segunda-feira, 18 de maio de 2015

“A Carta”, um conto de Milena Oliveira sobre "Contos para uma Noite Fria"

           
 Antes de falar sobre “A Carta” propriamente, queria fazer uma breve contextualização. Certa vez, em um curso sobre Poesia e Pintura, a professora disse, citando não lembro quem (e por isso não dou nome aos bois), que a melhor crítica de qualquer obra de arte é sempre uma nova obra de arte. Segundo esse pensamento, melhor do que qualquer livro, artigo ou ensaio sobre determinada obra seria um novo quadro, conto ou poema nela inspirada, pois não haveria modo mais adequado de se expressar o sentimento suscitado do que transformá-lo em nova Arte.
            Longe de mim querer elevar meus Contos para uma Noite Fria a um estatuto de Arte; no entanto, foi impossível não lembrar dessa fala de minha professora quando, essa semana, a melhor e mais sensível “crítica” que já recebi, e que, imagino, virei a receber, chegou às minhas mãos...
Ilustração feita pela Dandi para o conto
"A Melancolia do Piano".
            Tudo começou com um bate-papo na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos, onde conversei com toda a animadíssima equipe de vendedores sobre os meus Contos para uma Noite Fria. Depois do bate-papo, sorteei dois exemplares do meu livro. Duas moças supersimpáticas, a Simone e a Milena, o ganharam. Já no dia seguinte, a Milena entrou em contato comigo pelo Facebook, dizendo que já havia lido o livro, que gostara e que, em breve, eu receberia notícias dela pelo correio. Com um sorriso de orelha a orelha, li aquele feedback positivo e fiquei sem saber o que mais esperar, embora, curioso como sou, tenha ficado intrigado com aquele comentário enigmático. Qual não foi, pois, minha surpresa ao receber um lindo envelope verde. Logo o abri, tomando cuidado para não rasgar. Dentro havia três folhas de papel de carta, com texto na frente e no verso. Não sabia o que esperar e jamais teria imaginado que recebera “A Carta”, cuja transcrição – devidamente autorizada pela autora – segue abaixo.
            Não é preciso dizer que me emocionei com a trajetória de Sophia, cujo percurso tanto me evocou a lembrança do pianista de meu conto “A Melancolia do Piano”. Nem posso deixar de mencionar que “O Germe da Imaginação” também é o conto de que mais gosto. Em suma, ouso dizer que o espírito de meu livro transcende em “A Carta” e me alegra saber que minha escrita suscitou tudo isso. Sem mais spoilers, vamos a “A Carta”, estou certo de que quem gostou de meu livro, vai gostar tanto dela quando eu.


A Carta
Por Milena C. Oliveira


Ilustração de Dandi para o conto
"O Germe da Imaginação".
         Escreva-me, era o que repetidamente soava em sua mente, enquanto Sophia lia seu novo livro Contos para uma Noite Fria.
         Tivera o prazer de conhecer o autor e ganhar o livro de suas mãos.
         Enquanto aguardava a dedicatória, um convite inusitado, tornar-se escritora, não de um livro que seria o próximo best-seller do New York Times, mas de suas impressões e sentimentos despertos pelo livro, agora autografado. Escreva-me, disse o autor.
         Ao concluir a leitura, Sophia trancou-se em seu quarto, que era na verdade, o antigo porão da casa de sua tia, com quem viera morar alguns anos após ficar órfã.
         Com caderno e caneta em mãos, deitou-se e deixou “O Germe da Imaginação” – seu conto favorito – criar força dentro de si e externar-se em palavras.
         Quanto mais escrevia, percebera crescente sensação de completude preenchendo todo seu ser. Concomitante, sentia esvair-se a consciência a cada palavra acrescentada ao papel.
         O pânico tomou conta de sua mente. O coração pulsava forte, uníssono em todo seu corpo.
         O que está acontecendo? pensou.
         Interrompeu bruscamente a escrita. Respirou fundo. Após acalmar-se retornou à carta.
         Expressando suas impressões, submergia-se em um leitoso oceano. Dessa vez, não teve medo, pois quanto mais distanciava-se da luz e do ar da superfície, melhor e mais radiante sentia-se.
         Notou Sophia, que por onde nadava, um rastro azul marcava o branco impecável do oceano. Lembrou então, que estava escrevendo uma carta para o autor que recentemente conhecera e viu-se deitada em sua cama, encarando o branco papel e a caneta azul que tinha em mãos.
         Não estava mais a nadar. Não sentia-se mais completa e feliz.
         O que está acontecendo? verbalizou, consigo.
         Retomou a escrita e aquela maravilhosa sensação retornou. Só então percebeu que enquanto escrevia sentia a magia envolver todo seu ser, transformando sua realidade em algo fantástico, impossível às leis da física.
         Sentia sua realidade desintegrando-se e sem medo entregou-se, tendo, contudo, o cuidado de destrancar a porta e escrever um pequeno bilhete Enviar para o autor, que deixou entre a carta e o envelope.
         Sabia agora Sophia, que o oceano era o papel e a tinta era a essência de seu próprio ser, que se desfazia a cada palavra escrita.
         Nadar era escrever, escrever era descobrir-se, mas descobrir-se era morrer.
         Cogitou por um momento.
         Estava pronta para deixar a existência?
         Deixaria mesmo de existir se se transformasse em tinta sobre o papel?
         Uma poesia ou um conto talvez lhe preservasse melhor em memória, mas uma carta?
         Valeria a pena deixar de ser menina e transformar-se em carta?
         Sentia-se tão feliz, completa e harmoniosamente alinhada que não teve dúvida, não nascera menina, nascera carta e só agora se descobrira.
         Valeria a pena ser uma carta endereçada a quem mal se conhece?
         Seria mais útil uma carta ao governo? À igreja? Aos parentes e amigos?
         Mas utilidade nada tem a ver com magia.
         Toda magia tem um preço. Talvez esse preço seja a loucura deste mundo para seres fantásticos que jamais foram, de fato, desta terra.
         Sim, vale a pena ser carta.
         Sim, vale a pena ser uma carta para este autor, que com uma frase tão singela – Escreva-me – libertou da escuridão e do assombro a menina que nunca fora menina, sempre fora carta. Sempre fora tinta fresca em um oceano leitoso de papel.
         A menina está melhor agora, liberta pelo germe da imaginação e a carta está enfim nas mãos do autor que a libertou.
         Se haverá uma resposta, só o autor poderá dizer.


