quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Steampunk e Magia Antiga na Fantasia Contemporânea


            Nota preliminar: Quando comecei a escrever esse texto, a ideia era fazer uma resenha do livro O Peculiar, de Stefan Bachmann, um livro juvenil incrível; porém, à medida que fui escrevendo, fui me lembrando de muitos outros livros que, de um jeito ou de outro, conversam com o livro de Bachmann, de modo que acabei me desviando do objetivo primeiro. Por isso, esse texto, mais do que uma resenha de O Peculiar é, antes, um comentário sobre os livros de fantasia contemporânea que mesclam o gênero steampunk com elementos celtas, evocando a Antiga Magia feérica e folclórica daquele povo e como eles todos dialogam com o livro de Stefan Bachmann. Mas vamos ao texto...


Steampunk e Magia Antiga em O Peculiar e em outros livros de Fantasia Contemporânea

       Sempre fui apaixonado pela Era Vitoriana. Pelos livros da época, pelas roupas, pela elegância, pela atmosfera. Por muito tempo, quase todas as minhas leituras eram de livros escritos nesse período, como os de Sir Arthur Conan Doyle ou os de Robert Louis Stevenson. Depois, comecei a ler os livros que se passavam nessa época, independentemente do período em que haviam sido escritos, e, assim, ao longo do tempo, descobri dois de meus livros favoritos: Jonathan Strange & Mr. Norrell, de Susanna Clarke (publicado no Brasil pela Cia. das Letras, sobre o qual falei aqui no blog há quatro anos, em um texto chamado “Um outro tipo de Mago”) e o recente A Corte do Ar, de Stephen Hunt (publicado no Brasil pela Editora Saída de Emergência, em edição que tive a honra de trabalhar como preparador de texto).

        O livro de Hunt me fez olhar com outros olhos para a Era Vitoriana, apresentando-me um mundo à parte chamado Steampunk, sobre o qual (fui perceber) eu conhecia ainda muito pouco, tendo lido apenas alguns contos e coletâneas de escritores amigos. Logo, enquanto o livro de Susanna trazia uma Inglaterra histórica, a mim já familiar, ainda que repovoada por magos e seres feéricos, na qual acontecimentos históricos (como as guerras napoleônicas) e personagens da vida real (como o Duque de Wellington e o Rei da Inglaterra) se entranhavam a personagens e reinos fictícios, A Corte do Ar trazia uma Inglaterra distorcida pelo vapor. Aliás, Chacália, como é chamada no livro, não é exatamente a Inglaterra de fato, mas o é, sem o ser. Explico: Chacália é uma espécie de Inglaterra alternativa, distópica e retrofuturista; em outras palavras: é uma visão de como a Inglaterra poderia ter sido, mas não foi (aliás, essa é a essência de toda narrativa steampunk). O ambiente vitoriano está lá, ainda que não haja uma Rainha Vitória, assim como está lá a essência do povo inglês. Tanto em Jonathan Strange... quanto em A Corte do Ar, a magia se mescla à vida cotidiana dos cidadãos do reino. No primeiro, por meio de magos que, a despeito de seus poderes, têm uma curiosa preocupação com a vida social, com bailes e festas da alta sociedade, como nos livros de Jane Austen e Charles Dickens, e hábitos esquisitos, como o de viajar por espelhos, ou ainda, por meio de seres feéricos que passeiam entre os reinos espirituais existentes entre a Inglaterra e o Inferno. No segundo, há um tipo de magia mais excêntrica, que dá vida à raça dos homens-vapor e confere poder aos seres humanos que cruzam a linha do país dos encantados. Em ambos, elementos feéricos de tradição folclórica celta se entremeiam ao clima urbano da velha Londres (e de Açomédio, de sua prima-irmã de Chacália).

