sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Última postagem de 2014: Retrospectiva Literária

            Fim de ano todo mundo fica meio piegas e como ser piegas de vez em quando cai bem, fiquei com vontade de fazer uma breve retrospectiva literária de 2014, que foi um dos melhores (se não o melhor) ano da minha vida...
           Para começar, este ano iniciei meu doutorado, chamado Um Bestiário Simbolista.
Defendi o mestrado em novembro de 2013, com uma dissertação sobre Pessanha, Mallarmé e Verlaine (disponível aqui, caso interesse alguém) chamada: Camilo Pessanha Revisitado: o “Verlaine Português” à luz de Mallarmé. Agora, no doutorado, continuo estudando o simbolismo, mas quis algo mais abrangente, em que pudesse juntar minhas duas paixões: o simbolismo e o fantástico. E parece que está dando certo. Qualquer hora faço uma postagem sobre isso.
O ano de 2014 me marcou também pelo lançamento da coleção O Melhor de Cada Tempo, organizada por mim e pela minha orientadora, a professora Annie Gisele Fernandes. A coleção está sendo publicada pela Editora Vermelho Marinho e é o primeiro resultado da minha parceria com meu grande amigo Tomaz Adour, editor-chefe da Vermelho. A ideia da coleção é lançar obras raras nunca antes editadas no Brasil ou há muito fora de catálogo. Nada que outras editoras já não façam também, mas temos nos esforçado para buscar títulos realmente representativos e chamativos e foi assim que lançamos a série: Mundo de Oz. Pouca gente sabe no Brasil, mas L. Frank Baum, o criador do mundo de Oz, publicou 14 livros sobre a série, e mais alguns spin-offs, e a série nunca havia sido lançada no Brasil. Até agora. A Vermelho Marinho lançou até agora os três primeiros volumes e estamos preparando o quarto (os livros estão disponíveis na Livraria Cultura e na Martins Fontes). Os livros foram traduzidos pela minha namorada, a Carol Chiovatto, recém-ingressa no curso de Mestrado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês, na USP, com um projeto de dissertação sobre o Mundo de Oz. As edições são ilustradas pela querida Dandi e acompanhadas de notas e estudos. Enfim, um trabalho que tem sido muito gostoso de fazer.
Os dois primeiros volumes foram lançados na Primavera do Livro de São Paulo, uma importante feira literária, e o terceiro na Livraria Cultura. Eles marcam o início da coleção O Melhor de Cada Tempo, juntamente com Futilidade ou O Naufrágio do Titan (sobre o qual já falei aqui), traduzido pelo meu amigo Carlos Daniel S. Vieira.
Em 2014, minha parceria com a Editora Saída de Emergência também rendeu frutos. Foram lançados vários livros em que preparei o texto e/ou adaptei a tradução (do português de Portugal para o português do Brasil), como Mago 3 – Espinho de Prata, Mago 4 – As Trevas de Sethanon, Tigana 2 – A Voz da Vingança e A Espada de Shannara. Além disso, a Saída publicou o segundo número da Revista Bang (o número 1, para dizer a verdade, pois o anterior havia sido o número Zero, ambos disponíveis aqui para download), na qual contribuí não apenas como preparador de texto, mas também com um artigo sobre O Fantástico no Brasil ao longo do século XX, dando continuidade ao artigo do número anterior, no qual falei sobre as origens do gênero.
Ainda sobre o fantástico, tive a oportunidade esse ano de participar de vários eventos e congressos sobre o gênero, como o congresso internacional Vertentes do Insólito Ficcional, que aconteceu (e acontece todo ano) na UERJ e o Mondo Estronho, evento organizado pelo pessoal das editoras Estronho, Fantas e Arte & Letra e que aconteceu na Cinemateca de Curitiba. No primeiro, falei sobre o fantástico no simbolismo e tive a oportunidade de entrevistar os professores Flavio García e Maria Cristina Batalha que falaram sobre o fantástico para o número especial da revista Desassossego sobre a Literatura Fantástica em Portugal, revista que edito juntamente com meu amigo Leonardo Sasaki (as entrevistas estão disponíveis aqui e aqui). No segundo, dei uma palestra junto com a Carol sobre o mundo de Oz. Nessa viagem, nós nos apaixonamos por Curitiba... Foi um ano, aliás, de muitas viagens e feiras de livro, estivemos em Maringá e São Carlos e várias vezes no Rio de Janeiro, que o ano que vem continue assim...
            Neste ano, quase não publiquei em coletâneas, mas tive um conto aprovado para a antologia Dinossauros, organizada pelo escritor Gerson Lodi-Ribeiro, que será publicada pela Editora Draco. O conto de Dinossauros será o primeiro trabalho em parceria com a Draco e fiquei muito feliz com isso. Publiquei também Xeque-mate –Contos Policiais, que saiu pela editora Andross. Xeque-Mate é a primeira coletânea que organizo sozinho e foi uma experiência incrível. Aproveito para dizer que, para 2015, estou organizando junto com a Carol a antologia Além das Cruzadas – Contos Medievais. As submissões ainda estão abertas (saiba mais aqui)!
            Este ano, resolvi também criar vergonha na cara e manter o Cérebro-Casa minimamente atualizado, tentando ao menos fazer uma postagem por mês. Com esta, que é a última do ano, serão 13 postagens em 2014. Ano que vem espero produzir mais para manter o blog sempre em dia. Adianto que já tenho dois textos prontos para janeiro...
Por fim, encerrei meu ano literário com o melhor de todos os acontecimentos: o lançamento de meu livro Contos para uma Noite Fria (saiba mais sobre o livro aqui). O lançamento aconteceu no dia 13 de dezembro e foi um dia muito feliz, quando pude, novamente, perceber a sorte que tenho em ter uma família e amigos tão incríveis!
Para encerrar essa postagem, deixo algumas fotos do lançamento para quem ainda não viu (aproveito para agradecer ao meu irmão, Lucas, pelas fotos!), e votos de um Feliz 2015 a todos! Se 2014 foi um ano incrível, espero que 2015 seja ainda melhor!



