quarta-feira, 29 de setembro de 2010

De novo Baudelaire: Sobre Cães, Perfumes e Poetas

Estava eu lendo mais alguns poemas em prosa de Baudelaire quando me deparo com um que é no mínimo genial... Fiquei tão pasmo com a verdade de suas palavras que tive de vir imediatamente postá-lo aqui, embora eu não goste de repetir os autores que já comentei; Baudelaire, contudo, é uma exceção e merece ser uma exceção, afinal, assim o foi em toda a sua vida, um eterno incompreendido, uma pessoa à parte do mundo, o albatroz no convés de um navio maltratado pelos cruéis marinheiros, como o são igualmente todos os artistas (alguns mais outros menos, isso depende da época e de sua genialidade)... Isso tudo é esplendidamente mostrado, de maneira sutil, irônica e sarcasticamente enganadora, no poema (em prosa) que transcrevo abaixo:

O Cão e o Frasco*

"Meu bom cão, meu belo cão, meu querido cachorrinho, aproxime-se e venha cheirar um perfume excelente, comprado na melhor perfumaria da cidade."

E o cão, meneando a cauda, o que, acredito, é nestas pobres criaturas o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, se aproxima e traz, curioso, seu úmido focinho ao frasco destampado; então, subitamente recuando de terror, late para mim em forma de censura.

"Ah! cão miserável, se eu lhe tivesse oferecido um pacote de excrementos, você o teria farejado com delícia, e talvez devorado. Assim, mesmo você, companheiro indigno de minha triste vida, se parece com o público, ao qual não se deve jamais apresentar delicados perfumes que o exasperam, mas lixo cuidadosamente escolhido."

*(Charles Baudelaire, Pequenos Poemas Em Prosa [O Spleen de Paris]. São Paulo, Hedra, 2009, p. 51.)

Ficou abismado? Decepcionado? Entediado? Irritado? Incomodado? Extasiado? Bem, Baudelaire tem esse efeito sobre as pessoas. Sua escrita é tão mordaz que só faz rir o mais incauto, pois na verdade é ele quem ri o tempo todo de todos nós e de si mesmo – aquele riso ironicamente amarelo de superioridade e desdém de que já falei. O riso do desiludido.

Às vezes, fico pensando o quanto ele sofreu sendo o gênio que foi nos anos 1850. Não deve ter sido nada fácil. Aliás, não seria muito diferente hoje em dia, não é? O público, em geral (e não estou generalizando só simplificando) ainda é como o cão, com a diferença de que este é supostamente (há controvérsias!) irracional... Quanto mais eu vejo o que faz sucesso no cinema, nas rádios, na TV, etc. mais percebo que o povo ainda prefere o pacote de excrementos... triste, não é? E pior! Ainda o devora avidamente e olha com desdém para quem se abisma! É triste, mas é verdade e sempre foi assim, Baudelaire já sabia isso há 150 anos... E sofria por isso. Aliás, o artista é sempre quem sobre, já dizia Schopenhauer. Mas enfim, depois disso tudo eu me pergunto quando é que o povo vai preferir o perfume?

Ouvindo: Dig – Incubus!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Fogo e o Bluetooth - Uma reflexão

O fogo é algo que não consigo entender, por mais que me expliquem. Não importa o que diga a ciência, para mim fogo é magia e vou explicar como cheguei a essa conclusão...
Para começar, o fogo não tem matéria. Não tem consistência... você não consegue pegá-lo. Ele é simplesmente luz. Não tem lógica uma coisa como o fogo.
Veja, ele nasce, por exemplo, no meio de lenha, mas ele não fica
na lenha, ele se espalha por toda a volta, no ar. Você pode vê-lo, pode tocá-lo, embora se queime se fizer isso. Ele gera calor e luz, mas como, se ele não é nada, na verdade, senão luz? Curiosamente, mesmo não sendo matéria ele se afeta por ela; se o sopramos ele se abala; se sopramos forte ele até se apaga. Tal como um ser vivo ele pode morrer... Vai dizer que isso não é bruxaria? Eu não consigo entender o foto...
Pior que isso só Bluetooth que é algo muito além do meu poder (ou vontade) de compreensão!
E ainda tem gente que diz que não existe magia...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O sentido da vida e a Literatura

