quinta-feira, 29 de julho de 2010

Para refletir...

Hoje farei diferente... Não vou comentar nenhum livro, ou série, ou filme... Vou simplesmente deixar um texto aqui; um pequeno texto que diz muito sobre muita coisa em poucas linhas... Na verdade é um pequeno poema, de ninguém menos que o Mestre de todos os poetas portugueses: Fernando Pessoa, ele-mesmo, também conhecido como o Ortônimo... Sem mais, o poema:
NATAL
Nasce um deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
***
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.
Quanta sabedoria pode haver em tão poucas palavras... Sabedoria essa que vem permeada pela dor - uma dor bem específica e muito característica de Fernando Pessoa e de alguns de seus heterônimos - a dor de existir... talvez a pior de todas...
Por hoje é só... Se bem que já é muito. Pessoa sempre é muita coisa, e muita gente ao mesmo tempo...
Enfim, coloquei esse poema (um dentre tantos os que adoro de Pessoa, aliás foi difícil escolher), apenas para fazer a gente refletir um pouco, sobre a vida, sobre o mundo, sobre a morte... às vezes é bom, não é? Mas lembrem-se: reflitam, mas não muito, há sempre um limite... se o ultrapassarmos, ficamos loucos... o excesso de razão traz esse problema, por isso é preciso saber dosá-la.
Será que Pessoa sabia qual era o limite? Será que eu sei?

quarta-feira, 28 de julho de 2010

As lições do Pequeno Nicolas

Em 2008 quando comecei a estudar francês eu não sabia uma palavra, não conhecia nada do Cinema e de literatura em prosa apenas conhecia os livros de Júlio Verne e Alexandre Dumas; conhecia, porém, bastante da música (adoro Carla Bruni, Saya, Coeur de Pirate, Grégory Lemarchal, Coralie Clément, etc.) e de poesia, sobretudo os do Fim do Século XIX de Baudelaire em diante, isto é, Rimbaud, Verlaine e Mallarmé, e outros simbolistas. Foi, aliás, por causa da poesia que decidi por me habilitar em francês.
Contudo, conforme fui conhecendo mais da língua, da cultura e consequentemente da literatura e do cinema, fui cada vez me encantando mais... o que me fez querer estudar mais e em pouco tempo decidi pegar um livro em francês para tentar ler... Comecei pelo mais óbvio e mais simples de todos (digo simples em termo de linguagem), ou seja, comecei por Le Petit Prince (O Pequeno Príncipe), de Saint-Exupery.
Quando pequeno eu já lera a história do principezinho que desenhava cobras abertas e fechadas e tem uma rosa de estimação, mesmo assim, fui uma experiência totalmente nova lê-lo no original... Contudo, essa história fica para depois, pois a postagem de hoje não é sobre O pequeno príncipe. O que importa é que consegui lê-lo e fiquei muito feliz, logo quis ler mais livros, mas ainda não estava pronto para pegar nada muito complexo, nem com um francês muito difícil, então pedi recomendação ao vendedor da Livraria Francesa da Vila Olímpia (que por sinal sempre quebra meus galhos) e ele me recomendou um livro, ou melhor, mais do que um livro ele me recomendou uma série de livros: Le Petit Nicolas, de Sempé e Goscinny, que em português foi bregamente traduzido para O pequeno Nicolau...
Sinceramente não entendo o motivo para se traduzir nomes, fica horrível! Trocar Nicolas, por Nicolau, é uma péssima escolha, pois em português podemos dizer sem problemas Nicolas, mas enfim... Se fosse eu a traduzir chamaria de O Pequeno Nicolas, mas essa também não é a questão que quero tratar hoje. Desculpem pelas digressões, aliás...
Mas enfim, o que verdadeiramente importa é que acatei a sugestão do vendedor e comecei a ler a série... Um livro, dois livros, três, quatro... Li rapidamente quatro livros e tão logo for possível, lerei os demais...
