segunda-feira, 2 de março de 2015

Apagamento e Fragmentação do Sujeito em Fernando Pessoa, Woody Allen e Aluísio de Azevedo




“Eu não sou eu nem sou o outro
sou qualquer coisa de intermédio”.

Esses versos de Mário de Sá Carneiro bem poderiam estar se referindo à personagem Boaventura da Costa, do conto “Polítipo”, de Aluísio de Azevedo, publicado na coletânea Demônios, em 1895. Boaventura é um homem singular, mas cuja singularidade se faz por ser extremamente comum. Ele é tão comum que não chama a atenção por sua beleza, tampouco por sua feiura. Visto por um lado parece jovem, por outro muito velho. Pode parecer-se mulher, ou mesmo criança. Suas feições, na verdade, escapam de quem as vê, de modo que parece impossível descrevê-lo. São capazes de suscitar a lembrança de muitos outros rostos, mas ninguém jamais lembra-se de como é o rosto do pobre Boaventura. Falo da personagem de Azevedo, mas na verdade quero falar de Leonard Zelig, personagem que dá título a um filme de Woody Allen de 1983.
Capa da única edição atualmente
disponível nas livrarias do livro
Demônios, de Aluísio de Azevedo,
Para falar a verdade, pouco ou nada sei sobre Allen. A bem da verdade, seus filmes nunca me chamaram a atenção e não me recordo de ter visto muitos. Por desinteresse, confesso. Contudo, durante a aula do curso Fernando Pessoa: Autoria e Ironia, uma das disciplinas que cursei para o doutorado, o professor Caio Cagliardi, que ministra o curso, levou esse filme para que assistíssemos. Ele não disse nada, apenas colocou o filme e depois perguntou o que havíamos achado. A relação era óbvia: a personagem de Allen, Zelig, lembrava em muitos aspectos Fernando Pessoa e isso me fez lembrar da personagem de Azevedo e então resolvi escrever sobre essas três figuras aqui no blog.
Zelig, como Boaventura, possui uma característica singular: a capacidade de adequar-se ao meio, tal qual um camaleão. Por exemplo: frente um piloto de avião, torna-se capaz de guiar um aeroplano de ponta cabeça, da Europa aos Estados Unidos. Frente a um psicólogo, passa a analisá-lo. Tudo isso numa tentativa bem sucedida de chamar a atenção – efeito oposto ao desejado pela personagem de Azevedo que parece, antes, querer passar sem ser notado.
Pôster do filme Zelig, de Woody Allen.
Zelig e Boaventura, no entanto, parecem apenas simbolizar uma necessidade do sujeito moderno de apagar-se ou de tornar-se outro. De fato, nada há de mais moderno do que esse movimento de despersonalizar-se ou cindir-se (embora o germe desse pensamento já estivesse em Sá de Miranda, séculos atrás, em cuja obra é possível ler um verso que diz: “Comigo me desavim”), seja por apagamento, como parece ocorrer com Zelig e Boaventura, que mesclam-se ao meio em que estão, em um movimento que busca, a um só tempo, a aceitação dos pares e o desejo de se passar incógnito; seja pela fragmentação do “eu”, quando ao invés de tornar-se outro, o sujeito cinde a si mesmo para criar novas personalidades autênticas e diferentes de si. Embora semelhantes por processo, têm efeito oposto: em um há o apagamento, noutro o desejo por notoriedade. Ambos aproximam-se pelo desejo da aceitação. Obviamente, pensa-se em Pessoa (afinal, tudo isso pensei em um curso sobre ele), cujo fenômeno heteronímico é, por excelência, o melhor exemplo de fragmentação do sujeito. Um diálogo, portanto, entre a ficção e a realidade.
Cena de Zelig.
Aos olhos do século XXI, um fenômeno como o de Pessoa poderia ser equiparado à condição psicológica conhecida como transtorno de múltipla personalidade, ou algo assim, o que, no entanto, apagaria a inventividade artística pessoana, erigida, como parece ser, sobre os pilares da ironia. Por outro lado, a ideia de uma pessoa com esse transtorno parece elucidar o fenômeno, em uma visão anacrônica e quase didática, uma vez que Zelig e Boaventura também são apresentados como portadores de raras condições. Pessoa, por outro lado, diagnosticado por si mesmo como um “histero-neurastêmico” parece sofrer de uma condição avessa, que longe de ser uma doença parece mais um excesso de lucidez. O fato é que a consciência de si pessoana parece de uma agudeza além do normal, de modo que se tornou possível o movimento de criar, por meio da inventividade, outras personalidade, não adaptadas, mas sim, tão perturbadas quanto a matriz. O movimento, ao contrário do que seria observado em pacientes acometidos pelo transtorno de múltipla personalidade, ou ainda das personagens de Allen e Aluísio, é intencional, arquitetado e, possivelmente, premeditado. Enquanto Boaventura e Zelig assumem formas condizentes com o momento inconsciente, Pessoa cria um estratagema dramático (ou seja, mais próximo à condição de ator do que da de enfermo) para simular os outros “Eus” que existem em si e sustentar-lhes enquanto sujeitos autônomos perante a sociedade, ainda que, embora existentes no poeta, não existam, de tal forma que o próprio “eu primeiro”, isto é, aquele que se convencionou chamar de “ortônimo”, torne-se, também ele, uma criação. E o motivo de todo esse movimento parece ser um descompasso entre o eu e o mundo, ou, em última instância, entre o eu consigo mesmo que ao se deparar com sua própria figura encontra-se em meio ao vácuo da crise da subjetividade, para usar a expressão do poeta português Jorge de Sena, cunhada para se referir ao próprio Pessoa.
            A professora Leyla Perrone-Moisés, por sua vez, identifica esse vácuo, esclarecendo-o, como presente na consciência pessoana, ou seja, na extrema lucidez que o desconstrói diante de si. Ora, não se pode dizer que Zelig, mesmo que inconscientemente, seja menos lúcido ao se adequar fantasticamente ao ambiente em um instinto de preservação. O instinto de sobrevivência de um parece se aproximar do desejo de experimentação artística do outro, em um movimento de fragmentação e anulação que torna difícil lembrar quem é o sujeito existente e quem é a personagem de ficção. Ambos parecem resultar na despersonalização do sujeito.
Voltando a Boaventura, ao final do conto, no qual a personagem morre, ninguém a reconhece, o que comove o narrador, mas demonstra seu êxito no apagar-se. Boaventura sai da vida para cair no esquecimento (peço licença para refrasear Vargas), enquanto Zelig e Pessoa, por motivo semelhante, imortalizam-se pela mesma condição singular de conseguirem se tornar outros.


Texto que escrevi em uma atividade de aula do curso “Fernando Pessoa: autoria e Ironia”, em 02 de dezembro de 2014, adaptado para o blog.

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