Ontem, estava eu em meu curso sobre Roland Barthes... Minha professora falava sobre o livro Mitologias, que, ao contrário do que o título possa sugerir não trata de deuses gregos, romanos ou egípcios, e sim da cultura de massa, da cultura popular e da moda da década de 1950 (acho que a capa da edição que coloquei ao lado é bem ilustrativa). Como tudo que Barthes, Mitologias (não estou certo se há alguma tradução desse livro em português, simplesmente traduzo o título ao pé da letra) é um livro bem maluco em que ele analisa o que chama de mitos modernos ou os mitos de hoje, que vão desde o "casamento burguês" até os "marcianos"... (se não estou enganado; ainda não li o livro, só fragmentos, vai para a lista que já conta com mais de 500 títulos...).
Pois bem, a aula continua, o tempo passa e ainda discutindo acerca do mito do casamento burguês minha professora solta a máxima de que as pessoas querem casar, pois por algum motivo cultural acreditam que aquele é o dia mais importante de suas vidas (aliás, não foi exatamente a professora quem disse isso, a máxima surgiu da discussão da sala, mas enfim). Ou seja, as pessoas se casam na tentativa de dar um sentido a suas vidas... Ou de ter ao menos um dia em que são realmente importantes, como disse uma de minhas colegas...
Contudo, em meio a discussão surgiu a seguinte frase: "A vida não tem sentido, embora as pessoas sempre busquem lhe dar algum." Por outro lado, para Barthes a literatura tem sentido, uma vez que nela tudo pode ser explicado (e nisso estou totalmente de acordo).
Logo, eu cheguei à seguinte conclusão (eu e minhas teorias!), por meio de um silogismo bastante aristotélico (sim, eu andei lendo a Retórica):
  • A vida não tem sentido;
  • (Mas) na literatura tudo tem sentido;
  • (Como) não posso viver num mundo tão caótico em que nada faça sentido;
  • (Portanto) eu vivo a Literatura.
Não sei vocês, mas para mim isso explica tudo e resolve tudo... Isso me dá uma certa tranquilidade, pois sinto que estou no caminho certo.
PS: Acho que essa foi a postagem mais curta da história do Blog! XD
Ouvindo: Ameno, da Banda francesa Era.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Baudelaire, a Ironia e os Espelhos

