segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Primeiras impressões (extremamente pessoais) sobre "O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças peculiares", de Ransom Riggs

           Decidi comprar o livro O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, de Ransom Riggs, por um simples motivo: o filme vai ser adaptado e o diretor vai ser ninguém menos do que o mestre Tim Burton, que é indiscutivelmente meu diretor favorito. Isso não bastasse, na quarta-capa da edição brasileira, publicada pela Editora Leya, há a seguinte citação:

         Vocês têm certeza de que não fui eu quem escreveu esse livro? Parece algo que eu teria feito... Tim Burton.

         Isso já foi suficiente para eu querer ler. Ajuda também o fato do livro ser muito bonito. Não de uma beleza comum. O livro é todo peculiar, digamos assim, desde a capa propositadamente envelhecida aos desenhos internos, já que é todo ilustrado por fotos reais de época, que retratam supostas atividades paranormais a partir das quais a trama se desenvolve (curiosamente, esse tipo de foto é o material de pesquisa de um grande amigo, o que só despertou ainda mais a minha curiosidade – ao lado e abaixo veja duas das fotos em questão). E mal comecei a leitura, fui tomado pelo livro de tal forma que senti uma necessidade imensa de vir escrever algo sobre ele antes mesmo de terminar a leitura [e adianto desde já que vou dar alguns pequenos spoilers adiante sobre os três primeiros capítulos, mas nada que não esteja subentendido na orelha do livro, de todo modo, a etiqueta pede que eu os avise].


         Logo em seu prólogo, o livro de Ransom Riggs mexeu muito comigo. O começo lembra muito Peixe Grande e suas histórias maravilhosas (que, não por acaso, também virou filme nas mãos de Tim Burton) e traz uma atmosfera que em dada medida me lembrou Onde vivem os monstros? – mas isso é só no prólogo mesmo. O autor nos apresenta então a relação de fã e herói entre um menino e seu avô, o que logo de cara já criou uma grande empatia de minha parte, saudoso como sou de meu avô materno. O Sr. Portman (o avô de Jacob, protagonista do livro), tal qual o meu avô, era um contador de histórias; as dele, fantásticas, as do meu, reais. Mas nem por isso menos fantásticas.


Sem saber se são verdade ou não, Jacob ouve as histórias de seu avô, ora acreditando, ora duvidando, torcendo para que sejam verdadeiras. Como em Peixe Grande, as histórias do Sr. Portman parecem reais, mas talvez sejam exageradas demais, seja porque quem as conta é um neurótico de guerra, seja porque quem as ouve é um menininho que idolatra seu avô. E a explicação, a princípio, é exatamente essa. Não bastasse ser um neurótico de guerra com transtorno pós-traumático, o Sr. Portman é um exilado. Polonês e judeu, foi mandado embora de sua pátria por seus pais que tentavam salvá-lo da Segunda Guerra. Ao ler isso, minha mente foi longe de volta à minha própria história... Lembrei-me de meu bisavô paterno, que pouco ou quase nada conheci (ele morreu quando eu tinha um ano), mas que, segundo minha família conta, também era um neurótico de guerra, que teria fugido da Lituânia com a roupa do corpo e um cavalo rumo a Hamburgo, onde embarcou rumo ao Brasil, também para fugir da guerra (conta-se na minha família também que no meio do caminho ele teve de matar o cavalo para comer, pois não tinha mais nada consigo – mas a linha que divide o que é real nessas histórias de família e o que é imaginação é bem tênue e como meu bisavô já partiu sua figura a cada vez mais vai sendo envolta de mistério). Ou seja, tal qual a ficção, na vida, a realidade se entremeia por fantasia. Fui lendo e viajando em memórias. Minha mente também passeou por lembranças contadas para mim pela mãe de um tio judeu, cuja história é tão incrível quanto a do Sr. Portman, só que ao invés da Polônia ela fugiu do Egito e sua história é digna de um livro. De meu avô materno, lembrei de suas histórias sobre seu próprio avô, que era ator e dramaturgo e que escrevia peças fantásticas. Segundo meu avô me contou, o avô dele veio para o Brasil se apresentar com sua companhia por aqui, mas a Primeira Guerra estourou e ele acabou não voltando mais à Itália. São tantas lembranças. Afinal, avôs e avós são sempre contadores de histórias. E quando essas histórias envolvem guerra, normalmente, são histórias de terror, e é assim que parecem as histórias do Sr. Portman num primeiro momento. Histórias horríveis, mas assustadoramente reais. Mas voltemos ao livro de Riggs.
O primeiro capítulo me tirou o fôlego, pois, se num primeiro momento ficamos totalmente encantados com a história do avô e de seu neto, no momento seguinte sentimos esse avô sendo tirado de nós e compartilhamos da intensa dor de Jack. Dor que se torna mais intensa para quem já sentiu isso na vida real, e, sobretudo, numa semana em que dois amigos acabaram por passar pela mesma situação. A nostalgia e a melancolia estavam à flor da pele. O livro despertou certa tristeza ao mesmo tempo que um sentimento de solidariedade em relação a Jacob, tornando a leitura ainda mais intensa. Afinal, somos todos netos de contadores de histórias e certamente o momento mais fantástico, em seus dois sentidos, da vida de cada um de nós são as histórias de nossos avós (ao menos daqueles que tiveram a sorte de conhecê-los).
E com tantos avós em mente continuei a leitura, eivado de nostalgia, melancolia e empatia, completamente imerso nesta deliciosa experiência, que, de fato, poderia ter sido escrita por Tim Burton (e que eu adoraria ter escrito) e cujo fim, por incrível que pareça, ainda estou por descobrir. Depois venho contar o que achei.

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