       A essa altura você provavelmente entendeu porque esse texto deixou de ser uma resenha de O Peculiar... O fato é que me parece praticamente impossível entender o universo do livro de Bachmann sem mencionar antes Jonathan Strange & Mr. Norrell e A Corte do Ar com os quais tão claramente dialoga, ainda que não expressamente. O fato é que ao ler O Peculiar não pude deixar de lembrar dos outros dois livros de que tanto gosto. E, para falar a verdade, foi justamente por conta deles que cheguei a Bachmann, pois foi somente depois de ter lido Stephen Hunt que fiquei realmente encantado com esse novo olhar sobre o mundo vitoriano e, por isso, resolvi buscar mais coisas sobre o universo steampunk. Assim, depois de ler mais algumas obras nacionais e artigos sobre o gênero (alguns deles na Revista Bang! sobre a qual postarei algo em breve) cheguei a dois livros juvenis ligados a esse gênero: Voos e Sinos e Misteriosos Destinos, de Emma Trevayne (publicado no Brasil pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras) e o próprio O Peculiar, de Stefan Bachmann (publicado no Brasil pelo selo Junior, da Editora Record). Li primeiro o livro de Trevayne, que, mais do que tudo, eu confesso, encantou-me pela capa maravilhosa e pelas ilustrações internas incríveis de Glenn Thomas
       Esse livro traz a nossa Londres Vitoriana real, onde Jack, um menino rico (e um tanto mimado) vive uma vida bastante enfadonha. Até que um dia ele descobre uma passagem secreta sob o relógio da cidade, que o leva à Londinium, uma espécie de outra Londres, habitada por seres feéricos mecânicos e também por seres humanos semi-mecânicos, cujas mãos, pés ou parte do rosto foram substituídos por aparatos a vapor, misturando, assim, a antiga magia e o steampunk, tal como em A Corte do Ar (em certa medida, Londinium é muito parecida, portanto, com a Açomédio de Chacália).
       Em muitos aspectos, é evidente, o diálogo com Hunt, mas também senti ecos de Coraline, de Neil Gaiman, por também trazer um mundo mágico que espelha o mundo real, governado por uma senhora tirânica que deseja capturar o protagonista e cria-lo, a seu modo torto, como seu próprio filho. A despeito das semelhanças, porém, Coraline não é um livro steampunk e tampouco traz elementos do folclore celta então paro por aqui. Um livro sempre leva a outro e assim por diante, então é preciso saber a hora de não ir mais além. Voltemos ao steampunk para chegar, finalmente, a O Peculiar. E espero que agora tudo o que eu falei faça sentido, pois, como eu disse, era sobre ele que queria escrever em primeiro lugar, livro que, para mim, é a mistura do universo steampunk de Hunt e Trevayne com o mundo vitoriano da alta sociedade repleto de magia celta e feérica encontrado em Susanna Clarke.

       O Peculiar começa contando como a nossa Inglaterra (a real, portanto) se tornou um mundo steampunk por culpa (ainda que indiretamente) das fadas e demais seres feéricos, como goblins, gnomos, elfos, trolls, etc. Logo, já na premissa temos a mistura sobre a qual quis chamar a atenção no título desse texto.
      Tudo se inicia em Bath, uma cidade interiorana, onde começaram a ocorrer diversos eventos extraordinários (como uma chuva de penas pretas, como as de corvos para citar apenas um), e, a princípio, inexplicáveis, que revelam a existência das fadas e demais criaturas feéricas. É então declarada a guerra. Humanos e feéricos lutam pela Inglaterra em uma batalha dura e longa. Ao fim de algum tempo, os feéricos são finalmente vencidos pelos ingleses que descobrem ser preciso utilizar ferro e destruir a natureza (da qual os feéricos tiram sua força) para combatê-los (não se preocupem com spoilers, pois isso tudo acontece nas primeiras cinco páginas do livro).

       Suplantados, os feéricos passam a viver entre os humanos em um mundo cada vez mais poluído, enfumaçado, cinza e movido a óleo e vapor. Ou seja, de um universo semelhante ao de Susanna Clarke chegamos a algo parecido à Chacália de Hunt e à Londinium de Trevayne. O steampunk invade, pois, o mundo celta da antiga magia e a ele se mistura. Feéricos passam a viver como ingleses, só que são marginalizados. Pobres, vivem em cortiços da periferia de Londres. Não obstante, ajudam os ingleses em muitas coisas - como por exemplo nas guerras napoleônicas, quando os ingleses vencem apenas devido a ajuda dos trolls e gigantes (guerras que também são mencionadas no livro de Susanna Clark, no qual a Inglaterra somente consegue vencer por causa do mago Jonathan Strange).
       Talvez essa atmosfera que misture trolls, fadas, elfos e tecnologia a vapor lembre ainda os HQs e filmes do Hellboy, de Mike Mignola, abrindo uma nova rede intertextual. E lembra mesmo, sobretudo o segundo filme, no qual Hellboy conhece um ser ectoplasmático de vapor vivendo em um corpo de autômato, dentre outras coisas, como os óculos steampunk que usam para poderem ver seres feéricos. Penso sobretudo na cena do mercado troll, sob a ponte do Brooklin, que aparece no segundo filme da saga, no qual vive toda sorte de criaturas.
Mercado Troll de Hellboy II - O Exército Dourado
      É esse o ambiente de O Peculiar. E é nesse contexto que surgem os dois protagonistas: Bartholomew Kettle, um menininho “peculiar” (isto é um mestiço, filho de uma humana com um feérico) e Arthur Jelliby, um membro da alta sociedade londrina e do parlamento. Ambos desejam, a seu modo, passar sempre despercebidos. O primeiro, porque os peculiares são mal vistos tanto pelas fadas quando pelos humanos que os marginalizam (motivo pelo qual são também conhecidos como “medonhos”); o segundo, porque quer evitar problemas, já que deseja uma vida tranquila (e é extremamente preguiçoso). Ambos, porém, acabam presenciando cenas que não deveriam, ouvindo e vendo coisas demais, sobre uma série de assassinatos de crianças peculiares que vem assolando o país. Descobrem, então, que Barth pode estar em risco e Arthur decide não ficar de braços cruzados, pois apesar de seu desejo de sempre evitar problemas (e de sua imensa preguiça) sua honra não o deixa ficar parado (ele é um nobre inglês, afinal). Tudo isso em meio a conflitos políticos que são muito maiores do que parecem a princípio e dizem respeito a grandes planos megalomaníacos de um importante lorde (assim como, outra vez, em A Corte do Ar, cuja conspiração atinge até mesmo as camadas mais altas da cúpula que governa Chacália). E é nessa atmosfera que se desenvolve essa história deliciosa.
       Tudo isso para dizer simplesmente que recomendo fortemente a leitura de todos esses livros, na esperança de que mais pessoas se encantem com esse universo povoado por fadas e gnomos e seres movidos a vapor.


