terça-feira, 10 de agosto de 2010

A Cidade dos Poetas

Hoje foi um dia diferente... Estou em Porto Alegre, onde vim me apresentar no XI Salão de Iniciação Científica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul... Tenho descoberto algumas coisas muito legais e interessantes aqui, no que diz respeito à literatura, uma vez que o modo como se faz pesquisa aqui é bem diferente do modo como fazemos na USP em São Paulo...
Hoje eu me apresentei na PUC... Falei de minha pesquisa sobre Camilo Pessanha e Cruz e Sousa e assisti várias apresentações de colegas que também estudam literatura. Muitas coisas me interessaram; não obstante, dentre todas as coisas que me chamaram a atenção sobressaiu o fato de que grande parte das pesquisas de literatura (ao menos no âmbito da pesquisa em graduação, ou seja, de Iniciação Científica) parece se debruçar sobre a Literatura Contemporânea - ao menos essa foi a impressão que tive a partir das apresentações que vi.
Ora, eu venho defendendo a literatura contemporânea desde o começo desse blog, então é uma grande satisfação descobrir o quanto o pessoal daqui é engajado - no melhor sentido do termo - na defesa da literatura nacional e atual. Se mais pesquisadores e críticos fossem assim, certamente seria mais fácil a vida dos escritores nos dias de hoje...
Nesse quesito de enaltecer e divulgar a produção contemporânea e nacional, porém, um trabalho se sobressaiu... Um trabalho, que não é apenas uma pesquisa acadêmica, mas um verdadeiro projeto cultural integrado a diversos setores de uma cidade inteira! Trata-se do trabalho de nome: "Santiago do Boqueirão, seus poetas quem são?".
Santiago é uma pequena cidade no Sul do Rio Grande do Sul (salvo engano de minha parte), com não mais de 50 mil habitantes; logo é uma cidade bastante pequena... Contudo, desde 1998, a partir de uma lei Municipal, essa cidadezinha ganhou o título de Cidade dos Poetas, já que abriga um número incrível de escritores; grupo que abarca desde jovens autores ainda desconhecidos, até autores já consagrados como Caio Fernando Abreu.
O projeto "Santiago do Boqueirão, seus poetas quem são?" vem sendo implementado há 4 anos pelos alunos do curso de Letras da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões - URI; a ideia é divulgar os escritores do município e de fato o grupo está conseguindo. Para tanto catalogaram todos os poetas locais e pediram autorização para divulgar suas obras, através de cartões-postais com fotos e poesias, livrinhos em formato popular, distribuídos gratuitamente, ou a preços simbólicos, folhetos, "poemas-voadores" (espécie de cartaz sofisticado com textos poéticos que são pendurados à altura dos olhos em locais públicos), programas de rádio, etc... Com isso tudo o projeto pretende divulgar e prestigiar o trabalho dos autores dessa pequena cidade... Todavia, o projeto conta com muito mais do que isso... Uma rua dos Poetas foi criada na cidade, onde 18 bustos em bronze foram expostos para prestigiar alguns dos poetas locais, além disso, há exposições itinerantes, com mascotes, obras poético-literárias e biografias dos autores-poetas. O grupo se dedica ainda ao trabalho em escolhas, na tentativa de passar à nova geração o gosto pela leitura... Enfim, é um trabalho e tanto.
Decidi fazer essa postagem, pois fiquei realmente surpreso com o trabalho, com o empenho e com a dedicação de seus idealizadores e com a preocupação que demonstram em divulgar e registrar em arquivos à obra produzida no município. Isso não é pouca coisa e é um grande exemplo! Graças aos esforços da equipe do projeto, há alguns anos Santiago tornou-se a Cidade dos Poetas também por lei estadual. Ou seja, agora o título é duplamente oficial.
Santiago e a equipe da URI são sem dúvida um exemplo ao resto do país... Um exemplo de valorização da cultura, da literatura e da arte que deveria evidentemente ser seguido no resto do país... Mas, por hora, fica a dica do site do projeto e desses autores privilegiados, por poderem contar com um trabalho de tão grande repercussão.
Ganhei de uma das representantes do projeto cinco livrinhos... Um de contos de Márcio Brasil, um de crônicas de Antonio Manuel Gomes Palmeiro, e três de poesias de Ataliba de Lima Lopes, Therezinha Lucas Tusi e Ayda Bochi Brum... Tão logo eu os leia, posto aqui algumas impressões... De toda forma, no site há textos disponíveis para leitura on-line de mais de 60 autores da cidade... Segue aqui a lista de Autores....
Há ainda uma última coisa que me chamou a minha atenção: dessa lista de mais de 60 autores "santiaguenses" (creio que esse seja o adjetivo correspondente) quase cinquenta escrevem poesias, fazendo, assim, honra ao epíteto dado à cidade... Ora, não é pouca coisa uma quantidade assim grande de poetas nos dias de hoje, já que atualmente a poesia é um gênero cada vez menos lido pelo público não-especializado. O projeto, porém, dedica-se de especial maneira à essa forma literária, possivelmente na tentativa de inverter esse quadro. Para mim que estudo poesia, só resta torcer para que o projeto dê certo e inspire outros e outros locais, revivendo e fortalecendo, não apenas a literatura contemporânea nacional, mas também, mostrando como ela pode se dar em diferentes gêneros e formas...