O texto fala por si e só tenho a agradecer a Milena Oliveira pelo carinho e por ter autorizado a reprodução de seu texto aqui no Cérebro-Casa. “A Carta” original, cuja fotografia reproduzo ao lado, vai sempre me lembrar de que devo dizer mais vezes Escreva-me...

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um (não tão) breve comentário sobre ANNO DRACULA, de Kim Newman

Capa da edição brasileira.
Primeiramente, uma justificativa
            Li este livro incrível há alguns meses e na ocasião não me ocorreu escrever sobre ele no blog, pois já havia muito não resenhava nada e simplesmente não pensei nisso. No fim do ano passado, cheguei a fazer uma breve consideração na lista dos melhores livros que li em 2014, mas nada muito extenso. Nos últimos tempos, no entanto, pediram-me referências de livros vitorianos (escritos ou passados nessa época) e, sem pestanejar indiquei Jonathan Strange & Mr. Norrell (como já disse inúmeras vezes, meu livro favorito, sobre o qual já falei em diversos momentos) e Anno Dracula, de Kim Newman (que talvez ocupe o segundo lugar). Vieram, então, perguntar se o livro de fato era bom (embora “bom” seja um adjetivo muito pobre para descrevê-lo). Aparentemente, pelo que comentaram, são escassas as resenhas em português sobre o livro de Newman e, por incrível que pareça, (novamente) pelo que me falaram, nem todas favoráveis. Diante disso, senti-me na obrigação de vir defender este que se tornou um livro tão caro para mim... Para aumentar ainda mais a urgência desta defesa, recentemente, em um evento da Editora Aleph – a casa que o publicou no Brasil – foi dito que, lamentavelmente, o livro não teve a recepção esperava. Então, resolvi escrever sobre ele para mostrar o quanto isso tudo é muito injusto.
Antes do livro, vemos a capa, e por isso vou comentar um pouco sobre ela primeiro.
Confesso que nunca havia reparado em Anno Dracula quando o via nos estandes da Editora Aleph nas feiras literárias que sempre visito e participo. A capa é bem bonita, mas definitivamente jamais me chamaria a atenção. É por demais distante da temática de livro (afora pelo sangue que escorre, é verdade) para que um aficionado por vampiros como eu soubesse que por de trás daquele espartilho havia um dos melhores romances já escrito no gênero. Antes, em minha visão (um pouco) reducionista, pensei se tratar de uma história vulgar qualquer de cabaré, com dançarinas e prostitutas. Puro pré-conceito, é verdade e confesso. Diante de tudo isso, alguém poderia ainda me perguntar: o livro se chama Anno DRACULA como você não percebeu de imediato que se tratava de um livro de vampiros? A resposta é simples: há informação demais na capa então nunca havia reparado no título, perdido em uma bancada com capas tão lindas quanto as de Asimov (mas já estou fugindo do ponto, voltemos...). De toda forma, a única explicação que encontro para o livro não ser um imenso sucesso é ela mesma e por isso fiz todo esse exagerado preâmbulo. Além disso, se antes tinha a atenção do leitor, espero depois de tantos elogios ter conquistado seu interesse (parafraseio livremente o Monsieur Candy, de Django Livre). Aposto que não haverá frustração. O livro é mesmo excelente.
            Chega, pois de enrolação e vamos ao romance de fato. Ou antes, ao porquê de tê-lo lido. Pois isso também me parece relevante. Comprei-o por indicação. Um amigo, o escritor e voraz leitor Felipe Castilho (de quem já resenhei a brilhante HQ Imagine Zumbis na Copa aqui no blog) disse-me que simplesmente eu deveria ler Anno Dracula. Segundo ele, é o melhor livro de vampiro que já leu, uma trama interessante e muito bem escrita, que mistura diversos personagens reais e literários em uma história completamente original, no melhor estilo de A Liga Extraordinária, só que com vampiros e outros personagens vitorianos e cinematográficos de horror, FC e aventura. Ele sabia que eu ia gostar. O Felipe me conhece muito bem. Fiquei empolgado, comprei o livro e o devorei rapidamente. O livro era mesmo a minha cara.
            Creio que posso começar por definir Anno Dracula como sendo uma história de “Literatura (ou Ficção) Alternativa”, em analogia ao subgênero da FC conhecido como “História Alternativa”, que narra acontecimentos que poderiam ter acontecido se a história tivesse tomado outros rumos (logo, pensa-se em literatura no melhor sentido aristotélico, que a considerava melhor do que a história por poder narrar aquilo que poderia acontecer e não somente o que aconteceu).
            Anno Dracula, no entanto, narra a história do que teria acontecido se Drácula, o romance de Bram Stoker tivesse tido um final diferente.