Muito provavelmente o homem mais genial que viveu no século XIX foi Charles Baudelaire, o poeta que, para muitos, fundou o que hoje chamamos de Modernidade, por assim dizer...
Baudelaire é célebre principalmente por ter escrito dois livros: As Flores do Mal, livro de poemas, clássico na forma e inovador no conteúdo; e O Spleen de Paris - ou pequenos poemas em prosa, inovador em todos os aspectos...
Nestes textos que deu-se o nome de "poemas em prosa", Baudelaire encontrou grande expressão artística e cunhou uma forma que muito se aproxima do que hoje chamamos de "crônica", aqui no Brasil...
Não obstante, seus poemas são muito mais poéticos do que nossa crônica e muito mais profundos...
Abaixo segue um que acho simplesmente perfeito:
O Espelho
Entra um homem horrendo e se olha no espelho.
"Por que olhar-se no espelho se nele só vai se ver com desprezar?"
O homem horrendo me responde: "Meu senhor, segundo os imortais princípios de 89, todos os homens são iguais em direitos; possuo, portanto, o direito de mirar-me; se com prazer ou desprazer, só diz respeito à minha consciência".
Pelo bom senso, sem dúvida, eu estava certo; do ponto de vista da lei, porém, ele não estava errado.
Fantástico, não?
Quem me conhece deve imaginar o porquê de eu ter escolhido esse poema e não outro qualquer, o fato é que espelhos me fascinam! Por mais que a física possa me explicar como a imagem é refletida sobre a superfície lisa do vidro, nada me convence de que espelhos são objetos vulgares... Há algo de mágico neles, mágico e enigmático... (e estou certo de que Jonathan Strange concordaria comigo).
Eu sempre me perguntei, por exemplo, para onde vão nossos reflexos quando não estamos olhando... mas enfim, estou me esquecendo que comecei essa postagem para falar de Baudelaire... (e vou tentar falar um pouco mais antes de falar mais dos espelhos).
Não obstante, além do fato do texto girar em torno de um espelho (o que por si só já me chama a atenção), acho válido atentar para a ironia baudelairiana que me parece simplesmente deliciosa! Acho fantástica a resposta que o homem horrendo dá ao Eu-poético, e ainda mais fascinante é a conclusão que esse faz, jamais admitindo estar errado...
A ironia é traço marcante de Baudelaire... Nada lhe descreve melhor do que aquele sorriso sutil de canto de boca e ar de desdém. O risada franca e aberta lhe é desprezível... e parece-me que faz todo o sentido quando pensamos no modo como via a vida... Para Baudelaire o poeta é um gauche, um ser desajustado e incompreendido, embora iluminado. Só pode, pois, rir ironicamente da ignorância alheia.
E me parece que o tom irônico combina tão bem com a imagem do espelho... (Eis que começo a tecer teorias...)
Pois vejamos: O espelho, parece-me, é um objeto bastante ambíguo; pode não somente deixar a todos arrazados, como também elevar o ego dos mais narcísicos, contudo, quando olhamos para o espelho o reflexo sempre nos olha com aquele sorriso de canto de boca baudelairiano, pois por mais que goste do que está vendo naquele momento, sabe que aquilo é passageiro - você sabe disso e o reflexo também sabe -, mas você sorri porque se acha belo e ele sorri de sua inocência e da própria desgraça. Por isso nunca é um riso franco, mesmo que o seu seja. O dele nunca é um riso completo, afinal, é apenas o riso de um reflexo. Os reflexos têm, creio eu, pensamentos próprios, mesmo que por fora se esforcem para agir como agimos. É tudo um grande truque. O espelho faz, na verdade, como também faz o Eu-poético deste poema: acaricia o próprio ego para não se dar conta do quanto estamos enganados. Sempre estamos enganados, ou melhor, estamos nos enganando. Afinal, não é para isso que servem os espelhos? Para nos iludir? Para mostrar algo que não é, ou que é, mas não parece, ou que parece e é, mas não será por muito mais tempo?
Na dúvida, se acham que estou ficando maluco, vão ler o conto "O Espelho", de Machado de Assis, e depois conversamos... Lá dá para aprender muito sobre espelhos e ironias, mas isso é matéria para uma outra postagem, por hora pensem no que disse Baudelaire... Até mais!
Ouvindo: Carla Bruni!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Um poema-canção (de ninar)


Camilo Pessanha, sem dúvida, é um dos melhores poetas de língua portuguesa. Pessanha era português, simbolista e viveu quase toda a vida adulta em Macau, na China. Sua poesia era muito admirada por ninguém menos do que Fernando Pessoa. Não obstante, Camilo parecia ser modesto e pouco se preocupou em preservar sua obra que só foi recolhida e publicada por amigos e que até recentemente não tinha sequer uma boa edição... É, pois, um poeta digno de nota, mas que, infelizmente, foi toda sua vida (e sua morte) negligenciado... Vamos ver se consigo reverter isso divulgando aqui um pouco de seu trabalho (nossa que pretensão!), não, não espero tanto, mas gosto de lembrar daquela fábula do beija-flor que tentou apagar sozinho o incêndio, então, acho válido - cada gota d'água faz seu trabalho afinal... Quem sabe um dia o trabalho dele seja mais reconhecido, não é mesmo? Em outra ocasião postei um de seus poemas na postagem "Para refletir [2]..." e agora quero
lhes mostrar uma poesia que acho particularmente bonita...