Enfim, acho que depois disso só me resta fazer uma rima: Santiago do Boqueirão, espero que sirva de lição... OK. Já sei. Ficou péssimo esse meu trocadilho, não foi? mas deu para entender o que quero dizer, eu acho. Isso é o que importa... Confiram o site e comentem!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A Literatura Fantástica e a Hegemonia Anglófona

Não sei se todo mundo percebe, ou se é coisa da minha cabeça, mas sempre que o assunto é Literatura Fantástica não há reverência maior do que a anglófona, digo anglófona e não inglesa, pois, embora seja inglesa de nascença, também passou pela Irlanda e ganhou o mundo com os Estados Unidos... E não vou mentir: Eu amo a literatura fantástica anglófona! Quer seja a clássica, quer seja a atual! Mas ultimamente conheci muitos outros grandes autores do fantástico, um melhor que o outro, de várias nacionalidades, porém muito menos conhecidos e muito menos lidos. O motivo? Jamais o soube, mas cada vez mais creio que seja o fato de não terem sido originalmente escritos em inglês.
É verdade que a literatura fantástica nos moldes que conhecemos hoje nasceu na Grã-Bretanha. A maioria dos críticos concorda que um dos fundadores do gênero foi Horace Walpole e o seu Castelo de Otranto. Embora, é claro, o fantástico, grosso modo, já pudesse ser encontrado em textos o mais clássicos impossível como a Ilíada e a Odisséia, de Homero, As Mil e uma Noites e, por que não, a Bíblia. Na idade média, por exemplo, uma literatura fantasiosa pode ser lida nos romances de cavalaria... Enfim, o fantástico permeou toda a história da literatura, todavia, é somente no século XVIII que, como eu disse, ele assume os moldes em que se encontra até hoje, ligado ao sobrenatural, ao horror - uma literatura que se baseia na dúvida do leitor, segundo Tzvetan Todorov, sem dúvida alguma, o maior teórico do assunto.
Eis o papel da Inglaterra na formação do Fantástico.
(Um parênteses: Temo que o texto esteja ficando muito teórico e acabe, por isso, ficando enfadonho. Vou, pois, tentar me apressar e chegar logo ao tema que quero debater aqui...)
Bem, é por tudo isso que falei que em antologias de literatura fantástica ou qualquer lista de autores do assunto predominam os autores anglófonos: de Poe, Bran Stocker, Conan Doyle, H. G. Wells, Henry James, R. L. Stevenson, Rudyard Kipling à Stephen King, Lovecraft e Anne Rice. Um bom exemplo é uma antologia chamada Clássicos do Sobrenatural, publicada pela editora Iluminuras, numa linda edição (foto ao lado). O livro traz contos de uns 15 autores, e, curiosamente, todos são anglófonos! Ora, chega a parecer que não há escritores fantásticos de outros idiomas, o que não é, de modo algum, verdade... É fato que há bons autores de língua inglesa que produzem livros desse gênero, porém o que dizemos dos demais países?
Como já postei por aqui recentemente descobri a literatura fantástica brasileira! Conheci autores muito bons como Martha Argel e Giulia Moon, autoras das obras O Vampiro da Mata Atlântica e Kaori - Perfume de Vampira, respectivamente, além de, é claro, André Vianco que eu já conhecia de longa data e sempre admirei... Recentemente descobri ainda uma publicação eletrônica que se dedica especificamente à literatura fantástica, trata-se de uma revista on-line muito bem elaborada que possui o sugestivo nome de Revista Fantástica. A publicação tem o objetivo de divulgar o material que está sendo produzido atualmente em território nacional, ou não... É um ótimo trablho e vale a pena conferir.
Vale dizer, ainda, que o fantástico no Brasil, não se faz, porém, apenas de escritores contemporêneos, e já no século XIX Álvares de Azevedo escreveu Macário, Noite na Taverna e alguns poemas narrativos que sem dúvida podem ser assim classificados.
Também em língua espanhola podemos encontrar grandes escritores que se debruçaram sobre o fantástico, como Borges e Cortázar. Dos alemães e russo nem é preciso dizer, Hoffmann, Púshkin e Gógol, respectivamente um alemão e dois russos, são autores excelentes que se debruçaram sobre a literatura fantástica, embora nem sempre sejam lembrados.
Contudo, são os franceses que me parecem mais prejudicados e é sobre eles que quero falar mais atentamente e indicar algumas obras... É claro que os russos, alemães, latinos e brasileiros que escreveram sobre o fantástico não são tão privilegiados quanto os ingleses e americanos, parece-me, entretanto, que, ainda assim, ganham muito mais espaço do que os francófonos que se enveredaram por esses caminhos...