 





quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sobre "Contos para uma Noite Fria"


Contos para uma Noite Fria

Comecei a escrever ficção aos treze anos. Primeiro insisti em patinar no gênero romance e até cheguei a terminar um, mas que está longe de ser publicável. Gênero difícil, com o qual ainda me digladio, um dia hei de terminar algo decente. Em 2003, descobri o conto como possibilidade de escrita e desde então soube que, mesmo que venha a escrever textos de outras categorias, o conto seria a minha casa. Gosto do gênero por sua concisão, potência e capacidade de surpreender. Descobri contistas excelentes como Guy de Maupassant, Sir Arthur Conan Doyle, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Murilo Rubião, Clarice Lispector dentre muitos outros que muito me ajudaram a entender o poder sugestivo dessa forma breve. Desde então publiquei contos em algumas coletâneas e organizei algumas outras. Outros guardei, e fui burilando com carinho. 

Ilustração do conto "Estátuas"
Por isso, é com muita alegria que convido a todos para o lançamento de Contos para uma Noite Fria, meu primeiro livro, que traz 12 contos, escritos e reescritos muitas vezes entre 2003 e 2013. Os contos giram em torno de temas da Literatura Fantástica, flertando com o sobrenatural e com mundos distópicos, e com toques de terror psicológico. Tentei brincar com os limites entre a ficção e a realidade, entre o real e o onírico, entre o sobrenatural e a loucura.

O livro sairá pela Llyr Editorial, o selo de literatura insólita da editora Vermelho MarinhoO prefácio é assinado pelo meu grande amigo Rogério Caetano de Almeida, professor de Literatura Brasileira da UTFPR, que conheci pouco depois de ter começado a escrever. Rogério foi meu professor de Literatura no colegial e sem dúvida o maior responsável por eu ter continuado a escrever, por eu ter feito Letras, por ter seguido a carreira acadêmica, por ter escolhido dedicar minhas pesquisas ao Simbolismo. Mais que um amigo, Rogério é um verdadeiro mestre e, por isso, a pessoa perfeita para prefaciar o livro. Não bastassem todos esses motivos, Rogério é ainda um grande estudioso da literatura fantástica e coordena o grupo de pesquisa O Estranho, o Fantástico e o Grotesco: Estudos sobre os Gêneros, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, onde trabalha.

Ilustração do conto "A Melancolia do Piano"
Cada um dos 12 contos é acompanhado por uma ilustração da minha grande amiga Dandi, a mesma que fez as capas da coleção O Melhor de Cada Tempo, dentre as quais a de Futilidade ou O Naufrágio do Titan, e também as capas e ilustrações internas da série Mundo de Oz. Dandi tem o poder sobrenatural de conseguir captar exatamente o que eu gostaria que o leitor sentisse ao ler cada conto. Cada desenho, portanto, traz a essência das histórias, embora seja, talvez, pretensão de minha parte querer que meus contos estejam à altura de seus desenhos. Dandi assina também a capa  (que pode ser vista aberta aqui), baseada no conto “Gravidade às Avessas”, um dos menores textos do livro, mas, sem dúvida, meu favorito. “Gravidade” é um conto diferente dos demais, por diversos motivos, mas achei que a ideia de isolamento existencialista e, ao mesmo tempo, de loucura e de fantástico presentes nesse conto captavam a ideia do conjunto e dariam o ar ideal para a capa. Espero que tenha dado certo. Não vou falar dos demais contos para não quebrar a aura de mistério, mas deixo para vocês dois desenhos de Dandi: a ilustração que acompanha o conto “Estátuas” (que a editora já divulgou no Facebook) e a que ilustra o conto “A Melancolia do Piano”, inédita até agora, e, uma de minhas favoritas. Espero que gostem. A diagramação foi feita por outro amigo incrível, o Marcelo Amado, da Página 42, a quem devo metade a outra metade da beleza do livro.

O lançamento será no dia 13 de dezembro, das 15h às 17h30, no Espaço Café da Livraria Cultura do Shopping Market Place, localizado na Av. Dr. Chucri Zaidan, 902, ao lado da Estação Morumbi da CPTM. Há mais informações sobre o lançamento na página do Evento no Facebook. Nem preciso dizer que são todos mais que bem-vindos! Quem não puder ir ao lançamento ou já quiser encomendar o livro, ele já está à venda nos sites da Livraria Cultura e da Livraria Martins Fontes Paulista. Quem quiser pode também adicioná-lo à sua estante no SkoobPor fim, deixo a sinopse do livro para atiçar a curiosidade de vocês: Ao abrir Contos para uma Noite Fria, prepare-se para entrar em um universo de histórias fantásticas, de sobrenatural, absurdo e distopia, onde sonhos se tornam pesadelos e cenários misteriosos viram delírios apocalípticos. A inquietação e o medo (do estranho ou de nós mesmos), então, ganham vida, com vários estilos e temáticas. E, apesar da diversidade – que vai da melancolia do artista a possíveis futuros e devaneios em torno de si –, um tipo específico de linha costura todas as narrativas: uma grande perturbação. E, em vez de querer escapar, você se verá envolvido por este universo tão louco quanto um mundo de cabeça para baixo.

