quinta-feira, 14 de junho de 2012

Nomear, ato desmedido

Já fazia um tempo que queria postar algo no Cérebro-Casa, mas por falta de tempo acaba ficando sempre para depois. Hoje, porém, lendo um ensaio de Izabela Leal, sobre Camilo Pessanha, no livro Camilo Pessanha em dois tempos (de sua autoria em parceria com a professora Gilda Santos que gentilmente me presenteou com o livro), deparei-me com algumas reflexões filosóficas sobre a linguagem que de tal forma me arrebataram que tive de compartilhar, ao menos uma, aqui no blog... Trata-se de um fragmento sobre o ato de nomear, a partir de textos de Maurice Blanchot, grande crítico literário francês. Nesse texto, Leal fala da importância e dos perigos de se nomear algo. O que me fez pensar na dificuldade em que tenho muitas vezes para achar um bom título para um conto, um artigo, ou até mesmo para uma postagem do blog, ainda que ela estivesse pensando em nomear em um sentido absurdamente mais amplo. Isto é,a fala, o ato de enunciar. Afinal, em última instância, nomear é designar tudo e não importa o quê.
Para ela, uma coisa sem nome é algo terrível. Pensando nisso, cogitei nomear essa postagem como “O Horror do Inominável”, expressão dela. Mas não me precipitei, afinal, minha escolha para título poderia definir qual é o olhar que pretendia passar com esse texto. E não era o "horror do inominável" e sim a responsabilidade desse ato tão simples e, muitas vezes, impensado. Por isso refleti mais e levei em conta que para Izabela nomear, é também uma postura, repleta de responsabilidade... Percebi que tenho  responsabilidade pelos títulos de minhas postagens, pois mesmo que ninguém as leia, tenho o compromisso comigo mesmo de ser coerente com o que penso e postei, mesmo porque é escrevendo que, muitas vezes, meus próprios pensamentos tomam forma e só assim entendo o que queria mesmo dizer... Percebem como dar um nome é um ato difícil e de grande responsabilidade?
Perdido em meio a essas reflexões, lembrei-me de imediato do livro do professor Boris Schnaiderman: Tradução, ato desmedido, já que traduzir envolve igualmente muitas responsabilidades, posturas e escolhas. Assim me decidi. Achei que cairia bem, nomear essa postagem parafraseando jocosamente o título do livro do professor Boris. Afinal, se nomear é tão importante, não poderia começar o texto sem refletir sobre seu próprio título, perdendo-me assim em um mise-en-abyme digressivo metalinguístico e metadiscursivo, que, ao fim e ao cabo, diz tudo o que eu queria dizer quando me propus a escrever sobre isso. De uma forma ou de outra, refleti e nomeei com ponderação. Não foi um ato desmedido, mas só porque me adverti de antemão.
Enfim, depois de tantas voltas e desvios, deixo-lhes o trecho de Izabela Leal em que ela teoriza a força do ato de nomear, a partir de Blanchot. Ato de morte e de vida. Uma escolha crucial.

Voltemos, entretanto, ao ato de nomear. Blanchot caracteriza este ato como uma espécie de assassinato – mas um assassinato que é também a possibilidade da vida –, ilustrando-o todo o tempo através da máxima de que “a vida carrega a morte e se mantém na própria morte”. O que quer ele dizer com isso? Que o ato de nomear é aquilo que nos permite todo e qualquer conhecimento sobre o mundo, nossa própria ação no mundo. Um objeto sem nome é, para nós, um objeto impossível, mais do que desconhecido, insondável. Ao lhe atribuirmos um nome, tornamo-lo apreensível, passível de conhecimento. O horror, o grande horror, para nós, seres falantes, é sempre o horror do inominável. Mas esse ato não é assim tão simples, não se dispõe dele a um preço tão baixo: a cada vez que nomeamos um objeto cometemos um assassinato, que é ao mesmo tempo a aparição e a supressão do próprio objeto. Georges Bataille, no livro A experiência interior, cita o caso da palavra silêncio, afirmando que “entre todas as palavras é a mais perversa, ou a mais poética: ela é a própria garantia de sua morte.” (BATAILLE, 1992, p. 24).

No ato de nomear, a morte se faz então presente. E, paradoxalmente, se a fala afasta o objeto, ela é, ao mesmo tempo, a única possibilidade que temos de nos aproximar dele; apenas nessa morte, que é a fala, as coisas chegam a adquirir sentido. Perdida a fala – isto é, a linguagem –, perdemos toda e qualquer esperança de conhecimento e interação com o mundo. O assassinato que caracteriza o ato de nomear é o mesmo que dá vida ao homem, que o torna humano. Não se pode chegar a ser homem sem encarar de perto essa morte, essa distância entre o eu e as coisas.(LEAL, Izabela. In LEAL, Izabela. et SANTOS, Gilda. Camilo Pessanha em dois tempos. Rio de Janeiro, 7 Letras, 2007, p. 118).

Lido o fragmento, deixo-lhes com seus pensamentos e com o meu silêncio...

Nenhum comentário:

Postar um comentário