segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para refletir... [4]

Estava eu lendo o livro Crítica e Verdade, de Roland Barthes e me deparei com a seguinte passagem:

“Ouve-se frequentemente dizer que a arte tem por encargo exprimir o inexprimível: é o contrário que se deve dizer (sem nenhuma intenção de paradoxo): toda a tarefa da arte é inexprimir o exprimível, retirar da língua do mundo, que é a pobre e poderosa língua das paixões, uma outra fala, uma fala exata.”

(Roland Barthes, Crítica e Verdade, São Paulo, Perspectiva, p. 22).

Isso me fez refletir.

É comum se pensar que a arte é uma maneira de se dizer o indizível de se atingir o inefável (ao menos era assim que românticos e simbolistas pensavam), porém, segundo esse fragmento de Barthes a arte não exprimiria o inexprimível e sim o contrário: tornaria inexprimível o que é exprimível. Ou seja, tornaria, segundo minha leitura, mais complexo aquilo que é banal; em outras palavras, daria cor àquilo que vemos todo dia em tons de cinza. Talvez seja esse mesmo o papel da arte; ao tornar algo simples em algo complexo estamos lhe dando importância, fazendo com que o leitor (no caso da literatura) deva se esforçar para compreendê-la e assim lhe dê valor, valor que possivelmente não daria se tal coisa estivesse em sua roupagem tradicional. A arte complicaria o mundo para mostrar o óbvio que se perde na banalidade. Perdido em tais reflexões lembrei-me de outro fragmento, desta vez do poeta simbolista francês Stéphane Mallarmé que, embora pregue a busca pelo indizível, só vem a confirmar a teoria de Roland Barthes (ou assim me pareceu à primeira vista):

- Creio, [...], que, no fundo, os jovens estão mais próximos do ideal poético do que os parnasianos, que ainda tratam seus temas [...] apresentando os objetos diretamente. Penso ser preciso, ao contrário, que haja somente alusão. A contemplação dos objetos, a imagem alçando vôo dos sonhos por eles suscitados, são o canto; já os parnasianos tomam a coisa e mostram-na inteiramente: com isso, carecem de mistério; tiram dos espíritos essa alegria deliciosa de acreditar que estão criando. Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que consiste em ir adivinhando pouco a pouco: sugerir, eis o sonho. É a perfeita utilização desse mistério que constitui o símbolo: evocar pouco a pouco um objeto para mostrar um estado d’alma, ou inversamente, escolher um objeto e extrair dele um estado d’alma, através de uma série de decifrações.[1]

Para Mallarmé o poeta (ou o escritor, ou o artista, não importa) teria esse importante papel de fazer o leitor acreditar que está criando e isso só viria da complicação das coisas através do que ele chama de sugestão. Embora aqui complicação não pareça ser um termo apropriado; talvez seja melhor ocultação ou ainda mistificação, enfim.

(Acho que estou eu a complicar meu texto... Mas não é essa minha intenção... Eu juro.)

Ora, de certa forma Mallarmé tem razão, parece-me bem mais interessante algo que se mostre pouco a pouco do que uma história (ou poema) que se revela a um só olhar. Nada mais entediante. O trunfo da arte estaria então em complicar (ou ocultar), mas complicar-ocultar não seria, evidentemente, inviabilizar o acesso... Inviabilizar seria burrice. Fazer algo para que ninguém tenha acesso (no sentido de impedir a compreensão) não tem utilidade, tampouco fundamento. Não. Complicar aqui é, para mim, esconder o óbvio, simplesmente. Embora dentro do contexto do simbolismo pudesse, sim, significar inviabilizar o acesso da massa, mas isso era uma pretensão de dado grupo de poetas do século XIX que queria impedir, de certa forma, a comercialização da arte, e faziam isso ao produzir uma arte de difícil acesso ao público não-especializado. Havia lá sua coerência dentro do movimento; essa ideia, porém, não se encaixaria no século XXI quando o que realmente importa é ser lido e compreendido.

Mais confuso do que nunca, perdido em meu Cérebro-Casa, lembrei-me do que diz o professor e escritor Felipe Pena (citação, aliás, já comentada aqui no blog):

"Em literatura, entretenimento não é passatempo. É sedução pela palavra. Tudo é linguagem, mas a narrativa é a base da literatura. Uma história bem contada é o objetivo que perseguimos.A ficção brasileira precisa ser acessível a uma parcela maior da população. O que não significa produzir narrativas pobres ou mal elaboradas. A escrita simples não é superficial: é a tradução laboriosa da complexidade. Escrever fácil é muito difícil."
(Citação tirada do cabeçalho do Blog de Felipe Pena...)