Uma Espiada na Diagramação




domingo, 23 de novembro de 2014

Não custa nada dizer que o livro tem sequência

         Acabo de ler dois livros muito, mas muito legais: O Orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares, de Ransom Riggs e O Peculiar, de Stefan Bachmann. Dois livros de fantasia BEM diferentes um do outro (sobre os quais escrevi no blog, em textos que nomeei como Primeiras Impressões (Extremamente Pessoais) e Steampunk e Magia Antiga, respectivamente), mas que, a despeito de todas as qualidades (e são muitas) trazem um defeito bastante incômodo (para dizer o mínimo): são séries. Não que eu tenha qualquer problema com séries. MUITO pelo contrário: eu as adoro. Sou fã de Harry Potter, de J. K. Rowling, das Crônicas de Gelo e do Fogo, de George R. R. Martin, das Crônicas Vampirescas, de Anne Rice e das muitas sagas de Bernard Cornwell, para citar apenas alguns exemplos. Ou seja, esse não é o problema em si. O que detesto, na verdade, é ler um livro SEM SABER que, na verdade, ele é uma série. Afinal, não custa nada dizer que o livro tem sequência, não é mesmo?

  Esse é o caso de O Peculiar e O Orfanato da Srta. Peregrine... Em ambos não há o MENOR indício de que suas histórias não se completam em si mesmas. E não são, é importante explicar, aquele caso de livro que termina com um gancho para uma possível continuação, mas que não exigem a leitura do possível livro 2. Não. Os dois livros que mencionei acima são livros que pressupõem uma sequência em sua essência. A história de ambos acaba no meio, como um fim de capítulo, deixando o leitor com cara de bobo, pois, em última instância, foi ludibriado, por não saber que se tratava de uma saga... Nestes livros, não há qualquer numeração que indique que se trata do número 1 de uma série, ou o nome da saga ou coleção. Não há nada. Simplesmente, percebi que haveria uma sequência quando há poucas páginas do final me dei conta de que a história não conseguiria se fechar em si mesma. Não é o caso, por exemplo, de A Corte do Ar, que embora tenha continuações é sozinho uma história completa, com começo, meio e fim.

       Curiosamente, por coincidência, essa semana uma grande amiga, a escritora e editora Ana Cristina Rodrigues, postou em seu Facebook um comentário sobre livros de fantasia que não são séries, como Jonathan Strange & Mr. Norrel, de Susanna Clarke (sobre o qual já falei no texto Um Outro tipo de Mago), e sobre o quanto este tipo de livro parece cada vez mais raro na fantasia contemporânea, o que, por sua vez, estaria fazendo com que as pessoas se cansassem de ler sagas...
         Particularmente, nada tenho contra séries, como já disse. Porém, irrita-me muito começar a ler uma sem saber com antecedência que se trata de uma série (afinal, às vezes, você não está com espírito para ter de ler vários livros – muitas vezes ainda nem lançados ou sequer escritos, o que é pior – para poder saber qual é o fim da história). Logo, o problema todo está na falta de informação (meio maldosa, eu diria, pois, na verdade é uma omissão). Afinal, o que custa avisar que o livro tem sequência?


        PS: Embora eu possa parecer um pouco irritado (e estou mesmo), com O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares e com O Peculiar, continuo indicando ambos fortemente! (Caso você queira iniciar a leitura de duas novas séries, é evidente). Os dois são excelentes e deixaram, confesso, uma vontade imensa de ler mais sobre seus respectivos universos (como não poderiam deixar de ser, já que não têm fim em si mesmos). Espero, portanto, que as continuações, já lançadas fora do Brasil (The Whatnot, de Stefan Bachmann, e Hollow City, de Ransom Riggs), cheguem logo por aqui, pois parece que agora tenho duas novas séries para acompanhar.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Steampunk e Magia Antiga na Fantasia Contemporânea


            Nota preliminar: Quando comecei a escrever esse texto, a ideia era fazer uma resenha do livro O Peculiar, de Stefan Bachmann, um livro juvenil incrível; porém, à medida que fui escrevendo, fui me lembrando de muitos outros livros que, de um jeito ou de outro, conversam com o livro de Bachmann, de modo que acabei me desviando do objetivo primeiro. Por isso, esse texto, mais do que uma resenha de O Peculiar é, antes, um comentário sobre os livros de fantasia contemporânea que mesclam o gênero steampunk com elementos celtas, evocando a Antiga Magia feérica e folclórica daquele povo e como eles todos dialogam com o livro de Stefan Bachmann. Mas vamos ao texto...


Steampunk e Magia Antiga em O Peculiar e em outros livros de Fantasia Contemporânea

       Sempre fui apaixonado pela Era Vitoriana. Pelos livros da época, pelas roupas, pela elegância, pela atmosfera. Por muito tempo, quase todas as minhas leituras eram de livros escritos nesse período, como os de Sir Arthur Conan Doyle ou os de Robert Louis Stevenson. Depois, comecei a ler os livros que se passavam nessa época, independentemente do período em que haviam sido escritos, e, assim, ao longo do tempo, descobri dois de meus livros favoritos: Jonathan Strange & Mr. Norrell, de Susanna Clarke (publicado no Brasil pela Cia. das Letras, sobre o qual falei aqui no blog há quatro anos, em um texto chamado “Um outro tipo de Mago”) e o recente A Corte do Ar, de Stephen Hunt (publicado no Brasil pela Editora Saída de Emergência, em edição que tive a honra de trabalhar como preparador de texto).

