quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um (não tão) breve comentário sobre ANNO DRACULA, de Kim Newman

Capa da edição brasileira.
Primeiramente, uma justificativa
            Li este livro incrível há alguns meses e na ocasião não me ocorreu escrever sobre ele no blog, pois já havia muito não resenhava nada e simplesmente não pensei nisso. No fim do ano passado, cheguei a fazer uma breve consideração na lista dos melhores livros que li em 2014, mas nada muito extenso. Nos últimos tempos, no entanto, pediram-me referências de livros vitorianos (escritos ou passados nessa época) e, sem pestanejar indiquei Jonathan Strange & Mr. Norrell (como já disse inúmeras vezes, meu livro favorito, sobre o qual já falei em diversos momentos) e Anno Dracula, de Kim Newman (que talvez ocupe o segundo lugar). Vieram, então, perguntar se o livro de fato era bom (embora “bom” seja um adjetivo muito pobre para descrevê-lo). Aparentemente, pelo que comentaram, são escassas as resenhas em português sobre o livro de Newman e, por incrível que pareça, (novamente) pelo que me falaram, nem todas favoráveis. Diante disso, senti-me na obrigação de vir defender este que se tornou um livro tão caro para mim... Para aumentar ainda mais a urgência desta defesa, recentemente, em um evento da Editora Aleph – a casa que o publicou no Brasil – foi dito que, lamentavelmente, o livro não teve a recepção esperava. Então, resolvi escrever sobre ele para mostrar o quanto isso tudo é muito injusto.
Antes do livro, vemos a capa, e por isso vou comentar um pouco sobre ela primeiro.
Confesso que nunca havia reparado em Anno Dracula quando o via nos estandes da Editora Aleph nas feiras literárias que sempre visito e participo. A capa é bem bonita, mas definitivamente jamais me chamaria a atenção. É por demais distante da temática de livro (afora pelo sangue que escorre, é verdade) para que um aficionado por vampiros como eu soubesse que por de trás daquele espartilho havia um dos melhores romances já escrito no gênero. Antes, em minha visão (um pouco) reducionista, pensei se tratar de uma história vulgar qualquer de cabaré, com dançarinas e prostitutas. Puro pré-conceito, é verdade e confesso. Diante de tudo isso, alguém poderia ainda me perguntar: o livro se chama Anno DRACULA como você não percebeu de imediato que se tratava de um livro de vampiros? A resposta é simples: há informação demais na capa então nunca havia reparado no título, perdido em uma bancada com capas tão lindas quanto as de Asimov (mas já estou fugindo do ponto, voltemos...). De toda forma, a única explicação que encontro para o livro não ser um imenso sucesso é ela mesma e por isso fiz todo esse exagerado preâmbulo. Além disso, se antes tinha a atenção do leitor, espero depois de tantos elogios ter conquistado seu interesse (parafraseio livremente o Monsieur Candy, de Django Livre). Aposto que não haverá frustração. O livro é mesmo excelente.
            Chega, pois de enrolação e vamos ao romance de fato. Ou antes, ao porquê de tê-lo lido. Pois isso também me parece relevante. Comprei-o por indicação. Um amigo, o escritor e voraz leitor Felipe Castilho (de quem já resenhei a brilhante HQ Imagine Zumbis na Copa aqui no blog) disse-me que simplesmente eu deveria ler Anno Dracula. Segundo ele, é o melhor livro de vampiro que já leu, uma trama interessante e muito bem escrita, que mistura diversos personagens reais e literários em uma história completamente original, no melhor estilo de A Liga Extraordinária, só que com vampiros e outros personagens vitorianos e cinematográficos de horror, FC e aventura. Ele sabia que eu ia gostar. O Felipe me conhece muito bem. Fiquei empolgado, comprei o livro e o devorei rapidamente. O livro era mesmo a minha cara.
            Creio que posso começar por definir Anno Dracula como sendo uma história de “Literatura (ou Ficção) Alternativa”, em analogia ao subgênero da FC conhecido como “História Alternativa”, que narra acontecimentos que poderiam ter acontecido se a história tivesse tomado outros rumos (logo, pensa-se em literatura no melhor sentido aristotélico, que a considerava melhor do que a história por poder narrar aquilo que poderia acontecer e não somente o que aconteceu).
            Anno Dracula, no entanto, narra a história do que teria acontecido se Drácula, o romance de Bram Stoker tivesse tido um final diferente.

(Aqui convém talvez fazer um parêntese explicativo: quando comentaram comigo que o livro tinha poucas resenhas e que nem todas eram positivas, comentaram também que muitos haviam achado o livro confuso. E isso me levou a refletir sobre o assunto. Creio que a verdade seja esta: o livro é complexo, não confuso, e, mais do que isso, não me parece o livro mais indicado para leitores novatos ou pouco experientes. Anno Dracula é, em última instância, um livro para iniciados – embora eu não ache que um não-iniciado deixaria de apreciá-lo, apenas não conseguiria aproveitá-lo em seus detalhes e nuances, já que, quanto mais experiente o leitor, neste caso, mais nuances, referências e reflexões ele vai notar. Vou explicar melhor: digo que é um livro para iniciados, pois pressupõe, no mínimo, no mínimo, que se conheça a trama do romance de Bram Stoker – do livro, não de suas adaptações cinematográficas. MAS qualquer outro conhecimento sobre literatura e filmografia vampírica e literatura e história vitoriana é mais que bem-vindo, pois o livro traz todo um cortejo de referências em miscelânea. Quando mais imerso nessa cultura, portanto, mais o leitor vai entender e gostar, aproveitando melhor o livro e apaixonando-se por ele – como visivelmente aconteceu comigo. Fecho o parêntese).