Toda a série gira em torno de uma personagem incrível: Nicolas, um menino de uns 7 anos no máximo (não me recordo a idade exata) que conta o que acontece na sua vida, com seus pais, vizinhos, amigos, etc. Até aí não há nada demais, mas o caso é que Nicolas narra como de fato uma criança de 7 anos narraria, logo ele não entende grande parte do que se passa a sua volta e aí está toda a genialidade dos seus criadores. O livro, que no fundo é um livro infantil, mostra toda inocência das crianças, em meio a uma leitura fácil, engraçada, bem escrita, e permeada de ironias... Os livros são inteligentes e com tiradas ótimas! Nicolas não compreende, por exemplo, as brigas de seus pais, mesmo porque esses "não gostam que se fale certas coisas na frente do menino"... Ele também não entende porque sua avó age tão estranhamente perto de seu pai - genro dela - e porque sua mãe fica tão tensa perto dos dois, só para dar alguns exemplos...
Os livros também valem por seus amigos de escolha, um mais cômico que o outro. Ao todo são 8: Clotaire - o pior aluno da turma, que sempre se confunde com tudo; Eudes - o valentão que adora socar o nariz alheio; Geoffroy - o mauricinho que ganha tudo o que pede ao papai; Joachim - talvez o mais criativo, mas também o mais sem graça; Rufus - o filho de um policial que acha divertido ficar apitando o tempo todo como seu pai; Maixent - o mais rapido da classe, toda sala sempre tem um; Agnan - O queridinho da professora; e por fim Alceste - o gordinho que come todo o tempo; um mais engraçado do que o outro...
Recentemente descobri que os livros haviam sido traduzidos para o português e parece que as traduções ficaram bem legais, vale a pena conferir... Além disso, há cerca de uns 6 meses soube que tinham adaptado as histórias de Nicolas para o cinema no começo de 2009. O filme, francês, é claro, parecia que não ia vir para o Brasil e eu o procurei em todos os lugares, pois estava curiosíssimo para ver como o meu pequeno herói havia se saído nas telonas... Infelizmente, não consegui encontrá-lo e já até havia desistido, quando num evento da faculdade fiquei sabendo que o filme seria exibido para nós. Fiquei muito empolgado e fui assistir - com aquele medo básico de que estragassem uma história ótima. Felizmente, não foi o que aconteceu!
O Filme ficou excelente! Conseguiram transmitir toda a graça e humor da história, e ainda seu lado inteligente e irônico, sem ficar forçado, sem fugir da história, sem sacrificá-la, mostrando toda a inocência das personagens, enfim, é um dos poucos exemplos de boa adaptação! Além disso, a caracterização das personagens ficou demais! A trilha sonora é ótima e as crianças escolhidas trabalham impressionantemente bem... Foi, portanto, com muito gosto que vi esse filme na faculdade, achando que não o veria novamente tão cedo...
Qual não foi então minha surpresa ao ver ontem que ele está em cartaz (ou prestes a entrar em cartaz) aqui em São Paulo! Tudo bem que com mais de um ano de atraso, comparado à França, mas ainda assim é um grande ganho... Não é todo dia que um filme que não é falado em inglês chega às telas de cinemas comerciais (pois, evidentemente, não falo de mostras culturais ou festivais... estou falando de cines comuns mesmo, Play Art, Cinemark, enfim, cinemas de shopping...). Isso é um grande ganho, eu acho. Não só por divulgar um bom filme, e conseguintemente divulgar um bom livro, como também por ser uma mostra de que estamos perdendo o preconceito e abrindo um pouco a cabeça... Particularmente adoro o cinema americano, mas não é por que é bom que os outros não são, e não é porque é bom que só vou querer assisti-lo. É sempre bom conhecer culturas novas, novas manifestações artísticas! E é, por isso, que fiquei muito feliz de ver o filme em cartaz... Novamente quebramos algumas barreiras, como estamos quebrando a respeito dos Best-Sellers como venho comentando nas últimas postagens...
Bem, espero sinceramente que quem não viu ainda o filme veja, e quem não leu ainda os livros (ao menos um deles) leia - grande parte da coleção foi traduzida e está sendo relançada por causa do filme... Ambos valem muito a pena. É um livro infantil, é claro, contado por uma criança, e pode ser lido para crianças que certamente vão gostar e entender, mas não tudo, pois o livro está longe de ser um livro apenas para elas - há muito escondido nas confusões de Nicolas... É um grande livro, sobre pequenas pessoas que tem muito a nos ensinar, afinal, quem não precisa de vez em quando da inocência de uma criança?