Viola Chinesa¹
(A Wenceslau de Moraes)
Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa.
Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.
Mas que cicatriz melindrosa
Há nêle que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?
Ao longo da viola, morosa...



O que talvez mais me chame a atenção nessa poesia é seu caráter extremamente musical, que faz com que quase se possa sentir embalar pelo som suave e vagaroso da viola... O poema não deve ser lido de forma rápida! É preciso achar a cadência e se deixar levar... Lentamente... Morosamente...
Pessanha é sempre assim: musical. E também melancólico, coisa que também me agrada; contudo, não neste caso. Gosto de "Viola Chinesa" simplesmente por sua sonoridade e leveza (não que ele não seja também rico em questão de conteúdo), mas ainda assim gosto de deixar me encantar... Ele me transmite uma calma melancólica deliciosa, fato que o torna infinitamente dissonante (para usarmos um vocábulo litero-musical) do outro poema de Camilo que comentei aqui: O soneto de Gelo, que, em contraponto, é rígido, áspero (talvez essa não seja uma boa palavra, mas enfim), a voz da desesperança, a personificação do desencanto... "Viola Chinesa" não se pretende nada disso, é uma canção, melancolicamente monótona no melhor estilo verlainiano, mas ainda mais despretensiosa...
No embalo dessa música o leitor sente-se conduzir:
Pra lá,
pra cá,
pra lá,
pra cá,
ao longo da viola morosa...
Pra lá,
pra cá,
pra lá,
pra cá,


Até, enfim, adormecer...
Ora vejam só! Parece que s

em querer parafraseei Bandeira, então de bônus aqui vai mais um poema de nome muito sugestivo:


Debussy

Manuel Bandeira
Para cá, para lá . . .
Para cá, para lá . . .
Um novelozinho de linha . . .
Para cá, para lá . . .
Para cá, para lá . . .
Oscila no ar pela mão de uma criança
(Vem e vai . . .)
Que delicadamente e quase a adormecer o balança
— Psio . . . —
Para cá, para lá . . .
Para cá e . . .
— O novelozinho caiu.



Qualquer semelhança não foi mera coincidência, embora Bandeira esteja muito mais em paz do que Pessanha em seu tormento schopenhauriano...
Ainda assim, ambas as canções embalam...
E assim adormecemos...
Ouvindo: "Claire de Lune", de Claude Débussy...


¹Camilo Pessanha, Clepsydra, Ed. Crítica de Paulo Franchetti, 2ª ed. Lisboa, Relógio d’Água, 1995, p. 108.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Por que lemos? (Reflexão a propósito de um fragmento de Roland Barthes)