(Aqui convém talvez fazer um parêntese explicativo: quando comentaram comigo que o livro tinha poucas resenhas e que nem todas eram positivas, comentaram também que muitos haviam achado o livro confuso. E isso me levou a refletir sobre o assunto. Creio que a verdade seja esta: o livro é complexo, não confuso, e, mais do que isso, não me parece o livro mais indicado para leitores novatos ou pouco experientes. Anno Dracula é, em última instância, um livro para iniciados – embora eu não ache que um não-iniciado deixaria de apreciá-lo, apenas não conseguiria aproveitá-lo em seus detalhes e nuances, já que, quanto mais experiente o leitor, neste caso, mais nuances, referências e reflexões ele vai notar. Vou explicar melhor: digo que é um livro para iniciados, pois pressupõe, no mínimo, no mínimo, que se conheça a trama do romance de Bram Stoker – do livro, não de suas adaptações cinematográficas. MAS qualquer outro conhecimento sobre literatura e filmografia vampírica e literatura e história vitoriana é mais que bem-vindo, pois o livro traz todo um cortejo de referências em miscelânea. Quando mais imerso nessa cultura, portanto, mais o leitor vai entender e gostar, aproveitando melhor o livro e apaixonando-se por ele – como visivelmente aconteceu comigo. Fecho o parêntese).

Mas, afinal, do que fala Anno Dracula?
A história começa algum tempo depois do fim de Drácula, embora pressuponha outro final para o livro de Stoker. Se no original, o vampiro é morto pelos pretendentes de Lucy auxiliados por Jonathan Harker que quer salvar Mina, sua esposa, no livro de Newman o célebre Conde mata parte do grupo, ao invés de ser morto por ele, e, mais do que isso, casa-se com ninguém menos do que a Rainha Vitória, tornando-se assim seu Príncipe Consorte e Lorde Protetor do Império Britânico (que, vale recordar, era a nação mais poderosa nos oitocentos). O segredo dos vampiros é, então, revelado e toda uma febre em torno do vampirismo se inicia. Antes com desejo, do que com repulsa, embora alguns puristas persistam em repudiá-lo.
Uma guerra começa a se delinear.
Quem se opõem ao governo, logo desaparece ou é morto, como acontece com o pobre Bram (sim, o próprio Stoker é feito personagem ao lado de suas criações); por outro lado, muitos começam a se tornar vampiros, como Oscar Wilde, o autor de O Retrato de Dorian Gray.
Vejam que os limites entre a nossa ficção e a nossa realidade desaparecem para dar voz a uma única e genial história.
            O novo primeiro ministro é ninguém menos do que Lorde Ruthven, o “Vampiro” de John Polidori (do conto conhecido por supostamente trazer a primeira aparição do que se convencionou chamar de “vampiro literário” ou ainda “vampiro moderno”). E, em meio a todo esse caos vampírico, surge um assassino em série que começa a matar prostitutas-vampiras. Novamente, a história encontra a ficção e o histórico Jack, o Estripador, e suas vítimas se mesclam a esse grande enredo.
            Assim se arma o jogo.
            Narrado em capítulos curtos, que mesclam diversos pontos de vista, é um livro ágil, mas que pressupõe total atenção, pois o leitor distraído vai perder detalhes que serão retomados todo o tempo, quando menos se espera.
            A atmosfera parece misturar o terror de Drácula, com o mistério de Do Inferno, de Alan Moore (uma HQ genial que ficcionaliza a história de Jack Estripador), das histórias de Sherlock Holmes e de O Médico e o Monstro (originalmente O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde), de Robert Louis Stevenson (outro de meus livros favoritos). Livros estes, aliás, revisitados por Newman, uma vez que o próprio Jekyll dá as caras em determinado momento e se, por um lado, Sherlock só é mencionado, por outro, muitos outros personagens de Sir Arthur Conan Doyle figuram e se destacam ao longo da trama.
Capa gringa de Dracula Cha Cha Cha
            Como podem ver, são muitos, muitos nomes. Muitos mesmo.
Para quem não está acostumado com esse tipo de leitura, a cuidadosa edição da Aleph dá uma mãozinha trazendo um precioso glossário de referências, por ordem de aparição, das personagens literárias, histórias e fílmicas na trama. A lista ajuda muito, embora não seja completa, dada a quantidade de referências com que o autor trabalha. 
            Em suma, Anno Dracula é um livro imprescindível para todos que gostam de história e literatura vitorianas, e, é claro, vampiros e filmes de terror, pois tudo isso está magistralmente costurado em um livro que surpreende e encanta, e cujo único defeito é ter continuações que infelizmente ainda não foram publicadas por aqui, por lamentavelmente, o livro não ter tido o esperado sucesso , que seria mais do que merecido. Este é um daqueles casos em que sofro por não ter sabido de antemão que havia continuações (discorro sobre esse mal aqui). Espero que este quadro se reverta, enquanto aguardo ansioso a aclamada continuação The Bloody Red Baron, que é seguido por um livro de nome sugestivíssimo: Dracula Cha Cha Cha. Espero que mais gente se apaixone pelo livro de Newman e que as continuações saiam logo. Afinal, este é um universo que gostaria muito de revisitar.