Pena considera que o difícil mesmo é dizer algo complexo de forma fácil. E não dá para discordar. Ora, Mallarmé parece achar que ao esconder o óbvio o artista torna sua obra mais interessante e Barthes acha que a arte está em tornar o que é corriqueiro em algo extraordinário; o que também não dá para discordar. Tudo isso não seria contraditório? Possivelmente, mas de alguma forma os três raciocínios apresentam uma lógica inquestionável dentro de seus contextos teóricos e sócio-espaciais. Arrisco-me a dizer que se complementam. (Será que estou forçando a barra?)

Será que isso tem sentido? Vou tentar me explicar: Barthes aconselha (segundo minha leitura, é claro) a tornar complexo o que parece óbvio e extrair da língua aquilo que não é comum; Mallarmé aconselha a esconder o óbvio através de uma série de sugestões, possibilitando, por consequência, uma série de decifrações; Pena, por sua vez, aconselha a traduzir o complexo em linguagem assimilável e simples, mas nem por isso superficial. Ora não é possível mostrar o banal, cobrindo-o de mistério para atrair o interesse sobre ele através de uma linguagem acessível? A princípio sim, mas talvez eu esteja forçando uma aproximação entre teorias de três séculos diferentes que tinham sua coerência em seu contexto e que confrontadas não se sustentam conjuntamente... Será? Quem sabe?

Meu objetivo não é chegar à conclusão nenhuma... (Sinto muito se você esperava isso... talvez você possa me dar uma conclusão, nesse caso comente). Eu queria apenas refletir acerca da arte e de seus fundamentos... (E esvaziar um pouco o Cérebro-Casa, confesso). Talvez toda essa abordagem seja excessivamente forçada, pois estabeleci conexão entre o pensamento de um poeta francês do Século XIX, um teórico da literatura e da linguagem, também francês, de meados do século XX e um jornalista, professor e romancista brasileiro do século XXI. Há pelo menos 50 anos separando cada um deles. É interessante notar, nessa perspectiva, como a visão da arte se altera em um período de tempo relativamente curto...

Bem, creio que já estou mais que perdido em excessivas reflexões já sem muito sentido (ou não)... Dane-se, o importante era só refletir mesmo... E você chegou a alguma conclusão?

AVISO: É sempre bom lembrar que muito provavelmente interpretei de forma questionável as três teorias deformando-as de modo a conseguir (ou ao menos tentar) achar um fio condutor que as unisse. A verdade é que eu estava lendo sobre tudo isso e precisava simplesmente esvaziar o Cérebro-Casa.


[1] Stéphane Mallarmé, “Poesia e Sugestão”, in: Álvaro Cardoso Gomes, A Estética Simbolista, p. 102.

2 comentários:

  1. Nao cheguei a nenhuma conclusao tambem mas na minha humilde opiniao, creio que literatura nao tem que ser algo de difícil acesso.. digo isso em relaçao aspalavras que alguns autores gostam de usar para mostrarem o quanto sao bons na sua língua e o quanto sao cultos. Se o escritor é culto ótimo para ele! Mas nao precisa mostrar isso em todas as linhas do seu texto pois esse ficará com poucos leitores..
    Em relaçao ao texto em si, do que seria de nós simples leitores que nao tem nem tempo de sentir o que o escritor quer passar por ele nao ter dado nem tempo do leitor pensar mostrando logo de cara o óbvio?
    Num breve resumo, não gosto de textos com muitas palavras complexas mas gosto de textos que sao complexos pela história abordada.. pelo certo suspense, pela emoçao causada..
    =)

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  2. Oi, Rê! tudo bem, querida?
    Demorei, mas estou te respondendo rsrs...

    Em outras palavras, você pensa como o Felipe Pena: o difícil é escrever algo complexo de forma fácil.

    O que acontece é que alguns autores gostam de escrever difícil justamente para não terem muitos leitores. Alguns simbolistas pensavam assim, eles queriam só alguns leitores selecionados. Mas isso na época era também uma forma de protesto contra a comercialização da poesia, enfim...

    Acho que o divertido é um pouco de tudo, ;-)

    Beijos!

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