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Teorizando a Teoria de Machado

Imagino que quem já leu algumas postagens do Cérebro-Casa, ou me conhece minimamente, já saiba o quanto admiro Machado de Assis. Claro, para cumprir o clichê de aluno de Letras é preciso ser fã do fundador da Academia –, todavia, por mais que eu sempre tente fugir dos clichês, deste é impossível! É simplesmente inegável o talento de Machado.
Curiosamente, porém, por mais que eu adore seus romances – que são de fato fantásticos! – concordo com meu professor de Literatura Brasileira (o grande Profº. Alcides de Oliveira Villaça) que sempre diz que o melhor de Machado não se encontra em seus textos longos, e sim em seus textos mais breves, em que cada linha transborda de sabedoria – uma sabedoria aguda e ferina, eu acrescentaria.
Acho incrível, por exemplo, a atualidade de seus textos... Alguns são verdadeiras lições de vida e tanto serviram em meados do século XIX, como servem agora no início do XXI. Contudo, dentre todos os contos (ou ao menos dentre os contos que tive a oportunidade de ler) acho que um se destaca pelo seu teor atual: “A Teoria do Medalhão”.
Para quem nunca leu este conto, recomendo veementemente que o leiam - de preferência antes de continuar a leitura de minha postagem... Ele está disponível em PDF no site Domínio Público.
Enfim... O Conto de Machado (que, aliás, não é um conto propriamente dito, ou, ao menos, não é um conto nos moldes tradicionais, pois na realidade é um diálogo) trata-se da conversa entre um pai e um filho que está prestes a completar a maioridade. O Filho - Janjão - é um completo idiota, enquanto seu pai acumula a sabedoria da experiência. Como uma espécie de "presente" de aniversário, o Pai resolve expor uma Teoria para o filho que, se seguida a risca, garantiria o sucesso absoluto e sem grande esforço... E a teoria consiste basicamente em tornar-se um Medalhão.
Bem, antes de mais nada é preciso entender o que significa um Medalhão no contexto do conto, pois certamente não estamos falando de uma espécie de acessório que pode ser pendurado no pescoço, é evidente que não. Medalhão, para Machado, é aquela pessoa que adquiriu certa notoriedade, sem razão aparente - em outras palavras, e usando um vocabulário mais atualizado, é uma sub-celebridade, alguém que quer ser famoso e conhecido a todo custo, sem ter talento algum.
O objetivo de um Medalhão é, portanto, ser grande, ilustre e notável, além de, é claro, estar acima da obscuridade comum.
Uma vez esclarecido isso, vamos a receita do sucesso, segundo a teoria do pai de Janjão, receita em doze passos:
1. Não tenha idéias próprias - isso é muito arriscado; o mais aconselhável é reproduzir idéias alheias.
2. Estude retórica. É fundamental conseguir falar bem, bastante, de forma bonita que encante o ouvinte, mas sem dizer, de fato, qualquer conteúdo.
3. Busque atividades que te distraíam e tente ficar constantemente acompanhado, para não dar ares à imaginação.
4. Uma vez em público permaneça alguns instantes calado, pois o silêncio sugere introspecção.
5. Converse sobre as coisas mais banais e monótonas, são elas que agradam o público.
6. Nunca entre em locais públicos às escondidas, é inteiramente necessário que todos o vejam o máximo possível, de preferência em locais de referência, como em livrarias. Porém, não converse sobre literatura, nem leia nada, isso pode te dar idéias.
7. Utilize um vocabulário rebuscado, máximas latinas (ou, conforme o caso, americanas e francesas), ditados, dizeres, isso traz um maior impacto ao seu discurso, mesmo que você não esteja dizendo nada.
8. Use e abuse da Publicidade, especialmente na forma de autopromoção. Isso garante que não te esqueçam.
9. Presenteie aqueles que te admiram para que continuem te admirando mais e mais.
10. Promova eventos e mantenha boa relação com a imprensa.
11. Quando for fazer um discurso utilize da metafísica, mas não deixe de lado a vulgaridade. A imaginação é completamente proibida.
12. Por fim, fuja a tudo que sugira originalidade, reflexão, etc. E nunca, nunca use de ironias... O riso franco e aberto, porém, é extremamente aconselhável.
Eis a fórmula do sucesso, fácil, não é? A partir disso qualquer um pode ser famoso!
Em suma é isso o que diz o conto - resumi o diálogo em 12 mandamentos práticos e praticáveis: a fórmula para se tornar uma celebridade. E, para o Medalhão que não percebeu ainda, evidentemente, estou satirizando. A partir disso, podemos concluir, portanto, que Machado jamais poderia ser um Medalhão, pois ele transborda ironia como esse conto mostra tão magnificamente. Eis porque Machado é tão atual...
Percebem a semelhança entre o Medalhão do conto e alguns tipos atuais?
Alguns políticos, alguns cantores, artistas, modelos, etc.? Reconheceu alguém? Parece que muita gente seguiu com cuidado as lições de Machado - pobre ingênuo, não captou a ironia, não sabe que nunca se deve confiar no escritor... Aliás, atualmente há programas de TV especializados em produzir Medalhões e eles levam os mandamentos muito a sério e nem precisam ler Machado para isso... Feliz daquele que consegue não ter idéias! Contudo, para os pobres mortais que padecem de imaginação fértil e língua afiada sempre há a possibilidade de ler Machado e ao invés de seguir suas lições simplesmente rir com ele - não um riso escancarado, isso seria de péssimo gosto - mas aquele riso sutil, de canto de boca - possivelmente seguido de uma piscadela, aquele riso irônico que tanto agrada os poetas... Só isso já vale a pena... não vale? Afinal, de que vale ser famoso se não se pode ter idéias?
Enfim, creio que já falo demais, sinceramente espero que, "guardadas as proporções", essa postagem tenha o valor do conto de Machado... Tentei teorizar sua teoria, não sei se consegui, mas enfim, já é tarde, vou dormir.

sábado, 24 de julho de 2010

O que esperar de um ouriço?