Post-Scriptum
            Destaco aqui um trechinho que, por si só, faria com que eu me apaixonasse pelo livro (e, talvez explique o que disse acima sobre ser um livro para “iniciados”):

Ruthven levantou-se e percorreu as estantes de livros, contemplando seus amados volumes. O primeiro-ministro sabia de cor longas passagens de Shelley, Byron, Keats e Coleridge [1], e conseguia recitar trechos de Goethe e Schiller [2] no original. Seus entusiasmos atuais eram franceses, e decadentes. Beaudelaire, de Nerval, Rimbaud, Rachilde, Verlaine, Mallarmé [3]; a maioria dos quais, se não todos, o Príncipe Consorte empalaria alegremente. Godalming já ouvira Ruthven declarar que um romance supostamente escandaloso, Às Avessas, de J. K. Huysmans [4], deveria ser lido por todos os alunos na escola e que deveríamos, numa utopia, transformar apenas poetas e pintores em vampiros. (Anno Dracula, Kim Newman, Editora Aleph, p. 58).

Dá para imaginar livro mais perfeito (para mim) do que um que tem um trecho como esse? Mallarmé e Vampiros juntos... Nada melhor. Serei eternamente grato, Felipe, pela dica preciosa.





[1] Talvez os mais importantes poetas românticos de língua inglesa.
[2] Talvez os mais importantes escritores românticos alemães.
[3] Indiscutivelmente, os mais importantes poetas franceses modernos; os dois últimos deles, conhecidos como os maiores simbolistas, foram tema de minha dissertação de mestrado (disponível  para download aqui).
[4] O primeiro romance simbolista, publicado em 1884. Uma obra INCRÍVEL e complexa, que curiosamente parece ter inspirado um dos capítulos de O Retrato de Dorian Gray.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Apagamento e Fragmentação do Sujeito em Fernando Pessoa, Woody Allen e Aluísio de Azevedo




“Eu não sou eu nem sou o outro
sou qualquer coisa de intermédio”.

