se às vezes, na escadaria de um palácio, na verdade relva de um barranco, na solidão morna de seu quarto, vocês acordarem, com a embriaguez já diminuída ou sumida, perguntem ao relógio, ao vento, à vaga, à estrela, às aves, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntem que horas são; e o relógio, o vento, a vaga, a estrela, as aves responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se! Sem cessar, embriaguem-se! De vinho, poesia ou virtude, a escolha é sua”. [1]

Particularmente acho esse poema fantástico! É uma teoria interessante esta de que para que não sintamos o peso do tempo é preciso estar sempre “embriagado”, porém, o melhor de tudo é que, para ele, “embriagar-se” possui múltiplos sentidos. Em outras palavras poder-se-ia dizer que o segredo da felicidade é se distrair, não importa qual forma seja usada, pois, uma vez que consigamos nos distrair, não sentimos nem o Tédio nem o Tempo que assustam e afligem. Os dois maiores problemas que alguém pode enfrentar.

Acho que já está claro qual modo eu escolhi para me embriagar, não é mesmo? (visto que meu blog é sobre literatura). E, você, se embriaga do quê?

Acabei hoje de ler o livro Trevas, de J. Modesto. Um livro fantástico, em breve farei uma resenha.

Ouvindo: “Nothing’s Changed”, do The Calling.


[1] Charles Baudelaire, Pequenos Poemas em Prosa, Ed. Bilíngüe, São Paulo, Hedra, 2009, pp. 176-7. (trad. de Dorothée de Bruchard)

ENIVREZ-VOUS

Il faut être toujours ivre. Tout est là : c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.

Mais de quoi ? De vin, de poésie ou de vertu, à vous guise. Mais enivrez-vous.

Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est ; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront : « Il est l’heure de s’enivrer ! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous ; enivrez-vous sans cesse ! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. »

2 comentários:

  1. Que coisa mais linda é este poema! Nunca havia lido Baudelaire antes... Mas creio que agora já sei de que devo me embriagar daqui pra frente...

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  2. Oi, Alana, tudo bem?

    Seja bem-vinda ao Cérebro-Casa!!!
    Espero que volte mais vezes.

    Quanto ao Baudelaire,
    bem, sou suspeito para falar, é um de meus autores preferidos. Ele é um gênio! Se gostou dele procure o Marcador "Charles Baudelaire" e
    leia outros poemas em prosa dele tão fantásticos
    quanto este.

    Beijo,
    até mais!

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