terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Onde estão as famosas descrições de George R. R. Martin?


Depois de ouvir por anos todo mundo dizendo que As Crônicas do Gelo e do Fogo era a obra mais brilhante de fantasia desde O Senhor dos Anéis, criei vergonha na cara e resolvi ler a série. Ainda não a terminei, mas uma coisa já ficou clara: todo mundo tinha razão. Martin é mesmo brilhante.
Mas não estou escrevendo (apenas) para reafirmar o que todo mundo diz, e sim para refletir sobre outra coisa que todo mundo também cometa: o fato de que George R. R. Martin (supostamente) exagera nas descrições.
Sempre que alguém fala em Martin, outra pessoa acrescenta: “pena que ele exagera nas descrições”, ou então, “pena que ele escreve demais”, “pena que ele coloca muita cena inútil”, ou ainda, “é cansativo, pois tem muito detalhe”. Foi com isso em mente que comecei a ler a série. Esperava ver páginas e páginas de descrições minuciosas e cansativas, e logo de cara me surpreendi por não achar nada disso. Sim, Martin escreve demais, mas não porque exagera nas descrições e sim porque seus livros são como vários livros intercalados, com vários núcleos e diversos personagens. As cenas são intercaladas por muito diálogo e a maior parte da narração é tão colada ao ponto de vista dos protagonistas que são muito mais reflexivas do que descritivas. Ao contrário do que eu sempre ouvi, achei a série incrivelmente dinâmica.
E pensei comigo: onde, afinal, estão todas as descrições sobre as quais tanta gente tanto reclamou?
Depois de ler mais, constatei que tais descrições exageradamente minuciosas e excessivas simplesmente não existem. Ao menos, não se você fizer as comparações corretas. Então, isso me levou a outra questão: o que diabos o povo que reclama das descrições do Martin andou lendo até hoje?
Pois parando para pensar muito rapidamente, é difícil um livro publicado até os anos 80 que não seja muito mais descritivo do que As Crônicas do Gelo e do Fogo. De fantasia ou não. O que pensar então em livros do século 19 ou anteriores? Quem reclama do Martin (já ouvi tanta gente falar absurdos como “eu pulo as descrições”, “elas me cansam”, etc.) certamente não leu Eça de Queirós, nem José de Alencar, muito menos Flaubert, Balzac ou Stendhal... Não leu Robinson Crusoé, nem nada dos séculos anteriores. COM CERTEZA, não leu Moby Dick. Outros poderão argumentar: mas esses não são romances fantásticos. É verdade, não são. Mas mudemos de exemplos, então. Quem reclama do Martin não leu certamente Drácula, tampouco Júlio Verne, menos ainda Edgar Allan Poe ou a maior parte dos outros contistas de terror, fantasia e ficção científica do século XIX. Mesmo se pensarmos no século XX, fica claro que quem reclama de Martin não leu Tolkien, nem Anne Rice, tampouco Terry Brooks, dentre muitos outros, de quaisquer subgêneros do fantástico que for. Qualquer livro desses é MUITO mais descritivo do que Martin. Isso porque citei apenas alguns e não fugi do óbvio e do obrigatório para quem curte o gênero.
Quero deixar claro que não vejo o uso de descrições como algo negativo. Gosto de muitos autores excessivamente descritivos. Meu intuito com a postagem é apenas comentar que é injusto com Martin criticá-lo por algo que sequer ele faz!
Diante disso, eu me pergunto então:

O que diabos o autodenominado “leitor” que reclama de George Martin andou lendo até hoje?

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Atualizando: já li todos os volumes da série publicados até agora e também o spin-off O Cavaleiro dos Sete Reinos e mantenho a opinião postada aqui.

6 comentários:

  1. Cara. Eu acho que um dos defeitos do ASoIaF é que o Martin perdeu a mão na quantidade de elementos e subtramas e tramas e lugares e pessoas e bichos e... onde é que estavamos mesmo?

    Mas jamais por ser descritivo. Dá essa impressão talvez porque, como ele tem que mudar a cada capítulo, ele sempre tenha que contextualizar. Nem se compara ao Tolkien ou ao Brooks - ou mesmo ao Cook, que é mais a linha dele e é mais descritivo. O ritmo narrativo dele é mais mais dinâmico do que a maioria da 'high fantasy'.

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  2. Exatamente, Ana! Acho que os leitores podem deixar de gostar pelo motivo que desejarem, exceto por características inexistentes. O livro é longo por ser profundo, intrincado, por ter diversas tramas, talvez até excessivas, mas nada disso é ser descritivo demais. Acusam-no por algo que ele não fez.