Esses versos de Mário de Sá Carneiro bem poderiam estar se referindo à personagem Boaventura da Costa, do conto “Polítipo”, de Aluísio de Azevedo, publicado na coletânea Demônios, em 1895. Boaventura é um homem singular, mas cuja singularidade se faz por ser extremamente comum. Ele é tão comum que não chama a atenção por sua beleza, tampouco por sua feiura. Visto por um lado parece jovem, por outro muito velho. Pode parecer-se mulher, ou mesmo criança. Suas feições, na verdade, escapam de quem as vê, de modo que parece impossível descrevê-lo. São capazes de suscitar a lembrança de muitos outros rostos, mas ninguém jamais lembra-se de como é o rosto do pobre Boaventura. Falo da personagem de Azevedo, mas na verdade quero falar de Leonard Zelig, personagem que dá título a um filme de Woody Allen de 1983.
Capa da única edição atualmente
disponível nas livrarias do livro
Demônios, de Aluísio de Azevedo,
Para falar a verdade, pouco ou nada sei sobre Allen. A bem da verdade, seus filmes nunca me chamaram a atenção e não me recordo de ter visto muitos. Por desinteresse, confesso. Contudo, durante a aula do curso Fernando Pessoa: Autoria e Ironia, uma das disciplinas que cursei para o doutorado, o professor Caio Cagliardi, que ministra o curso, levou esse filme para que assistíssemos. Ele não disse nada, apenas colocou o filme e depois perguntou o que havíamos achado. A relação era óbvia: a personagem de Allen, Zelig, lembrava em muitos aspectos Fernando Pessoa e isso me fez lembrar da personagem de Azevedo e então resolvi escrever sobre essas três figuras aqui no blog.
Zelig, como Boaventura, possui uma característica singular: a capacidade de adequar-se ao meio, tal qual um camaleão. Por exemplo: frente um piloto de avião, torna-se capaz de guiar um aeroplano de ponta cabeça, da Europa aos Estados Unidos. Frente a um psicólogo, passa a analisá-lo. Tudo isso numa tentativa bem sucedida de chamar a atenção – efeito oposto ao desejado pela personagem de Azevedo que parece, antes, querer passar sem ser notado.
Pôster do filme Zelig, de Woody Allen.
Zelig e Boaventura, no entanto, parecem apenas simbolizar uma necessidade do sujeito moderno de apagar-se ou de tornar-se outro. De fato, nada há de mais moderno do que esse movimento de despersonalizar-se ou cindir-se (embora o germe desse pensamento já estivesse em Sá de Miranda, séculos atrás, em cuja obra é possível ler um verso que diz: “Comigo me desavim”), seja por apagamento, como parece ocorrer com Zelig e Boaventura, que mesclam-se ao meio em que estão, em um movimento que busca, a um só tempo, a aceitação dos pares e o desejo de se passar incógnito; seja pela fragmentação do “eu”, quando ao invés de tornar-se outro, o sujeito cinde a si mesmo para criar novas personalidades autênticas e diferentes de si. Embora semelhantes por processo, têm efeito oposto: em um há o apagamento, noutro o desejo por notoriedade. Ambos aproximam-se pelo desejo da aceitação. Obviamente, pensa-se em Pessoa (afinal, tudo isso pensei em um curso sobre ele), cujo fenômeno heteronímico é, por excelência, o melhor exemplo de fragmentação do sujeito. Um diálogo, portanto, entre a ficção e a realidade.
Cena de Zelig.
Aos olhos do século XXI, um fenômeno como o de Pessoa poderia ser equiparado à condição psicológica conhecida como transtorno de múltipla personalidade, ou algo assim, o que, no entanto, apagaria a inventividade artística pessoana, erigida, como parece ser, sobre os pilares da ironia. Por outro lado, a ideia de uma pessoa com esse transtorno parece elucidar o fenômeno, em uma visão anacrônica e quase didática, uma vez que Zelig e Boaventura também são apresentados como portadores de raras condições. Pessoa, por outro lado, diagnosticado por si mesmo como um “histero-neurastêmico” parece sofrer de uma condição avessa, que longe de ser uma doença parece mais um excesso de lucidez. O fato é que a consciência de si pessoana parece de uma agudeza além do normal, de modo que se tornou possível o movimento de criar, por meio da inventividade, outras personalidade, não adaptadas, mas sim, tão perturbadas quanto a matriz. O movimento, ao contrário do que seria observado em pacientes acometidos pelo transtorno de múltipla personalidade, ou ainda das personagens de Allen e Aluísio, é intencional, arquitetado e, possivelmente, premeditado. Enquanto Boaventura e Zelig assumem formas condizentes com o momento inconsciente, Pessoa cria um estratagema dramático (ou seja, mais próximo à condição de ator do que da de enfermo) para simular os outros “Eus” que existem em si e sustentar-lhes enquanto sujeitos autônomos perante a sociedade, ainda que, embora existentes no poeta, não existam, de tal forma que o próprio “eu primeiro”, isto é, aquele que se convencionou chamar de “ortônimo”, torne-se, também ele, uma criação. E o motivo de todo esse movimento parece ser um descompasso entre o eu e o mundo, ou, em última instância, entre o eu consigo mesmo que ao se deparar com sua própria figura encontra-se em meio ao vácuo da crise da subjetividade, para usar a expressão do poeta português Jorge de Sena, cunhada para se referir ao próprio Pessoa.
            A professora Leyla Perrone-Moisés, por sua vez, identifica esse vácuo, esclarecendo-o, como presente na consciência pessoana, ou seja, na extrema lucidez que o desconstrói diante de si. Ora, não se pode dizer que Zelig, mesmo que inconscientemente, seja menos lúcido ao se adequar fantasticamente ao ambiente em um instinto de preservação. O instinto de sobrevivência de um parece se aproximar do desejo de experimentação artística do outro, em um movimento de fragmentação e anulação que torna difícil lembrar quem é o sujeito existente e quem é a personagem de ficção. Ambos parecem resultar na despersonalização do sujeito.
Voltando a Boaventura, ao final do conto, no qual a personagem morre, ninguém a reconhece, o que comove o narrador, mas demonstra seu êxito no apagar-se. Boaventura sai da vida para cair no esquecimento (peço licença para refrasear Vargas), enquanto Zelig e Pessoa, por motivo semelhante, imortalizam-se pela mesma condição singular de conseguirem se tornar outros.