O que esperar de uma menina de 12 anos incrivelmente inteligente, piromaníaca e com tendências suicidas? O que esperar de um livro com duas narradoras, cuja narração não é necessariamente narrativa? O que esperar de uma zeladora que lê Marx e Tolstoi? O que esperar de uma das autoras mais vendidas de língua francesa, com apenas dois livros publicados, que vive no Japão e não dá entrevistas? Acima de tudo, o que esperar de um livro chamado A Elegância do Ouriço?
Sinceramente, eu não esperava muita coisa... E talvez seja por isso que me surpreendi imensamente, talvez a maior surpresa literária que já tive.
Quando minha professora de francês nos avisou que teríamos de ler um romance, achei a idéia ótima! Adoro literatura francesa! Contudo, quando ela disse que leríamos um livro que me era completamente desconhecido chamado L’élégance du hérisson, de uma autora chamada Muriel Barbery não pude deixar de ficar um pouco decepcionado: com tantos livros consagrados porque ler esse cuja autora nunca ouvira falar? Com tantos livros clássicos, porque ler um livro contemporâneo? Eu que sempre defendi os Best-sellers estava caindo nesse erro ridículo de julgar o livro pela capa... Mas enfim, claro que tudo isso não passou de um conflito interno de apenas alguns minutos... Afinal, não tinha opção, tinha de ler e pronto. Então li. E já na primeira página revi meus conceitos: eu estava diante de um dos livros mais fantásticos e lindos que eu já li...
L’élégance trata-se de uma história bipartida, já que duas narradoras a conduzem por caminhos tortuosos, num texto não-linear, não cronológico, filosófico, poético, belíssimo, marcado por uma melancolia cativante e envolvente... Por mais estranho que dizer isso possa parecer...
Paloma – uma das duas narradoras – é uma menina de 12 anos que mora com o pai, a mãe e a irmã... Família rica, fútil e patética. Paloma, por outro lado, parece não se encaixar no ambiente em que vive... Ela não suporta a hipocrisia e a injustiça dos ricos que fingem que a dor e a miséria não existem, só porque não existem para eles... Por isso ela decide punir sua família. Vai se suicidar e botar fogo no apartamento em que vivem.
A outra narradora é Renée, uma cinquentana terrivelmente feia, zeladora de um condomínio de alto luxo onde vive a família de Paloma. Renée parece ser uma zeladora comum, e faz de tudo para parecê-lo, entretanto, nós – os leitores – sabemos, ou melhor, vamos descobrindo pouco a pouco o quanto há por detrás dessa mulher que se mostra fascinante. Ela acaba por nos encantar, do mesmo modo que a arte a encanta, uma vez que Renée é uma grande admiradora de toda forma de arte e sua narração é pontuada de agradáveis mostras de fruição estética.
Assim se constrói a trama, entremeada de textos de Renée e Paloma... Infelizmente não posso contar mais do que isso sem entregar o fim do livro, mas imagino que só isso seja sucifiente para fascinar e encantar qualquer um... É um livro que realmente vale a pena ler.
Li numa edição francesa, mas pelo que me consta a edição brasileira, que recebeu o nome Elegância do Ouriço , publicada pela Cia. das Letras, ficou muito boa... Embora eu não a tenha lido para ter certeza. De toda forma, em francês, português, inglês ou na língua que for vale a pena ler essa obra que mais do que uma obra de literatura, é uma obra de arte, uma lição de vida, um tesouro escondido sob um título enigmático, mas que se mostra profundo e vital ao longo da trama.
Só me resta dizer que agradecerei eternamente à minha professora de francês por nos ter indicado a leitura desse livro, e, assim que possível, lerei o outro livro de Barbery chamado Une gourmendise.
Eis, portanto, mais um exemplo para a discussão sobre Best-sellers... Afinal não é porque é famoso, que não pode ser bom... Ainda há muita coisa boa por ser descoberta.
O que esperar de um ouriço? Pergunta difícil de responder, mas certamente há muito por descobrir sob seus espinhos...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O Método de Sherlock Holmes


Ontem o "Cérebro-Casa" fez uma semana, e já faz tempo que não falo de Sherlock Holmes... O Blog nasceu por causa dele e de sua teoria, portanto, nada melhor para comemorar uma semana de existência do que apresentar outra teoria do grande detetive...

No início do primeiro livro de Sherlock Holmes, Sir Arthur Conan Doyle nos apresenta o método analítico-interpretativo de dedução a partir do qual o detetive desvendará todos os casos em que se viu envolvido ao longo de sua vida.
A primeira vista é um método bastante simples: consiste em olhar e conseguir ver o que está evidente, para ele as coisas falam por si só; contudo, ao longo da narrativa e das outras que a seguem, Watson, seu fiel amigo, percebe o quanto pode ser difícil às pessoas comuns perceber a extensão do óbvio.
O trecho a seguir é um fragmento de um artigo lido pelo Dr. Watson em um jornal:


“O Livro da Vida”
“A partir de uma gota de água um lógico poderia inferir a possibilidade de um Atlântico ou uma Niágara sem jamais tê-los visto ou ouvido falar que existem. Analogamente, toda vida é uma grande corrente cuja natureza torna-se conhecida desde que nos apresentem um único elo. Como todas as outras artes, a Ciência da Dedução e da Análise só pode ser adquirida através de estudos prolongados e pacientes; a vida não é suficientemente longa para permitir que um mortal qualquer seja capaz de atingir o ápice da perfeição em seu ofício. Antes de enfrentar os aspectos morais e mentais que apresentem maior grau de dificuldade em determinada questão, convém que aquele que indaga comece por dominar os problemas mais elementares. Que, ao encontrar outro mortal, aprenda a perceber através de um mero olhar a história de um homem e o ofício ou profissão a que se dedica. Por mais pueril que esse exercício possa parecer, ele aguça as faculdades de observação e ensina para onde olhar e o que tentar ver. As unhas de um homem, a manga de seu paletó, sua botina, os joelhos das suas calças, as calosidades de seu indicador e seu polegar, sua expressão, os punhos de sua camisa – eis diversos elementos que permitem discernir claramente a ocupação de um homem. Se tudo isso junto não revelar os fatos ao observador competente... Eis, em qualquer circunstância, uma hipótese praticamente inconcebível”.