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  3. Bruno, não sei bem até que livro você leu, talvez apenas o primeiro. O primeiro é talvez o melhor nessa questão, mas os demais tem muito dessa descrição. Contudo, acho que o principal problema de escrita dele, que eu achei pelo menos, é a "enrolação" narrativa, especialmente no segundo livro. Eles abre muitas tramas e vai deixando a história lenta. Prova disso é que se fala que o inverno está chegando desde o primeiro livro e se passaram 5 mil páginas e ainda está no "começo dele"

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  4. Olá, Luiz, tudo bem?

    Obrigado pela mensagem! Estou no livro dois ainda. Talvez venha a mudar minha opinião nos próximos. Por enquanto sustento meu argumento, mas entendo seu ponto de vista. Há, realmente, muita gente que não gosta do excesso de tramas (embora eu não veja como o estilo de um autor consagrado possa ser identificado como um problema; isso é só questão de gosto, como o seria também se ele de fato fizesse muitas descrições). Mesmo assim, ainda não encontrei tantas descrições longas... Não vi nada "pulável", digamos assim, e não são poucos que já ouvi dizer que pulam as descrições. Fico tentando imaginar quando leio o que seria passível de salto (na verdade, foi essa questão dos "saltos" que me intrigou, para não dizer revoltou hahaha e me instigou a escrever sobre isso). Acho cada informação tão relevante e o livro tão cinematográfico! Não consigo imaginar o que pular. De fato é um livro imenso de imensas subtramas e uma quantidade enorme de personagens. Há quem não goste disso, mas isso não tem a ver com ser ou não descritivo. Em Martin, quando há longas descrições, elas raramente passam de uma página ou duas (quando muito)... me pergunto o que acham esses que reclamam de um livro como "Ilusões Perdidas", de Balzac, que traz mais de 30 páginas de descrições ininterruptas e sem qualquer relevância para o enredo (para dar um exemplo escrachado). O que sinto é que quem não gosta do livro fica procurando defeito (veja bem, falo de maneira geral, entendi perfeitamente seu ponto de vista), quando simplesmente devia aceitar que o estilo não lhes apetece (e não há nada de errado nisso). De todo modo, é sim possível criticá-lo por muitas coisas (por matar muitos personagens, por criar muitos, por ter tramas infinitas), mas não por ser excessivamente descritivo, pois qualquer autor de fantasia que escreveu livros com mais de 300 páginas, antes de 1980 (ou até depois), é absurdamente mais descritivo do que ele, vide todos os outros que citei antes.

    Enfim, gosto do debate e no fim das contas, é tudo opinião e gosto.
    ;-)

    Abração!

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  5. Estou no começo do quinto livro. Considero o texto do Martin até bastante ágil. E concordo com o que você disse. Não encontrei as tais descrições. O que pode estar incomodando os leitores é essa quantidade de subtramas e personagens irrelevantes. Talvez os leitores simplesmente estejam confundindo uma coisa com outra, na hora de se expressarem.
    No caso das Crônicas de Gelo e Fogo, eu considero esse excesso parte da diversão. Tanto para o leitor quanto para o próprio escritor. Mas eu vou dizer uma coisa que muita gente vai discordar. Vejo todo mundo brincando com o fato dele matar personagens aos montes e tals... Até agora não vi isso... Todo mundo que morre, e nem são tantos assim, não causa tanta surpresa quanto os memes de Facebook querem fazer parecer (tá, uma ou outra, talvez, mas não tanto quanto dizem)...

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  6. Olá, Walter! obrigado pelo comentário.
    Realmente, também acho que os leitores confundem as coisas na hora de se expressarem, porém, já vi gente dizendo que salta as tais "descrições" e esse é meu ponto. Não sei o que é passível de ser saltado hahaha Queria entender.

    Eu também acho que esse excesso é a grande diversão do livro. A tensão e a curiosidade que ele desperta por te fazer esperar cinco capítulos até saber o que aconteceu em um núcleo é ao mesmo tempo angustiante e estimulante. Eu curto muito.

    Quanto às mortes, acho que o que choca todo mundo é dois ou três protagonistas terem morrido. Creio que os leitores estejam acostumados a ver, no momento final, um deus ex machina qualquer salvar os protagonistas. Nem todas as mortes me surpreendem, mas acho que a maioria me choca, mesmo antevendo-as hahahaha Sobretudo, na segunda metade do terceiro livro que, para mim, até agora, foi o ponto alto da série.

    Abraços!

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