Texto que escrevi em uma atividade de aula do curso “Fernando Pessoa: autoria e Ironia”, em 02 de dezembro de 2014, adaptado para o blog.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

"Como treinar o seu Dragão": um título, dois universos e os limites de uma adaptação


Pôster do filme Como treinar o seu dragão 2
         Como quase todas as séries de hoje, os filmes Como treinar o seu dragão 1 e 2 se basearam em uma série de livros. E, como quase todas as séries, a adaptação cinematográfica é bem diferente da versão literária. Até aí, nenhuma novidade. Porém, o que eu não sabia, quando fui ler a série de 12 livros escrita e ilustrada por Cressida Cowell, depois de ter visto os dois filmes da Dream Works dirigidos por Dean DeBlois (o primeiro ao lado de Chris Sanders), é que entre a série de filmes pouco tinha em comum com os livros além do título, dos nomes de alguns personagens e do fato de haver dragões em ambos os universos.
         A adaptação é, portanto, no mínimo muito livre.
O Soluço e o Banguela dos livros
         Se nos filmes de DeBlois, vemos uma Berk povoada por vikings que temem dragões e os caçam para sobreviver, vivendo em uma constante guerra que já perdura por gerações; nos livros de Cressida, o povo de Berk cria dragões e dependem inteiramente deles para praticamente todas as tarefas. Enquanto o Banguela dos filmes é um grande dragão preto da espécie “Fúria da Noite”, de personalidade dócil e amorosa, o Banguela dos livros é um pequenino dragão verde esmeralda, do tamanho de um gato, da espécie “Dragão Comum ou de Jardim” de temperamento irritável e extremamente egocêntrico. Por consequência, se nos filmes os dragões apresentam um comportamento semelhante ao de animais domésticos; nos livros, os dragões são praticamente gente e chegam até a falar uma língua complexa chamada “dragonês”, que pode, inclusive, ser entendida e aprendida por humanos. Isso sem falar que a aparência de Soluço, o protagonista, e Perna-de-Peixe, seu melhor amigo, mudaram muito de um para o outro (mas isso é um mero detalhe). O fato é que as diferenças são gigantescas e enumerei apenas as mais gritantes.
O Banguela e o Soluço dos filmes.
         E, veja bem, meu intuito com esse texto não é dizer que os livros são bem melhores do que os filmes (como é super comum quando se comparam adaptações), nem dizer que os filmes são melhores do que os livros (embora, confesso, eu os prefira aos livros, ainda que adore a obra de Cressida), queria apenas comentar minha surpresa pelo abismo que separa os dois, o que me fez refletir e levantar duas questões: como fica o autor da obra original diante de tudo isso? E até que ponto pode ir uma adaptação sem deixar de ser uma adaptação?
         Quero dizer, quando um autor autoriza a adaptação de sua obra, sabe que o resultado pode ser dos mais diversos, mas o que pensa um autor quando vê uma adaptação que nada tem a ver com o que você escreveu levar o nome de seu livro? Tenho muita curiosidade nessa resposta. Gostaria de saber o que a Cressida pensa dos filmes. Em última instância, fico pensando, até que ponto pode ir a adaptação para que a história ainda possa continuar sendo a mesma. No caso de Como treinar o seu dragão, por exemplo, acho custoso o uso do termo “adaptação”. O filme talvez devesse ter outro nome (como no caso do filme The Boxtrolls, adaptação do livro A gente é Monstro [Here be Monsters], de Alan Snow), o que destacaria as diferenças, e creio que o melhor seria dizer que ele foi “livremente inspirado na obra de Cressida Cowell”, ao invés de dizer que foi adaptado. No máximo. Embora, é claro, o uso do mesmo nome seja muito mais uma estratégia de marketing do que qualquer outra coisa, não vou, porém, entrar nesses méritos.
         Particularmente, como autor, acho que ficaria enfurecido se algo assim fosse feito a partir de algo que escrevi. Claro que entendo que o cinema é uma mídia diversa da literatura e que qualquer adaptação obviamente vai diferir em vários pontos do original. Um filme não é um livro e isso é ponto pacífico para mim. Cada mídia pede determinados recursos, logo sempre serão diferentes. MAS mudar a história TODA me parece um pouco demais e, ainda que o resultado seja excelente (como de fato foi), se eu fosse a Cressida, ficaria imensamente chateado... Sei de casos semelhantes em que de fato o autor ficou chateado. É o caso da adaptação de A Rainha dos Condenados, de Anne Rice, que depois disso nunca mais permitiu que adaptassem suas obras. J. K. Rowling, por outro lado, quis acompanhar bem de perto a produção dos filmes baseados em Harry Potter para garantir a sua fidelidade. Em outros casos, a adaptação é tão livre que o filme recebe outro nome, como mencionei acima, o que me parece muito honesto. Imagino que haja autores que não liguem para isso, que consigam olhar suas obras com desapego... ou que pensem só no quanto a adaptação vai alavancar as vendas (qualquer um pensaria nisso também, seria hipocrisia negar). Contudo, acho estranho, ainda mais quando você se dá ao trabalho de construir um mundo tão complexo como o de Cressida, no qual ela descreve e desenvolve toda uma sociedade viking fictícia, com uma cultura bem peculiar. No mínimo, isso levanta algumas questões...