Uma das disciplinas que estou cursando esse semestre se trata de um curso monográfico sobre o crítico literário francês Roland Barthes.
Para quem não conhece, Barthes foi um dos poucos críticos (imagino que do mundo inteiro) a ver seus livros virarem best-sellers, de tão lidos e comentados que eles foram.
Barthes é conhecido por algumas teorias malucas, entre elas a da "Morte do Autor", que prega (grossíssimo modo) que só podemos estudar uma obra literária quando seu autor já morreu. Ou então sua posição de que escrever crítica é também escrever literatura e que, portanto, um texto crítico deve ser escrito com cuidado, tendo sempre em vista a ornamentação e a linguagem...
Aqui vou falar um pouco sobre uma de suas teorias, e tentar ampliá-la em outra teoria que insanamente me veio a mente... Vamos ver se dá certo. O fragmento que me incitou a refletir sobre o motivo de lermos encontra-se no prefácio da obra Sade Fourier Loyola - obra que se dedica ao estudo desses três autores franceses. Vejamos o que diz Barthes:
Nada de mais deprimente do que imaginar o Texto como um objeto intelectual (de reflexão, de análise, de comparação, de reflexo, etc.). O texto é um objeto de prazer. O gozo do Texto geralmente é apenas estilístico [...] Às vezes, entretanto, o prazer do Texto se dá de uma forma mais profunda (é só então que pode-se verdadeiramente dizer que há Texto): quando o texto "literário" (o Livro) transmigra em nossa vida, quando uma outra escritura (a escritura do Outro) chega a escrever fragmentos de nosso próprio cotidiano, breve quando se produz uma co-existência. O índice do prazer do Texto está então em podermos viver com Fourier, com Sade. Viver com um autor não significa dizer necessariamente cumprir em nossa vida o programa traçado nos livros por este autor [...]; trata-se de fazer passar em nosso cotidiano fragmentos inteligíveis (de fórmulas) resultantes do texto admirado. [...] O prazer do Texto comporta também um retorno amigável do autor. O autor que regressa não é certamente aquele que foi identificado por nossas instituições (história e ensino de literatura, de filosofia, discursos da Igreja); não é mesmo o herói de uma biografia. O autor que saí de seu texto e entra em nossa vida, não tem unidade; ele é um simples prural de "encantos", o lugar de alguns detalhes tensos; fonte, no entanto, de vivo brilho romanesco, um canto descontínuo de amabilidades, nos quais, todavia, nós lemos a morte mais certamente do que na epopéia de um destino; não é uma pessoa (civil, moral), é um corpo.
(Roland Barthes, Sade Fourier Loyola, pp. 704-5 - tradução nossa).
(Nossa não tinha me dado conta do quão grande era esse fragmento, em meu caderno ele parecia muito menor... Não sei se ele está claro. Barthes não escreve de forma fácil e a tradução que acabei de fazer para postá-lo aqui não deve ajudar muito, creio eu, uma vez que está totalmente improvisada... Mas enfim... espero que dê ao menos uma noção do que ele quer dizer. Mas se não ficou claro, tentarei explicar ao longo dessa postagem...)
Segundo Barthes os textos não são objetos intelectuais e sim objetos de prazer estético, Indo, porém, um pouco mais além do que ele disse podemos pensar que o prazer que a leitura proporciona é um prazer ambíguo, uma vez que ao mesmo tempo nos agrada e provoca certo desconforto (ao menos isso acontece com textos de grandes autores tais como Clarice Lispector, Joseph Conrad, Machado de Assis, Baudelaire, etc. etc.) nem que esse desconforto seja - e isso é palpite meu - porque o livro acabou.
Mas como um texto consegue provocar esse prazer?
Barthes diz também nesse trecho que a grandeza do texto literário está em fazer com que o leitor "transmigre" para a história, ou que esta se incorpore à vida do leitor. É, pois, na diluição das fronteiras entre realidade e ficção que parece se encontrar tal prazer estético, ou satisfação, de modo que, ainda segundo ele, conheceríamos o autor pela leitura; não o autor histórico, mas a verdadeira essência do autor (isso já é interpretação minha a partir do texto de Barthes). Concluo, portanto, e aqui já passo a tecer minha própria reflexão a partir do que li do crítico e do que minha professora disse a respeito do assunto, que segundo Barthes, "Ler" é viver com o autor, viver com (ou a partir de) um texto. O livro proporciona uma espécie de companhia; combate, por isso, o tédio e a solidão.