        O livro de Hunt me fez olhar com outros olhos para a Era Vitoriana, apresentando-me um mundo à parte chamado Steampunk, sobre o qual (fui perceber) eu conhecia ainda muito pouco, tendo lido apenas alguns contos e coletâneas de escritores amigos. Logo, enquanto o livro de Susanna trazia uma Inglaterra histórica, a mim já familiar, ainda que repovoada por magos e seres feéricos, na qual acontecimentos históricos (como as guerras napoleônicas) e personagens da vida real (como o Duque de Wellington e o Rei da Inglaterra) se entranhavam a personagens e reinos fictícios, A Corte do Ar trazia uma Inglaterra distorcida pelo vapor. Aliás, Chacália, como é chamada no livro, não é exatamente a Inglaterra de fato, mas o é, sem o ser. Explico: Chacália é uma espécie de Inglaterra alternativa, distópica e retrofuturista; em outras palavras: é uma visão de como a Inglaterra poderia ter sido, mas não foi (aliás, essa é a essência de toda narrativa steampunk). O ambiente vitoriano está lá, ainda que não haja uma Rainha Vitória, assim como está lá a essência do povo inglês. Tanto em Jonathan Strange... quanto em A Corte do Ar, a magia se mescla à vida cotidiana dos cidadãos do reino. No primeiro, por meio de magos que, a despeito de seus poderes, têm uma curiosa preocupação com a vida social, com bailes e festas da alta sociedade, como nos livros de Jane Austen e Charles Dickens, e hábitos esquisitos, como o de viajar por espelhos, ou ainda, por meio de seres feéricos que passeiam entre os reinos espirituais existentes entre a Inglaterra e o Inferno. No segundo, há um tipo de magia mais excêntrica, que dá vida à raça dos homens-vapor e confere poder aos seres humanos que cruzam a linha do país dos encantados. Em ambos, elementos feéricos de tradição folclórica celta se entremeiam ao clima urbano da velha Londres (e de Açomédio, de sua prima-irmã de Chacália).

       A essa altura você provavelmente entendeu porque esse texto deixou de ser uma resenha de O Peculiar... O fato é que me parece praticamente impossível entender o universo do livro de Bachmann sem mencionar antes Jonathan Strange & Mr. Norrell e A Corte do Ar com os quais tão claramente dialoga, ainda que não expressamente. O fato é que ao ler O Peculiar não pude deixar de lembrar dos outros dois livros de que tanto gosto. E, para falar a verdade, foi justamente por conta deles que cheguei a Bachmann, pois foi somente depois de ter lido Stephen Hunt que fiquei realmente encantado com esse novo olhar sobre o mundo vitoriano e, por isso, resolvi buscar mais coisas sobre o universo steampunk. Assim, depois de ler mais algumas obras nacionais e artigos sobre o gênero (alguns deles na Revista Bang! sobre a qual postarei algo em breve) cheguei a dois livros juvenis ligados a esse gênero: Voos e Sinos e Misteriosos Destinos, de Emma Trevayne (publicado no Brasil pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras) e o próprio O Peculiar, de Stefan Bachmann (publicado no Brasil pelo selo Junior, da Editora Record). Li primeiro o livro de Trevayne, que, mais do que tudo, eu confesso, encantou-me pela capa maravilhosa e pelas ilustrações internas incríveis de Glenn Thomas
       Esse livro traz a nossa Londres Vitoriana real, onde Jack, um menino rico (e um tanto mimado) vive uma vida bastante enfadonha. Até que um dia ele descobre uma passagem secreta sob o relógio da cidade, que o leva à Londinium, uma espécie de outra Londres, habitada por seres feéricos mecânicos e também por seres humanos semi-mecânicos, cujas mãos, pés ou parte do rosto foram substituídos por aparatos a vapor, misturando, assim, a antiga magia e o steampunk, tal como em A Corte do Ar (em certa medida, Londinium é muito parecida, portanto, com a Açomédio de Chacália).
       Em muitos aspectos, é evidente, o diálogo com Hunt, mas também senti ecos de Coraline, de Neil Gaiman, por também trazer um mundo mágico que espelha o mundo real, governado por uma senhora tirânica que deseja capturar o protagonista e cria-lo, a seu modo torto, como seu próprio filho. A despeito das semelhanças, porém, Coraline não é um livro steampunk e tampouco traz elementos do folclore celta então paro por aqui. Um livro sempre leva a outro e assim por diante, então é preciso saber a hora de não ir mais além. Voltemos ao steampunk para chegar, finalmente, a O Peculiar. E espero que agora tudo o que eu falei faça sentido, pois, como eu disse, era sobre ele que queria escrever em primeiro lugar, livro que, para mim, é a mistura do universo steampunk de Hunt e Trevayne com o mundo vitoriano da alta sociedade repleto de magia celta e feérica encontrado em Susanna Clarke.

       O Peculiar começa contando como a nossa Inglaterra (a real, portanto) se tornou um mundo steampunk por culpa (ainda que indiretamente) das fadas e demais seres feéricos, como goblins, gnomos, elfos, trolls, etc. Logo, já na premissa temos a mistura sobre a qual quis chamar a atenção no título desse texto.
      Tudo se inicia em Bath, uma cidade interiorana, onde começaram a ocorrer diversos eventos extraordinários (como uma chuva de penas pretas, como as de corvos para citar apenas um), e, a princípio, inexplicáveis, que revelam a existência das fadas e demais criaturas feéricas. É então declarada a guerra. Humanos e feéricos lutam pela Inglaterra em uma batalha dura e longa. Ao fim de algum tempo, os feéricos são finalmente vencidos pelos ingleses que descobrem ser preciso utilizar ferro e destruir a natureza (da qual os feéricos tiram sua força) para combatê-los (não se preocupem com spoilers, pois isso tudo acontece nas primeiras cinco páginas do livro).