         A verdade é que não sei exatamente o que a autora achou dos filmes; pode ser que os tenha adorado, que os repudie ou até que tenha participado da produção, como George R. R. Martin que não está nem aí para as diferenças entre os livros e a série televisiva. E até parece se divertir com isso. Acho que no fim das contas o limite para uma adaptação é o bom senso e o respeito ao autor e à obra original, é claro. No caso de Como treinar o seu dragão o resultado, apesar de completamente diferente do que um leitor poderia esperar, é excelente. E louvo os produtores por isso. Mas, embora eu goste tanto dos livros quanto dos filmes, ainda fico curioso para saber, o que a Cressida achou do resultado? Talvez seja apenas porque sou metódico demais e gosto de ficar filosofando sobre as coisas que leio.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

“Grandes Olhos” [Big Eyes], a renovação de Tim Burton

Pôster oficial do filme.
            Quem me conhece sabe que sou um burtoniano inveterado, desde bem pequeno, por causa de filmes como Os Fantasmas se Divertem (1988), Edward Mãos de Tesoura (1990), Batman (1989) e O Estranho Mundo de Jack (1993)... desde então acompanho bem de perto a carreira de Tim, não apenas como diretor e produtor, mas também como poeta e desenhista (para quem não conhece, recomendo muitíssimo seu livro de poemas ilustrado O triste fim do Pequeno Menino Ostra e outras histórias e também os livros que reúnem seus desenhos, como L’Art de Tim Burton infelizmente, ainda inédito no Brasil e a galeria em seu site pessoal - o site é todo interativo, vale a pena conferir). Logo, não é surpresa nenhuma que eu tenha adorado Big Eyes... Mas não é apenas por ser fã declarado que gostei do filme, mesmo porque dois de seus últimos longas – a saber: Alice no país das Maravilhas (2010) e Sombras da Noite (2012) – deixaram um tanto quanto a desejar. Mas o fato é que seu novo filme é realmente muito bom.
            Para começar, a premissa em si já é incrível e praticamente inacreditável, apesar de ser baseada em fatos reais. Para quem não sabe, o filme é uma biografia (gênero ao qual Tim Burton só se dedicou uma vez, no genial Ed Wood, de 1994, ou seja, há mais de vinte anos) da pintora norte-americana Margaret Keane, cujos quadros com suas típicas crianças de grandes e sofridos olhos (cujos traços, aliás, lembram bastante vários desenhos do próprio Tim Burton, que sempre exagera no tamanho dos olhos, vide Frankenweenie e Noiva Cadáver) ficaram célebres nos anos 60. Se fosse só isso, porém, a história não renderia um caso de polícia e um filme de Tim Burton... O que há de surreal no caso de Margaret é que seus quadros foram por muito tempo vendidos e divulgados como sendo de autoria de Walter Keane, então seu marido. O caso terminou com uma briga judicial no Havaí, a maior da história da ilha.     
       O veredito foi favorável à Margaret que provou na frente de todos que era a legítima autora dos quadros de grandes olhos. Em resumo, eis o roteiro do filme. Sua graça, contudo, está na forma como as personagens de Margaret e Walter (Amy Adams e Christoph Waltz, respectivamente) se conhecem, se apaixonam e passam a se odiar devido à grande farsa de Walter; e também na forma como Margaret se vê coagida pelo marido, mas também pelo sistema, buscando em sua arte uma fuga, uma forma de proteger sua filha e, sobretudo, de redenção em uma busca por seu próprio caminho, retratando na figura de crianças atormentadas e entristecidas sua própria angústia. Mais do que isso, de maneira muito singela, o filme mostra a dificuldade de ser uma mulher e mãe separada, independente, e, pior, uma artista, nos anos 50, na preconceituosa América.
Amy Adams como Margaret Keane.
            A interpretação de Adams e Waltz é um show à parte, tanto que garantiram a ambos a indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz e de melhor ator (Adams recebeu o prêmio, inclusive, muito merecidamente). Ambos são papéis difíceis, mas por motivos diferentes. Margaret é pura introspecção; Walter é uma personagem forte e expansiva. No entanto, ao longo do filme, ambos se desenvolvem, ela com revolta; ele com louca cobiça (a loucura, aliás, permeia de forma sutil o filme todo). A transformação é bem gradual, pautada pelo sofrimento de Margaret que se traduz em seus quadros. Adams a executa com primor, demonstrando o estado de quase loucura a que Margaret chega (até o ponto de alucinar, no momento mais tipicamente burtoniano do filme), após anos e anos vivendo sob a pressão de uma grande mentira.