(Trecho extraído de O Estudo em Vermelho, de Sir Arthur Conan Doyle, trad. de Heloisa Jahn, 7ª ed., São Paulo, Ed. Ática, 2003, p. 30).

O mais curioso é que o artigo lido por Watson não estava assinado, e após lê-lo este ficou pensando em quantas besteiras são publicadas todos os dias... Não percebera, portanto, que Holmes se divertia com isso sentado a seu lado, pois obviamente fora ele quem escrevera o texto.
Percebem então como é difícil ao vulgo sentir e ver aquilo que está mais evidente? A resposta para os maiores mistérios pode estar debaixo de nossos olhos. Mais de 100 anos já se passaram e ainda temos muito o que aprender com o grande Detetive... Mas quem, senão ele, cogitaria um oceano a partir de uma gota? É por isso que para nós, reles mortais, sempre haverá mistério...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Em defesa dos Best-Sellers

Hoje vou fazer diferente... Não vou falar de um livro ou um autor, e sim de vários... Mais especificamente vou falar de um tipo de livro: os best-sellers.
É comum as pessoas condenarem os best-sellers, livros considerados sem conteúdo, mal escritos, etc. etc. Principalmente no ambiente acadêmico onde são praticamente linchados... Não discordo totalmente, mas afirmações assim categóricas são no mínimo injustas. Particularmente eu gosto de best-sellers. E explico porquê.
Quem fala mal de best-sellers, certamente não os lê. Porque se lesse veria quanta coisa boa faz sucesso. Muitos acham que o fato de um autor fazer muito sucesso entre o público não-especializado desmerece o livro. Eu acho o contrário. Na verdade o sucesso é um grande trunfo, e admiro o autor que o conquista, pois obviamente isso veio de seu talento. (É evidente que alguns ficam famosos por pura sorte, mas não é desses que estou falando.)
O professor e escritor Felipe Pena diz o seguinte:
"Em literatura, entretenimento não é passatempo. É sedução pela palavra. Tudo é linguagem, mas a narrativa é a base da literatura. Uma história bem contada é o objetivo que perseguimos.A ficção brasileira precisa ser acessível a uma parcela maior da população. O que não significa produzir narrativas pobres ou mal elaboradas. A escrita simples não é superficial: é a tradução laboriosa da complexidade. Escrever fácil é muito difícil."
Citação que tirei do cabeçalho de seu Blog... Creio que ele tem total razão. Escrever fácil não significa escrever mal, é apenas um modo simples de dizer coisas complexas...
Não que eu seja contra à literatura clássica, mais cult ou canônica, ao contrário, quem me conhece sabe que estudo em minha pesquisa a Poesia Simbolista de Cruz e Sousa e Camilo Pessanha, e sabem que sou um fã incondicional de Machado de Assis, Horácio, Joseph Conrad, Baudelaire e Mallarmé... Mas uma coisa não exclui a outra. Tem gente que tem vergonha de gostar de best-seller... E se vangloria de ler os contos da Clarice Lispector e os poemas do Drummond. Mas isso é uma grande bobagem! Gostar de um não impede ninguém de apreciar o outro. Eu me divido entre os livros do Harry Potter e a literatura Simbolista sem problema. Ambos fizeram parte de minha formação e ambos são importantes, cada um a sua maneira.
Se hoje faço Letras e amo literatura não é por causa do Machado (quero dizer, não num primeiro momento) e sim por causa de J. K. Rowling, a autora de Harry Potter.
Até os 11, 12 anos eu não lia literatura. Sonhava em fazer biologia e apenas lia textos dessa área, mais especificamente, apenas lia textos sobre pássaros. Aos doze anos, porém, fui apresentado a dois livros: O Cão dos Baskerville, de Sir Arthur Conan Doyle (uma das tantas histórias de Sherlock Holmes) e Harry Potter e a câmara secreta, de J. K. Rowling (sim, eu comecei lendo pelo segundo). Ambos os livros me ensinaram a gostar de ler e me encantaram de tal forma que em menos de um mês eu já havia lido tudo mais que havia tanto de um como do outro autor. Viciei-me! A literatura me cativara e dali em diante passei a ler mais e mais, primeiro só autores ingleses, depois americanos, depois franceses e finalmente brasileiros... Li Machado de Assis e Álvares de Azevedo e me encantei e quando li a poesia de Cruz e Sousa, não tive dúvidas: faria Letras! Enfim, isso é um pouco de minha história, mas não é importante, o que importa de fato é que se hoje sou um apaixonado por literatura é graças aos Best-sellers. E é por isso que eu os defendo.
Que alguém não goste de um best-seller, é tremendamente compreensível. Eu também não gosto de todos, acontece... Entretanto, ninguém pode negar a importância desse tipo de literatura...
Esse tipo de livro tem uma função crucial em nossa sociedade que é formar leitores. Esse papel é dos Harry Potter, Código da Vinci, Marley & Eu, dentre outros e não de Dom Casmurro e Morte e vida Severina. Tudo nesse mundo tem seu lugar, cabe a nós sabermos respeitar. Além disso, há muita coisa boa que merecia mais destaque e não recebe apenas por ser um best-seller. Eu particularmente acho Jonathan Strange & Mr. Norrell um dos romances mais bem escritos que existe, mas nem por isso ele é estudado pela crítica, provavelmente por ser um best-seller (não muito no Brasil, mas sim na Europa e América do Norte).
Para concluir, antes de julgar um livro pela capa, vale a pena tentar entender o que há por de trás dele... Nem todos nasceram para ser Proust ou T. S. Eliot. Alguns simplesmente fazem livros para divertir, e são esses que criam leitores, que posteriormente vão ler Proust e Eliot... Enfim, defendo os best-sellers, pois sem eles não existiriam leitores e sem os leitores o que seria da literatura?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Uma Grata Surpresa - Comentário sobre um livro de Felipe Pena