Mas, afinal, do que fala Anno Dracula?
A história começa algum tempo depois do fim de Drácula, embora pressuponha outro final para o livro de Stoker. Se no original, o vampiro é morto pelos pretendentes de Lucy auxiliados por Jonathan Harker que quer salvar Mina, sua esposa, no livro de Newman o célebre Conde mata parte do grupo, ao invés de ser morto por ele, e, mais do que isso, casa-se com ninguém menos do que a Rainha Vitória, tornando-se assim seu Príncipe Consorte e Lorde Protetor do Império Britânico (que, vale recordar, era a nação mais poderosa nos oitocentos). O segredo dos vampiros é, então, revelado e toda uma febre em torno do vampirismo se inicia. Antes com desejo, do que com repulsa, embora alguns puristas persistam em repudiá-lo.
Uma guerra começa a se delinear.
Quem se opõem ao governo, logo desaparece ou é morto, como acontece com o pobre Bram (sim, o próprio Stoker é feito personagem ao lado de suas criações); por outro lado, muitos começam a se tornar vampiros, como Oscar Wilde, o autor de O Retrato de Dorian Gray.
Vejam que os limites entre a nossa ficção e a nossa realidade desaparecem para dar voz a uma única e genial história.
            O novo primeiro ministro é ninguém menos do que Lorde Ruthven, o “Vampiro” de John Polidori (do conto conhecido por supostamente trazer a primeira aparição do que se convencionou chamar de “vampiro literário” ou ainda “vampiro moderno”). E, em meio a todo esse caos vampírico, surge um assassino em série que começa a matar prostitutas-vampiras. Novamente, a história encontra a ficção e o histórico Jack, o Estripador, e suas vítimas se mesclam a esse grande enredo.
            Assim se arma o jogo.
            Narrado em capítulos curtos, que mesclam diversos pontos de vista, é um livro ágil, mas que pressupõe total atenção, pois o leitor distraído vai perder detalhes que serão retomados todo o tempo, quando menos se espera.
            A atmosfera parece misturar o terror de Drácula, com o mistério de Do Inferno, de Alan Moore (uma HQ genial que ficcionaliza a história de Jack Estripador), das histórias de Sherlock Holmes e de O Médico e o Monstro (originalmente O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde), de Robert Louis Stevenson (outro de meus livros favoritos). Livros estes, aliás, revisitados por Newman, uma vez que o próprio Jekyll dá as caras em determinado momento e se, por um lado, Sherlock só é mencionado, por outro, muitos outros personagens de Sir Arthur Conan Doyle figuram e se destacam ao longo da trama.
Capa gringa de Dracula Cha Cha Cha
            Como podem ver, são muitos, muitos nomes. Muitos mesmo.
Para quem não está acostumado com esse tipo de leitura, a cuidadosa edição da Aleph dá uma mãozinha trazendo um precioso glossário de referências, por ordem de aparição, das personagens literárias, histórias e fílmicas na trama. A lista ajuda muito, embora não seja completa, dada a quantidade de referências com que o autor trabalha. 
            Em suma, Anno Dracula é um livro imprescindível para todos que gostam de história e literatura vitorianas, e, é claro, vampiros e filmes de terror, pois tudo isso está magistralmente costurado em um livro que surpreende e encanta, e cujo único defeito é ter continuações que infelizmente ainda não foram publicadas por aqui, por lamentavelmente, o livro não ter tido o esperado sucesso , que seria mais do que merecido. Este é um daqueles casos em que sofro por não ter sabido de antemão que havia continuações (discorro sobre esse mal aqui). Espero que este quadro se reverta, enquanto aguardo ansioso a aclamada continuação The Bloody Red Baron, que é seguido por um livro de nome sugestivíssimo: Dracula Cha Cha Cha. Espero que mais gente se apaixone pelo livro de Newman e que as continuações saiam logo. Afinal, este é um universo que gostaria muito de revisitar.

Post-Scriptum
            Destaco aqui um trechinho que, por si só, faria com que eu me apaixonasse pelo livro (e, talvez explique o que disse acima sobre ser um livro para “iniciados”):

Ruthven levantou-se e percorreu as estantes de livros, contemplando seus amados volumes. O primeiro-ministro sabia de cor longas passagens de Shelley, Byron, Keats e Coleridge [1], e conseguia recitar trechos de Goethe e Schiller [2] no original. Seus entusiasmos atuais eram franceses, e decadentes. Beaudelaire, de Nerval, Rimbaud, Rachilde, Verlaine, Mallarmé [3]; a maioria dos quais, se não todos, o Príncipe Consorte empalaria alegremente. Godalming já ouvira Ruthven declarar que um romance supostamente escandaloso, Às Avessas, de J. K. Huysmans [4], deveria ser lido por todos os alunos na escola e que deveríamos, numa utopia, transformar apenas poetas e pintores em vampiros. (Anno Dracula, Kim Newman, Editora Aleph, p. 58).

Dá para imaginar livro mais perfeito (para mim) do que um que tem um trecho como esse? Mallarmé e Vampiros juntos... Nada melhor. Serei eternamente grato, Felipe, pela dica preciosa.





[1] Talvez os mais importantes poetas românticos de língua inglesa.
[2] Talvez os mais importantes escritores românticos alemães.
[3] Indiscutivelmente, os mais importantes poetas franceses modernos; os dois últimos deles, conhecidos como os maiores simbolistas, foram tema de minha dissertação de mestrado (disponível  para download aqui).
[4] O primeiro romance simbolista, publicado em 1884. Uma obra INCRÍVEL e complexa, que curiosamente parece ter inspirado um dos capítulos de O Retrato de Dorian Gray.