Afinal, quem conhece Nerval, Mérimée, Gautier, Villiers de L'Isle-Adam e Maupassant? Claro que há quem os conheça, não são autores obscuros, mas a fama que têm não se deve aos textos de fantasia que
escreveram... Como vou exemplificar... Creio que muitos conheçam, por exemplo, Gérard de Nerval e Théophile Gautier. O primeiro é considerado referência entre o romantismo negro - quase um Byron francês, enquanto o segundo foi um Parnasiano, famoso, principalmente, por ser um dos melhores amigos de Baudelaire - lembro por exemplo o fato de As flores do Mal ser dedicado a Gautier. Ambos foram poetas, e não maus poetas... Não obstante, também escreveram prosa, e boa prosa, e seus assuntos preferidos foram aqueles que remetem ao sobrenatural. Villiers de L'Isle-Adam, coitado, sequer ficou famoso, e a quase ínfima fama que conseguiu foi graças às suas peças teatrais, e não aos seus Contos Cruéis, nome sugestivo que deu aos seus textos fantásticos. Tampouco Mérimée teve o mérito que merecia, pois sua obra Carmen acabou ficando maior que o próprio autor de modo que seus outros textos acabaram no esquecimento, ou quase. Aliás, mesmo a sua obra nem sempre é lembrada como sua, pois desde que Bizet a musicou, muitos esquecem que antes da ópera, houve a novela.
Já o caso de Maupassant é ainda mais complexo. Discípulo de Flaubert, amigo de Zola, Maupassant frequentou os círculos de literatura Realista e Naturalista. Seu estilo ácido e irônico, lembram-me muito o nosso Machado, foi, porém, em seus textos de literatura fantástica que encontrei algumas das maiores obras que já li, como no caso de Le Horla, ou O Horla, como ficou o título em português... Ainda assim, Maupassant tem uma sorte rara! É um dos poucos que é editado aqui no Brasil como autor fantástico em edições como a Contos Fantásticos - O Horla e outras Histórias, da editora L&PM (vide foto) e o 125 contos de Guy de Maupassant, publicado pela Cia. das Letras (vide foto), que, porém, não traz APENAS contos fantásticos (embora, é verdade, também valha muito a pena ler seus outros contos... que, de fato, são um melhor que o outro! Em uma outra ocasião espero dedicar uma postagem inteira a ele). Mas enfim, fora Maupassant, é difícil achar autores franceses de literatura fantástica em português, salvo em algumas - raras - antologias como a Contos Fantásticos do Século XIX, organizada pelo célebre autor italiano Ítalo Calvino e publicada em português também pela Cia. das Letras (foto no início da postagem)...
Alguns contos de Mérimée e Gautier podem ser encontrados nela. Mas fora isso, nada, e por que? Não se sabe, mas possivelmente por não terem escrito em inglês. Parece que as pessoas acham que francês só sabe fazer literatura realista, assim como tem quem ache que brasileiro só faz literatura regionalista, e tanto um como outro, não podia ser mais absurdo! Há muito além daquilo que se julga o comum... Eu mesmo que adoro a literatura fantástica e, sobretudo, a francesa não conheço nada contemporâneo, francês e fantástico, apesar de estar certo de que há muita coisa boa por aí - escondidas, como estava Muriel Barbery, a quem dediquei uma postagem, até pouco tempo. Quando eu descobrir algo novo, eu posto aqui, por enquanto, fica a dica dos autores que mencionem, que podem ser encontrados em antologias, ou no original - e apesar de clássicos, são super atuais. Infelizmente ainda não há traduções de tudo o que merecia ser traduzido... Mas quem sabe um dia...
Quanto à literatura anglófona, é imprescindível lê-la. Não podemos, contudo, nos deixar levar e seduzir totalmente, pois é muito fácil nos perdermos na cultura hegemônica e esquecermos todo o resto que há a nossa volta... Como diz Sherlock Holmes é muito difícil ver o óbvio, e o óbvio é que vivemos sob a égide do mundo anglófono e é por isso que ignoramos nossa própria literatura e a de outros países... O curioso nesse caso é esquecermos da França que é quase ou tão hegemônica literariamente como a Inglaterra ou os Estados Unidos, porém, quando o assunto é literatura fantástica, ao menos, por enquanto, são eles que mandam...
A postagem de hoje não ficou bem do jeito que queria e do jeito que gosto de fazer - e ficou gigante!!! Creio que ficou muito academizada e, temo eu, um pouco cansativa, mas enfim, o que vale é que tentei divulgar alguns autores pouco conhecidos, como os franceses que escreverem sobre o fantástico no século XIX, e que merecem ser lidos... Espero que alguém procure por eles - nem que seja um continho -, pois vale a pena, assim como vale a pena ler a literatura contemporânea brasileira... Quem sabe o que Maupassant, Mérimée, Gautier e os outros têm a ensinar? Só lendo para saber...