       Suplantados, os feéricos passam a viver entre os humanos em um mundo cada vez mais poluído, enfumaçado, cinza e movido a óleo e vapor. Ou seja, de um universo semelhante ao de Susanna Clarke chegamos a algo parecido à Chacália de Hunt e à Londinium de Trevayne. O steampunk invade, pois, o mundo celta da antiga magia e a ele se mistura. Feéricos passam a viver como ingleses, só que são marginalizados. Pobres, vivem em cortiços da periferia de Londres. Não obstante, ajudam os ingleses em muitas coisas - como por exemplo nas guerras napoleônicas, quando os ingleses vencem apenas devido a ajuda dos trolls e gigantes (guerras que também são mencionadas no livro de Susanna Clark, no qual a Inglaterra somente consegue vencer por causa do mago Jonathan Strange).
       Talvez essa atmosfera que misture trolls, fadas, elfos e tecnologia a vapor lembre ainda os HQs e filmes do Hellboy, de Mike Mignola, abrindo uma nova rede intertextual. E lembra mesmo, sobretudo o segundo filme, no qual Hellboy conhece um ser ectoplasmático de vapor vivendo em um corpo de autômato, dentre outras coisas, como os óculos steampunk que usam para poderem ver seres feéricos. Penso sobretudo na cena do mercado troll, sob a ponte do Brooklin, que aparece no segundo filme da saga, no qual vive toda sorte de criaturas.
Mercado Troll de Hellboy II - O Exército Dourado
      É esse o ambiente de O Peculiar. E é nesse contexto que surgem os dois protagonistas: Bartholomew Kettle, um menininho “peculiar” (isto é um mestiço, filho de uma humana com um feérico) e Arthur Jelliby, um membro da alta sociedade londrina e do parlamento. Ambos desejam, a seu modo, passar sempre despercebidos. O primeiro, porque os peculiares são mal vistos tanto pelas fadas quando pelos humanos que os marginalizam (motivo pelo qual são também conhecidos como “medonhos”); o segundo, porque quer evitar problemas, já que deseja uma vida tranquila (e é extremamente preguiçoso). Ambos, porém, acabam presenciando cenas que não deveriam, ouvindo e vendo coisas demais, sobre uma série de assassinatos de crianças peculiares que vem assolando o país. Descobrem, então, que Barth pode estar em risco e Arthur decide não ficar de braços cruzados, pois apesar de seu desejo de sempre evitar problemas (e de sua imensa preguiça) sua honra não o deixa ficar parado (ele é um nobre inglês, afinal). Tudo isso em meio a conflitos políticos que são muito maiores do que parecem a princípio e dizem respeito a grandes planos megalomaníacos de um importante lorde (assim como, outra vez, em A Corte do Ar, cuja conspiração atinge até mesmo as camadas mais altas da cúpula que governa Chacália). E é nessa atmosfera que se desenvolve essa história deliciosa.
       Tudo isso para dizer simplesmente que recomendo fortemente a leitura de todos esses livros, na esperança de que mais pessoas se encantem com esse universo povoado por fadas e gnomos e seres movidos a vapor.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Primeiras impressões (extremamente pessoais) sobre "O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças peculiares", de Ransom Riggs

           Decidi comprar o livro O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, de Ransom Riggs, por um simples motivo: o filme vai ser adaptado e o diretor vai ser ninguém menos do que o mestre Tim Burton, que é indiscutivelmente meu diretor favorito. Isso não bastasse, na quarta-capa da edição brasileira, publicada pela Editora Leya, há a seguinte citação:

         Vocês têm certeza de que não fui eu quem escreveu esse livro? Parece algo que eu teria feito... Tim Burton.

         Isso já foi suficiente para eu querer ler. Ajuda também o fato do livro ser muito bonito. Não de uma beleza comum. O livro é todo peculiar, digamos assim, desde a capa propositadamente envelhecida aos desenhos internos, já que é todo ilustrado por fotos reais de época, que retratam supostas atividades paranormais a partir das quais a trama se desenvolve (curiosamente, esse tipo de foto é o material de pesquisa de um grande amigo, o que só despertou ainda mais a minha curiosidade – ao lado e abaixo veja duas das fotos em questão). E mal comecei a leitura, fui tomado pelo livro de tal forma que senti uma necessidade imensa de vir escrever algo sobre ele antes mesmo de terminar a leitura [e adianto desde já que vou dar alguns pequenos spoilers adiante sobre os três primeiros capítulos, mas nada que não esteja subentendido na orelha do livro, de todo modo, a etiqueta pede que eu os avise].


         Logo em seu prólogo, o livro de Ransom Riggs mexeu muito comigo. O começo lembra muito Peixe Grande e suas histórias maravilhosas (que, não por acaso, também virou filme nas mãos de Tim Burton) e traz uma atmosfera que em dada medida me lembrou Onde vivem os monstros? – mas isso é só no prólogo mesmo. O autor nos apresenta então a relação de fã e herói entre um menino e seu avô, o que logo de cara já criou uma grande empatia de minha parte, saudoso como sou de meu avô materno. O Sr. Portman (o avô de Jacob, protagonista do livro), tal qual o meu avô, era um contador de histórias; as dele, fantásticas, as do meu, reais. Mas nem por isso menos fantásticas.