Christoph Waltz como Walter Keane.
            Já o camaleão Christoph Waltz se traveste como o mais sedutor dos pintores, rejuvenescido, galanteador, mas também perverso e psicopata (totalmente diferente do também genial Dr. Schultz, de Django Livre, de Tarantino, um de seus papeis mais recentes – e brilhantes), de uma maneira incrível, fazendo com que o espectador hesite em decidir se o ama ou o odeia, embora certamente seja impossível não admirá-lo de algum modo (e com algum remorso por isso).
            A trilha sonora do filme é mais uma vez assinada por Danny Elfman (como a maioria dos filmes do Tim), e traz sua sonoridade característica, embora um pouco mais introspectiva do que o habitual. A música tema de Lanna del Rey também captura a atmosfera do filme, o tormento de Margaret e seu amor por sua arte, não por menos foi também indicada ao Globo de Ouro como melhor canção original.
A verdadeira Margaret Keane e Amy Adams.
            Vale ainda mencionar a fotografia – que se desdobra no figurino e cenários simples, mas caprichados –, na qual predominam os tons pastéis, inusitados para um filme de Tim Burton, que, não apenas captam a atmosfera dos anos 50, como também refletem a paleta de cores da própria Margaret, na qual predominam o amarelo desbotado e o azul claro (cores aliás, da própria Margaret, cujo cabelo é de um loiro bem claro e os olhos de um azul cristalino), bem como diversos tons de cinza e de marrom. São cores suaves, mas frias e tristes, como os quadros e a própria vida de Margaret Keane. Personagem, quadros, figurino, cenários, enfim, tudo se corresponde cromaticamente.
            Por tudo isso, creio não ser exagero dizer que o filme, sem dúvida, marca uma nova fase na obra de Tim Burton, mais realista e interventiva, pintada em cores frias e pastéis, em contraste com as cores vibrantes e sombrias de seus filmes anteriores, sobretudo os últimos, como Sombras da Noite, Alice no País das Maravilhas e A Fantástica Fábrica de Chocolate, ainda que mantenha a atmosfera de loucura permeada de humor refinado que lhe é característica... Por outro lado, parece retomar um viés há muito deixado de lado em sua obra: o lirismo de Edward Mãos de Tesoura, pautado na melancolia e na relação do artista com sua obra (também visível em Ed Wood), na introspecção e na incompreensão de uma sociedade machista e preconceituosa. Margaret, como Edward, é uma criatura genial e gentil, ingênua aliás, perdida em meio ao preconceito, oprimida pela malícia dos que a cercam e explorada por isso, cujo único desejo é ser reconhecida pela sua arte. Assim como o próprio Tim Burton...
Tim Burton com sua coleção particular de Big Eyes.

Uma nota de revolta

Um dos quadros de "grandes olhos" de Margaret Keane.
            A despeito de tudo isso, o filme foi sumariamente ignorado pela Academia e não recebeu NENHUMA indicação ao Oscar, nem mesmo nas categorias em que foi aclamado no Globo de Ouro. É verdade que esse ano o Oscar está bastante concorrido com fortes filmes, como A Teoria de Tudo, Boyhood, Grande Hotel Budapeste e Birdman, mas, ainda assim, é de se estranhar que o filme mais “acadêmico” de Tim Burton, por assim dizer, tenha sido completamente deixado de lado naquele que é considerado o maior prêmio do Cinema, o que, aliás, vem sendo frequente na carreira do diretor. Só podemos especular o motivo dessa ausência de indicações, que mais parece um boicote a um diretor aclamado e reconhecido como ele. Puro recalque. Não que Tim Burton precise de alguma estatueta para mostrar o quanto é genial, o filme mostra isso por si só (assim como suas outras obras), mas seria justo algum reconhecimento, que, aliás, deveria ter vindo com Frankenweenie (que pelo menos foi indicado como melhor animação), outra injustiça que comentei AQUI. Achei que com Big Eyes seria diferente. Mas, deixa estar, assim como ele reconheceu a arte de Margaret Keane, nós, os fãs, reconhecemos sua Arte. E quem sabe seu próximo filme, a adaptação de O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares receba, finalmente, o reconhecimento da Academia que o Tim merece.