Mês passado fui ao lançamento do novo livro do Orlando Paes Filho, Angus Vol. 3. O Orlando é um escritor que conheço de longa data... É um dos responsáveis pelo meu gosto por literatura e de certa forma por eu fazer Letras. Antes de ler sua obra eu não gostava de literatura brasileira (salvo Machado e Álvares de Azevedo, é claro) o que era um absurdo sem tamanho. Além disso, eu tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente quando lançou seu primeiro livro (na época eu devia ter uns 14 anos), e desde então eu acompanho seu fantástico trabalho e em todos os lançamentos lá estou para prestigiá-lo.
Pois bem, mês passado lá estava eu novamente para ver o novo livro do Orlando. Chegando lá ele veio me cumprimentar, sempre simpático e atencioso, fazendo questão de lembrar os nomes de seus fãs...
O evento foi na livraria Cultura do Conjunto Nacional e além da tradicional seção de autógrafos houve um bate-papo muito interessante entre o Orlando e Felipe Pena, um outro escritor que na época eu desconhecia... Não preciso dizer que o bate-papo foi demais! Orlando e Felipe trataram de tudo um pouco, desde o e-book e o mercado editorial até os novos caminhos da literatura contemporânea e a literatura no meio acadêmico. Em outras palavras: foi demais!
O Felipe também estava lançando um livro aquele dia O Marido Perfeito mora ao lado, seu segundo livro de ficção, mas seu décimo (se não me falha a memória) livro publicado. Os outros oito são todos teóricos sobre biografia ou jornalismo, uma vez que, além de escritor, ele também é jornalista, psicólogo e professor universitário. Papo vai papo vem, e o Felipe nos convidou para um outro bate-papo que haveria naquela mesma semana na livraria Saraiva do Shopping Morumbi.
Como o achei um cara muito legal e me interessei por seus livros, fui a esse outro bate-papo, interessado em saber mais sobre seus livros e sobre o tipo de literatura que ele escreve... Lá comprei seu primeiro livro de ficção O Analfabeto que passou no vestibular (relançado em 2011 pela Ed. Record com o nome Fábrica de Diplomas). Conversamos bastante no evento e tal... Enfim, passados uns dias comecei a ler o livro que de tal forma me encantou que terminei em dois dias.
Confesso que jamais havia lido algo do gênero. Sempre tive certa resistência com a literatura contemporânea nacional, à exceção dos livros do Orlando Paes Filho e do André Vianco, como comentei na última postagem, porém o livro do Felipe abriu minha cabeça e me mostrou um outro mundo literário que eu desconhecia, mas que acabei adorando.
Sempre li muito mais a literatura do Século XIX (sobretudo francesa e inglesa), e nas vezes em que me aventurei a ler autores do Século XX ou XXI foram autores ingleses ou norte-americanos, que, em sua maioria, escreviam literatura fantástica... Ou seja, há um verdadeiro abismo entre o que eu estava habituado a ler e O Analfabeto que passou no vestibular, um romance contemporâneo, de um autor brasileiro, cuja trama gira em torno de um assassinato que acontece às portas de uma favela no Rio de Janeiro. Mais diferente impossível, mas nem por isso menos legal.
Este livro se passa no meio universitário, mas aborda também outros pontos delicados de nossa conjuntura social como a política, as favelas, as drogas e a corrupção. Com uma narrativa leve surpreendente Felipe nos guia através de uma intriga policial: uma tentativa de assassinato que acaba por se mostrar muito mais complexa do que parecia ao início.
Romance-denúncia, é como Felipe o chama, pois mostra (ou denuncia) a incompetência de diversas instituições brasileiras. O livro é uma espécie de romance policial moderno no melhor sentido do termo; seu detetive, Antonio Pastoriza (detetive por acaso, não por profissão), não fica nada abaixo de meu ídolo Sherlock Holmes e nem de seus rivais Poirot e Dupin, não apenas em genialidade como na composição da personagem, que ao mesmo tempo cativa e surpreende com sua personalidade complexa e perturbada.
Além de Pastoriza há ao menos uns outros 8 personagens fantásticos (se não me esqueço de nenhum), super bem construídos, capazes de suscitar o ódio e a simpatia do leitor (e apenas não os descrevo um a um para não tirar a graça de quem for ler o livro, como espero que façam)... Realmente são ótimos personagens, daqueles que você passa a acreditar que, de fato, existem.
Enfim... O livro do Felipe abriu meus olhos para uma literatura que eu desconhecia e que me encantou e me fez ver quanta coisa boa está sendo feita e publicada, e quanta coisa boa há além do Orlando e do Vianco, afinal a literatura não morreu com Clarice Lispector e Bandeira (na minha opinião os maiores escritores brasileiros do século XX, mas nem por isso os últimos).
Sou grato ao Felipe por ter me mostrado esse novo mundo literário, um mundo que eu ignorava, mas que traz toda uma nova gama de possibilidades literárias tão boas (senão melhores) do que as que estou acostumado. Fez-me também ter ainda mais gosto pela literatura brasileira contemporânea, e de fato agora estou descobrindo novos caminhos... Como disse na outra postagem, descobri neste fim de semana quatro novos autores muito bons... Estou na metade do livro da Martha Argel e estou adorando, em breve postarei comentários.
É curioso a forma casual como tomei conhecimento de Felipe Pena e seus livros... Mas a vida tem dessas coisas... Realmente foi uma grata surpresa... O próximo passo é ler O Marido perfeito mora ao lado...
PS: Vejam o Blog do Felipe Pena...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Um outro tipo de Mago