Sem saber se são verdade ou não, Jacob ouve as histórias de seu avô, ora acreditando, ora duvidando, torcendo para que sejam verdadeiras. Como em Peixe Grande, as histórias do Sr. Portman parecem reais, mas talvez sejam exageradas demais, seja porque quem as conta é um neurótico de guerra, seja porque quem as ouve é um menininho que idolatra seu avô. E a explicação, a princípio, é exatamente essa. Não bastasse ser um neurótico de guerra com transtorno pós-traumático, o Sr. Portman é um exilado. Polonês e judeu, foi mandado embora de sua pátria por seus pais que tentavam salvá-lo da Segunda Guerra. Ao ler isso, minha mente foi longe de volta à minha própria história... Lembrei-me de meu bisavô paterno, que pouco ou quase nada conheci (ele morreu quando eu tinha um ano), mas que, segundo minha família conta, também era um neurótico de guerra, que teria fugido da Lituânia com a roupa do corpo e um cavalo rumo a Hamburgo, onde embarcou rumo ao Brasil, também para fugir da guerra (conta-se na minha família também que no meio do caminho ele teve de matar o cavalo para comer, pois não tinha mais nada consigo – mas a linha que divide o que é real nessas histórias de família e o que é imaginação é bem tênue e como meu bisavô já partiu sua figura a cada vez mais vai sendo envolta de mistério). Ou seja, tal qual a ficção, na vida, a realidade se entremeia por fantasia. Fui lendo e viajando em memórias. Minha mente também passeou por lembranças contadas para mim pela mãe de um tio judeu, cuja história é tão incrível quanto a do Sr. Portman, só que ao invés da Polônia ela fugiu do Egito e sua história é digna de um livro. De meu avô materno, lembrei de suas histórias sobre seu próprio avô, que era ator e dramaturgo e que escrevia peças fantásticas. Segundo meu avô me contou, o avô dele veio para o Brasil se apresentar com sua companhia por aqui, mas a Primeira Guerra estourou e ele acabou não voltando mais à Itália. São tantas lembranças. Afinal, avôs e avós são sempre contadores de histórias. E quando essas histórias envolvem guerra, normalmente, são histórias de terror, e é assim que parecem as histórias do Sr. Portman num primeiro momento. Histórias horríveis, mas assustadoramente reais. Mas voltemos ao livro de Riggs.
O primeiro capítulo me tirou o fôlego, pois, se num primeiro momento ficamos totalmente encantados com a história do avô e de seu neto, no momento seguinte sentimos esse avô sendo tirado de nós e compartilhamos da intensa dor de Jack. Dor que se torna mais intensa para quem já sentiu isso na vida real, e, sobretudo, numa semana em que dois amigos acabaram por passar pela mesma situação. A nostalgia e a melancolia estavam à flor da pele. O livro despertou certa tristeza ao mesmo tempo que um sentimento de solidariedade em relação a Jacob, tornando a leitura ainda mais intensa. Afinal, somos todos netos de contadores de histórias e certamente o momento mais fantástico, em seus dois sentidos, da vida de cada um de nós são as histórias de nossos avós (ao menos daqueles que tiveram a sorte de conhecê-los).
E com tantos avós em mente continuei a leitura, eivado de nostalgia, melancolia e empatia, completamente imerso nesta deliciosa experiência, que, de fato, poderia ter sido escrita por Tim Burton (e que eu adoraria ter escrito) e cujo fim, por incrível que pareça, ainda estou por descobrir. Depois venho contar o que achei.

domingo, 12 de outubro de 2014

Teaser do lançamento de "Futilidade ou O Naufrágio do Titan"


Para quem não pôde ir ao lançamento de Futilidade ou O Naufrágio do Titan, de Morgan Robertson, mas está curioso para saber como foi, deixo aqui o teaser do evento, que aconteceu no dia 26/09/2014, na Livraria Cultura do Shopping Market Place!



Aproveito também para agradecer à FERIMAGE, que gravou e produziu o vídeo, ficou demais, pessoal! E também à Livraria Cultura do Shopping Market Place, onde o lançamento foi realizado.

Se alguém quiser saber mais sobre o livro, leia a postagem que fiz sobre o livro no dia 15 de setembro de 2014, onde comento sobre o livro, sobre o autor, sobre o tradutor, etc. etc. etc.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"Futilidade ou O Naufrágio do Titan", de Morgan Robertson

Fotos de Lucas Anselmi Matangrano

Quando a vida imita a Arte:
O livro que antecipou a tragédia do Titanic

Ficha Técnica

Título: Futilidade ou O Naufrágio do Titan

Páginas: 112          Preço: R$ 20,00

Autor: Morgan Robertson (1861-1915)

Tradução, notas e posfácio: Carlos Daniel S. Vieira

Sinopse: Futilidade ou O Naufrágio do Titan conta como o maior navio do mundo naufragou, em sua primeira viagem, após bater em um iceberg, exatamente, como viria a acontecer com o malfadado Titanic, catorze anos depois. Quem poderia imaginar que uma novela do final do século XIX se tornaria célebre por ter praticamente previsto o maior acidente náutico de todos os tempos?  

Mais do que o livro que profeticamente previu o naufrágio do Titanic, Futilidade é a história de John Rowland, um ateu convicto que embarca como marinheiro no navio, e Myra Selfridge, uma jovem cristã que foi o grande amor de sua vida. Os problemas só aumentam quando um capitão trapaceiro tenta colocar tudo a perder.      

Myra e Rowland refletem, assim, os conflitos científicos e religiosos da virada do século, quando a ciência se sobrepôs à religião. Ao leitor, resta a dúvida: teria sido coincidência ou providência?


Adicione o livro no SkoobDisponível na Livraria Cultura.