4 comentários:

  1. Desses, li apenas "Coraline". Fiquei com vontade de ler "Artemis Fowl", por conta dos seres fantásticos, não lembro de nenhum ligação com o steampunk, mas a série me veio à mente.

    O steampunk eu conheço pouco, boa parte do que li foram contos de autores nacionais, que produzem muito e bem esse gênero.

    Sobre "Voos e Sinos e Misteriosos Destinos", quando vi a capa me encantei e logo foi para a lista. "Jonathan Strange & Mr. Norrell" consegui num sebo a capa preta, ainda não li, mas depois dessa resenha, tenho vontade de correr para ele. O que me encantou, além da sinopse, foram as ilustrações. Adoro livros com desenhos, já vi muito preconceito com isso, mas eles enriquecem a obra. E "A Corte do Ar" sempre o vejo falando muito bem. A parte visual do livro é incrível, convida o leitor a querer ter.

    Enfim, parabéns, Bruno, por nos deixar com vontade de ler todos os livros citados e por mostrar como eles são ligados de certa maneira, adoro isso.

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    1. Pois é, Celly, eu também conheço pouco de steampunk, mas tenho tido cada vez mais curiosidade de conhecer mais e tenho ficado encantado com tudo o que descubro a respeito desse gênero. É um mundo novo apaixonante!

      Fico imensamente feliz que meu texto tenha conseguido despertar a sua curiosidade e que tenha deixado você com vontade de ler esses livros que me são tão caros. Depois de lê-los, pois já conto que vai lê-los, não deixe de vir aqui comentar o que achou ;-)

      Muito obrigado pela visita, querida! Venha mais vezes!
      Beijos!

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  2. Primeiro, parabéns! Perdi algum tempo passeando nos seus posts, textos ótimos e cativantes. :)

    Gosto de Steampunk, achei que faltou comentar de Leviatã nesse post, rsrs, é um dos melhores livros desse estilo para mim, e tem ilustrações lindas também! A Corte do Ar não me conquistou, infelizmente; achei que o autor forçou muitos elementos raciais, políticos, linguísticos e hierárquicos para o leitor, que acabaram por soterrar a trama e deixar um pouco denso. Terminei, mas não animei pela continuação.

    Por outro lado, Jonathan Strange & Mr. Norrell é um dos meus livros favoritos dos últimos anos; o estilo de escrita é lindo e quase único, uma fantasia escrita como livro técnico, absolutamente fantástico. Me inspirei nele (além de Gaiman e Tokien) para escrever o meu, que - apesar de se passar no Brasil e nos dias atuais - tem toda a relação feérica: com elfos, anões e tudo mais.

    Passei pela capa de 'O Peculiar' esses dias na livraria, mas não cheguei a levar. Depois desse texto, com certeza será um dos próximos na minha estante. Obrigado e parabéns! :)

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    1. Já agradeci pelo Facebook, mas agradeço por aqui também, Lauro! Muito obrigado pela visita, pelo comentário e pelos elogios. Fiquei muito contente mesmo!

      Preciso ler "Leviatã"! Vamos ver se até o fim do ano consigo lê-lo e então posto aqui algo... "A Corte do Ar" é um livro complicado, mas me encantou. A maioria dos meus amigos não gostou também, embora quem gostou tenha amado. "Jonathan Strange" é o que há de melhor na fantasia contemporânea, realmente! Sobre o seu livro, falamos já e falaremos mais em breve ;-)

      Leia sim "O Peculiar", se puder, mas já avisado que é uma saga, lembre-se, rs.

      Um grande abraço!

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