Não sabia sobre o que fazer essa primeira postagem. Digo primeira, pois as outras duas foram apenas explicações sobre o título e o Blog em si. Essa é a primeira postagem, de fato, e por isso decidi falar um pouco sobre um dos livros que mais adoro: Jonathan Strange & Mr. Norrell, da inglesa (é claro que tinha de ser de uma inglesa) Susanna Clarke.
Jonathan Strange trata de um tema super comum nos dias de hoje: magia (tema comum, mas que todo mundo adora). Em poucas palavras, trata-se da história de dois magos na Inglaterra do século XIX, durante o período das guerras napoleônicas. Até aí, nada demais... não é? Afinal o que não falta numa livraria são livros de magos, bruxos, etc. O diferencial, porém, da obra de Susanna Clarke é misturar o fantástico a alguns outros gêneros muito conhecidos: o romance histórico e a sátira social. O que a primeira vista pode parecer meio (?) chato para o público não-especializado, mas na verdade acaba ficando muito, mas muito bom mesmo... (Mesmo desconsiderando o fato de eu ser exagerado, o livro ainda é 'muito bom').
Os dois protagonistas, Jonathan Strange e Mr. Norrell, não se enquadram ao protótipo dos magos: não usam roupas espalhafatosas ou esdrúxulas; não são velhos barbudos e com longas cabeleiras brancas; tampouco usam varinhas (em outras palavras: não são Gandalf, Dumbledore, Harry Potter). Vestem-se como dois cavalheiros deveriam se vestir na época, e portam-se de igual maneira. Ou seja, são ricos, refinados e esnobes. Mr. Norrell é tão comum (e cafona) que chega ao cúmulo de usar aquela peruquinha ridícula que os franceses usaram por muito tempo... Não consigo imaginar nada mais ridículo (e cômico). Mr. Strange, por outro lado, limita-se a ostentar seus cabelos vermelhos (o que contrasta com o velhinho de peruca), porém, nesse livro até essa informação banal torna-se interessante (e até engraçada), já que o narrador, com seu humor ácido, comenta que não consegue achar bonito, ninguém que seja ruivo (deixo claro que essa é uma opinião do narrador do livro).
Nada diferencia esses dois dos outros membros da Londres da época, tirando o fato evidente de que podem fazer magia (senão não seriam magos e o livro não teria graça, é claro). Mas isso não é relevante todo o tempo, embora seja sempre o tema principal. Suas vidas tem tudo o que pode haver de mais ordinário: frequentam bailes, casas de lordes e duques, tomam chá à tarde (evidentendemente, são ingleses!), enfim, tudo aquilo que pode ser facilmente encontrado num livro que retrate a vida social da época, como alguns de Henry James, Jane Austin, etc. Livros que normalmente o povo não gosta, pois são cansativos e todos meio parecidos (mas eu gosto). Contudo, o assunto dessas reuniões nada tem de ordinário, pois até a coisa mais tosca fica legal quando tem magia no meio... Magia de bom gosto, é claro.
Nesse meio tempo Inglaterra e França se batem na famosa guerra e história e ficção se mesclam de tal maneira que, não fosse absurdo, a gente poderia pensar que foram os magos quem deram a vitória à terra da Rainha (vai saber, não é? As coisas, às vezes, são mais legais do que parecem... Ou ao menos eu prefiro pensar assim).
A narração do livro tem sua graça, como comentei. Entretanto, não é aquele humor pastelão (ninguém merece livro com humor brega, não é mesmo?), é um humor refinado cheio de ironias saborosas e ácidos sarcasmos (no melhor estilo House - imagino que já deu para notar que gosto de uma ironiazinha, que, afinal, não faz mal a ninguém). Mas continuando, o livro tem uma narração cáustica que não te faz gargalhar (aliás, acho que nenhum livro te faz gargalhar, nem livro de piada), mas sim abrir aquele sorriso discreto de canto de boca, seguido de uma piscadela. Um humor quase machadiano, não fosse o absurdo da comparação, pois há um abismo que separa os dois mundos - um tão bom quanto o outro, guardadas as devidas proporções.
Também a Magia do livro não é como a de outros livros... Não há, como disse, varinhas, ou cajados, vassouras, ou caldeirões (Nada contra, adoro Harry Potter, mas ninguém precisa de outro Harry Potter, não é? Acho que é bom algo diferente, só para variar). Por outro lado, há muitos espelhos. Nada há de mais importante para esse tipo de mago do que um espelho, alguns livros e uma bacia de prata com água cristalina... No livro qualquer um pode ser mago, desde que estude bastante, tenha espelhos e água cristalina (fácil, não é? É claro que estou exagerando novamente).
Mas enfim, não posso falar mais sobre o enredo (seria muita sacanagem contar o final do livro), quando meu intuito é justamente incentivar a leitura deste livro. Aliás, o que mais me impressiona a respeito da obra de Susanna Clarke é a completa falta de sucesso!!! Como pode? Um livro tão bom! (Eu diria o melhor, mas seria exagero de novo). O livro tinha tudo para dar certo: magia (que está na moda); humor refinado (coisa que nunca sai de moda); uma boa escrita, mas de fácil leitura e entendimento (ninguém quer ler livros que ninguém entende... Tá, a crítica quer, mas isso é outra coisa...); uma trama interessante que surpreende, além de é claro, ser um livro inteligente, sem ser pedante... Junta-se ainda o fato de ter feito um enorme sucesso na Inglaterra e outros países, segundo me consta (não lembro onde vi isso, mas sei que vi em algum lugar, na dúvida, jogue no Google). Por que então, não fez sucesso aqui no Brasil?
Tenho três teorias: a primeira é porque ainda não fizeram um filme (estão prometendo já há alguns anos, mas até agora nada e todo mundo sabe que hoje em dia livro só faz sucesso mesmo depois que vira filme); a segunda é porque o livro é caro (o povo gasta dinheiro com tudo, menos com livros neste país); e a terceira é porque não teve nenhuma propaganda (coisa básica), embora não exista melhor propaganda do que o boca-a-boca e é por isso que resolvi falar desse livro antes de qualquer outra coisa aqui no Blog.
Enfim, só para terminar: Jonathan Strange & Mr. Norrell não é somente a história de dois magos, é a história de dois cavalheiros (acho que isso ficou meio brega, mas acho que deu para entender o espírito)... Como bem exemplifica esse trecho do livro:
“- Pode um mago matar um homem com magia? - perguntou Lorde Wellington a Strange.
Strange franziu o cenho. Pareceu não gostar da pergunta.
- Creio que um mago poderia – admitiu – Um cavaleiro, jamais.
Lorde Wellington assentiu com a cabeça, como se tivesse esperado exatamente esta resposta. [...]”
(Janeiro – Março de 1811)
(Trecho extraído de Jonathan Strange & Mr. Norrell, de Susanna Clarke, São Paulo: Cia. das Letras, p. 321.)
Creio que depois disso não é preciso dizer mais nada, o livro fala por si só... E se não te convenci a ler até agora, eu desisto. Aos que consegui convencer, boa leitura!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A Teoria de Sherlock Holmes...