Um pouco mais sobre o livro


     Publicado originalmente em 1898, Futilidade ou O Naufrágio do Titan, de Morgan Robertson (1861-1915), é a história do maior navio então já construído, o indestrutível Titan. Curiosamente, essa tragédia evoca outra. Mais de uma década depois, outro navio, também considerado inatingível, naufragou do mesmo modo ao bater em um iceberg, em sua primeira viagem da Inglaterra para os Estados Unidos, em 1912. As coincidências são tantas que até o nome de um remete ao do outro: Titan e Titanic, o que valeu ao escritor grande fama e até suposta mediunidade.      

Para além das coincidências, Futilidade traz ao leitor a história de um antigo amor entre Myra e John Rowland que se reencontram, depois de muitos anos, por acaso, ou providência, no malfadado Titan. O tempo passou para ambos, Myra casou-se e teve uma linda menininha, enquanto o ex-tenente John Rowland, após uma vida de excessos, se tornou um marinheiro alcoólatra, que agora vai tentar se redimir junto a Deus e aos homens para provar a Myra e a si mesmo que é um bom homem.      

Em meio a isso tudo, o acidente que leva um ateu a rezar no momento mais extremo de sua vida e a pensar: será que Deus existe?





Futilidade e a coleção O Melhor de Cada Tempo da Editora Vermelho Marinho


Futilidade ou O Naufrágio do Titan inaugura a coleção O Melhor de Cada Tempo, dirigida por Annie Gisele Fernandes (professora da USP) e por mim, e publicada pela Editora Vermelho Marinho. A coleção tem por objetivo trazer para o público brasileiro grandes clássicos da literatura mundial, sejam livros que há muito não são editados, que nunca foram traduzidos, ou ainda aqueles completa e injustamente esquecidos.     

Entendemos o termo clássico em seu sentido mais amplo, isto é, obra de especial importância estética, formal ou temática, reconhecida pela crítica ou pelo público da época, mas que, por algum motivo, caiu no esquecimento ou sequer chegou a ser publicada no Brasil. Esse é o caso desta pequena novela de Morgan Robertson, escolhida para dar início a esse projeto.     

Com uma narrativa fluida e sensível, Futilidade ou O Naufrágio do Titan é uma história de um amor impossível, mas também é um debate filosófico sobre a existência de Deus. Uma história clássica, que vem à luz pela primeira vez em português, nesta bela tradução de Carlos Daniel S. Vieira, acompanhada de notas histórias, de tradução e de vocabulário, além de um interessante posfácio.


Um pouco sobre o Autor


Morgan Robertson nasceu em 30 de setembro de 1861, em Oswego, pequena cidade do Estado de Nova York, EUA. Filho de capitão, muito jovem iniciou carreira na marinha mercante, demonstrando o amor pelo Oceano. Amor que, anos depois, se traduziu em uma série de contos e novelas marítimas dentre as quais a mais célebre foi Futilidade ou O Naufrágio do Titan. Morgan ainda é conhecido por ser o suposto inventor do periscópio e por sua novela Para além do Espectro, publicada em 1914, na qual contou, novamente de maneira profética, a história de uma grande guerra náutica entre os EUA e o Japão. Robertson foi encontrado morto, em 14 de março de 1915, em um hotel de Atlantic City, no estado de Nova Jersey.


Um pouco sobre o Tradutor e Posfaciador


Carlos Daniel S. Vieira é professor e tradutor formado em Letras (português e inglês) pela Universidade de São Paulo – USP. Aficionado por literatura desde sempre, ama ler e escrever, e busca passar esse gosto para seus alunos. Dentre seus trabalhos mais importantes, está a tradução de Tigana – vol. 1 – A Lâmina na Alma, de Guy Gavriel Kay, publicado pela Editora Saída de Emergência, no Brasil e em Portugal.


Lançamento e bate-papo na Livraria Cultura do Shopping Market Place


O livro será lançado oficialmente no próximo dia 26/09/2014, na Livraria Cultura do Shopping Market Place. O lançamento será precedido por um debate comigo e com o Carlos, no qual comentaremos algumas curiosidades sobre esse livro tão intrigante. Mais informações: aqui e aqui.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Comentário sobre a HQ “Imagine Zumbis na Copa”


IMAGINE ZUMBIS NA COPA

Roteiro: Felipe Castilho
Arte: Tainan Rocha
Editora: GIBIZ 


SINOPSE: A copa do mundo chega à sua grande final. E é justamente durante este jogo decisivo que o fim da humanidade pode ter se iniciado. Por trás das câmeras e sobre o gramado, três pessoas enfrentam suas próprias batalhas, antes de perceberem que o maior pesadelo de uma nação pode não ser uma derrota em casa... e que nenhuma tragédia esportiva na história chegou ao nível do que está para acontecer dentro dos portões do Maracanã.


Quem me conhece sabe: não há nada que eu deteste mais no mundo do que futebol... Por motivos vários, mas para não me alongar aqui, afinal, essa não é a questão, digo apenas que nada tenho contra o esporte em si, mas não gosto do jogo, da competição, da torcida, do chororô, dos fogos, do pão e circo semanal. Jamais vou entender como alguém pode chorar pelo fim de um jogo, sendo o resultado positivo ou negativo. Vai entender... Talvez minha incompreensão se deva ao fato de eu mesmo não ser competitivo e não ter paciência com esse tipo de coisa; talvez ela se deva ao fato de eu me revoltar com a facilidade de as pessoas se deixarem distrair com um jogo... Mas enfim, como eu disse essa não é a questão.

O fato é que apesar de detestar futebol, algum tempo antes da fatídica Copa do Mundo, meu grande amigo Felipe Castilho me convidou para o lançamento de seu trabalho mais recente... Uma HQ, em parceria com Tainan Rocha que saiu pelo selo GIBIZ da Editora GIZ, e cujo tema era, nada mais, nada menos do que futebol. E zumbis, é claro.

Se fosse de outro autor, é claro que sequer cogitaria comprar (e quem dirá ler) a HQ, mas era do Felipe... Para ajudar, a HQ tem o sugestivo nome: Imagine Zumbis na Copa. Logo vi que iria rir muito (e estava certo), então deixei o preconceito de lado e li... Li de uma tacada só, pois o trabalho ficou bom demais e não foi possível parar! E ao terminar a leitura, fiquei feliz de não ter deixado minha birra com futebol me impedir de lê-la, pois, afinal, tudo o que li fez o maior sentido do mundo! Pois, na verdade, acho impossível alguém que não goste de futebol deixar de gostar de sua HQ! (espero que essa frase faça sentido). Mas falo sério! Eu ri muito lendo e me senti vingado também... Mas acho que quem gosta de futebol também vai gostar, é claro. E quem gosta de zumbis, é óbvio. Sobretudo, quem tem bom humor, quem gosta de uma ironiazinha ácida e bem feita, e, é claro, de quem gosta de desenhos estilosos e bem coloridos.

Brincadeiras à parte, a verdade é que adorei as críticas que o Felipe fez em seu roteiro, tanto as mais veladas, quanto as mais escrachadas. Achei genial o conflito de interesses que permeiam o texto, sobretudo, na personagem René (um menino haitiano pobre que cresce e se torna juiz – e acaba sendo contratado para apitar a final da Copa, no Brasil). Diga-se de passagem, René é a melhor personagem. Aliás, gostei muito da ponte que ele fez com o Haiti, mostrando a pobreza do país e como o futebol pode parecer para uma realidade assim (tal qual a de nossas favelas) um sonho e até um modo de vencer na vida, como acontece com René (e isso não é spoiler, pois fica claro logo no começo). Mas de volta à partida final, Felipe introduz o tema da corrupção, e com ele alguns questionamentos existenciais e muitas alfinetadas engraçadas que mesclam o humor com o tema sério. E esse conflito entre o que é certo e o que é errado quando tem gente passando fome e quando o aparentemente errado pode ser uma saída para se fazer o bem, deu um toque existencialista pra coisa que contrasta de modo bastante interessante com o humor geral que permeia o texto, mostrando que as coisas são bem mais do que parecem, e dando um chute na cara de todo mundo (inclusive na minha) que critica, muitas vezes, sem refletir as infinitas possibilidades (mas continuo sem gostar de futebol, que fique claro).

No pano de fundo há zumbis. E (um pequeno spoiler) o Felipe ainda banca o médium, prevendo a mordida entre jogadores que deu tanto o que falar na Copa da vida real. Se foi previsão, providência ou marketing, não sei dizer. Mas a vida imita a arte, não é mesmo? Futilidade está aí para provar.

Para além disso, achei bem legal como o Felipe conseguiu amarrar, em tão poucas páginas, vários núcleos (pois a história nem de longe se resume ao René)... Um dos núcleos mais legais é de um jogador veterano, ex-viciado, depressivo e esquecido, com conflitos existenciais. Novamente, os limites entre o certo e o errado, o bem e o mal se tornam muito tênues.

O final me pegou de surpresa, sobretudo, pelo epílogo estar meio escondido... Gostei das entrelinhas, e fiquei chocado quando pensei, no final, que uma certa personagem tinha morrido.

E em meio a tudo isso, há zumbis. Os zumbis estão lá, mas no fim, há muito além deles, não?

Porém, nem tudo são elogios, né? E quem me conhece sabe que se elogiei até aqui foi por ter gostado mesmo e ter lido com muito prazer... (não sou de criticar, prefiro comentar apenas quando gosto, se não tivesse gostado, simplesmente não comentava... fica a dica). Mas feito esse preâmbulo para introduzir minha única crítica, tenho de confessar, que achei o fim muito abrupto, e o epílogo um pouco confuso (ficou muita coisa subentendida). Mas talvez seja apenas porque não queria que a história acabasse... No final, eu me senti órfão, por acabar tão de repente. E no epílogo, pensei: “acho que deixei escapar algo”. Mas entendi depois, eu acho... Por outro lado, há algo de que gostei muito no epílogo, e não posso falar, pois é spoiler...

Quanto aos desenhos do Tainan, só digo que espero ver mais do trabalho dele. Os traços, as cores, tudo coube perfeitamente. O cara tem muito talento.

Por fim, não posso deixar de dizer que toda a referência ao Haiti me fez lembrar de imediato de um de meus livros preferidos: País sem Chapéu, de um haitiano radicado no Canadá chamado Danny Laferière (acho que já o mencionei em algum lugar aqui no blog, ou não. De toda forma, preciso escrever sobre ele um dia). É uma história semiautobiográfica (mas com direito a zumbis também, uma descida aos infernos dantesca e deuses da mitologia vudu) em que um jornalista, também radicado no Canadá e exilado do Haiti volta para a casa da mãe, vinte anos depois, e entra em conflitos existenciais ante a miséria do país, pós-ditadura e conflitos. É um livro muito bonito. No Brasil, saiu pela Editora 34 e ouvi dizer que a tradução está ótima. Foi inevitável fazer a ponte, diante de tantas coincidências entre o livro e a HQ, guardadas, é claro, as gritantes divergências.


Que venham mais trabalhos do Felipe e do Tainan.