Creio que nada mais justo do que abrir esse Blog com a Teoria que lhe deu origem... Por isso, sem delongas, passo a palavra a Sherlock Holmes:


“- Veja – explicou -, em minha opinião o cérebro humano originalmente é como uma casa vazia que vai sendo equipada com os móveis que a pessoa escolhe. Os tolos levam para dentro todos os trastes que encontram, de modo que os conhecimentos que poderiam ser-lhes úteis ficam completamente atravancados, ou, na melhor das hipóteses, misturados com um monte de outras coisas, de modo que essas pessoas têm dificuldade para atingir o que desejam. Já o trabalhador eficiente tem o maior cuidado quanto ao que leva para dentro de seu cérebro-casa. Ele só se interessa pelas ferramentas capazes de ajudá-lo a fazer seu trabalho, mas dessas tem em enorme sortimento, tudo na mais perfeita ordem. É um engano imaginar que aquela salinha tem paredes elásticas, capazes de se distenderem o quanto se queira. Pode acreditar: chega um momento em que todo acréscimo de conhecimento significa esquecer alguma coisa que antes sabia. É da maior importância, portanto, não ter fatos inúteis tirando o lugar dos úteis."

(Trecho extraído de O Estudo em Vermelho, de Sir Arthur Conan Doyle, trad. de Heloisa Jahn, 7ª ed., São Paulo, Ed. Ática, 2003, p. 30).

Um Blog, porém, pode resolver esse problema de falta de espaço...
Seja Bem-vindo!