Então acho que mais do que suscitar uma sorte de prazer, a literatura nos faz companhia, uma vez que nos transporta para um outro mundo, para uma outra mente. Quando lemos, é o próprio autor quem nos faz companhia, mas também seu mundo, suas personagens. "Ler" é um paliativo para a solidão. Afinal, eu creio que todo o tempo nós fugimos da solidão, mesmo quando pensamos fazer o contrário... Confuso? Vou tentar explicar...
A TV, o Rádio, a Literatura, a Música, o Cinema, os Video-Games, enfim, praticamente tudo aquilo que proporciona um entretenimento solitário me parece ser, na verdade, um tipo de artifício para combater a solidão, pois fatalmente em algum momento todo mundo se sente só, mesmo quando há a presença de mais pessoas (ter gente presente não significa ter companhia!) e penso que ninguém gosta de se sentir só.
Imagino que você, leitor, esteja pensando: "Mas, às vezes, eu gosto de ficar sozinho". Bem, é extremamente provável que goste mesmo, mas em resposta a isso penso o seguinte: Ninguém gosta de ficar sozinho, porém como é totalmente impossível termos sempre uma companhia humana que nos agrade buscamos consolo naquilo que nos fornece entretenimento: num programa de TV, num filme, em algo para ler ou ouvir. Buscamos a companhia virtual desses recursos, e de tal forma nos habituamos a ela que sentimos uma espécie de "saudade" dessa companhia fictícia quando dela somos privados. Em outras palavras, às vezes, todos querem ficar sozinhos, pois simplesmente estão sentindo falta daquilo que inicialmente servia para lhe matar a solidão ou o tédio. Não sei se estou conseguindo me explicar claramente, mas, em suma, o que quero dizer é que só gostamos de ficar sozinhos, pois sentimos falta da companhia que buscamos por termos ficado sozinhos. No caso de Barthes essa companhia é um livro literário, mas pode ser diversas outras coisas como já expus.
E onde Barthes se encaixa nisso tudo?
Então, tentando unir a teoria de Barthes com a minha reflexão, penso que gostamos da companhia artificial porque tal como explicou Barthes o texto faz com que vivamos junto com o seu autor (e eu acrescentaria, com as suas personagens). Ao ler um livro você compartilha de um mundo à parte, você se insere nele, conhece pessoas, tem experiências, e o mesmo poderia ser dito a respeito de um filme, de um jogo, de uma música. Ou seja: As pessoas lêem primeiro porque se sentem sozinhas, e depois porque se habituam ao tipo de companhia que um livro proporciona. Afinal de contas, esse tipo de companhia é sempre garantida e você pode dispor dela à vontade; se ela te irrita, você a deixa de lado, pegando-a novamente se sentir saudades.
Aplicando essas teorias a um exemplo prático, posso dizer que o Blog funciona de maneira parecida; escrevendo aqui sinto uma espécie de companhia: a companhia de um leitor pressuposto, mas que nem sempre existe. Sei que é bizarro, mas ainda assim é verdade. A internet nada mais é do que uma grande forma de buscar companhia que, nesse caso, pode ser real ou virtual, ou um intermediário entra as duas. Mas voltando ao tema do blog, penso que ninguém escreve se não achar que vai ser lido, seja um blog, seja um conto, seja um livro. Eu comecei a escrever com 13 anos quando comecei a ficar mais tempo sozinho... Isso me parece bem sintomático. Se lemos porque queremos companhia, acho que escrevemos mais ou menos pelo mesmo motivo (embora aí estejam envolvidas algumas outras questões), só que nesse caso criamos nossa própria companhia.
Acham que estou viajando? É bem provável, ler literatura (ou crítica literária) tem esse efeito sobre mim...
PS: Creio que as últimas postagens foram um pouco densas demais, logo mais espero retomar as minhas resenhas, mas, para tanto, preciso de tempo para ler mais... Estou sentindo falta desse tipo de companhia...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Para refletir... [3]

Não resisti e resolvi vir postar também um trechinho de Arthur Schopenhauer que achei simplesmente fantástico... Confesso que ainda não li nenhum livro dele, embora ele rodeie grande parte dos textos que leio para a faculdade... Um de seus livros está na minha lista infindável de coisas a ler... O trecho que cito foi tirado do livro: A consciência criadora na poesia brasileira, de Sergio Alves Peixoto. Para ilustrar um pouco o que ele disse achei que não haveria nada melhor do que o quadro O grito. O que acham? Além disso, é interessante pensar nisso em paralelo ao que dizem os poemas de Fernando Pessoa e Camilo Pessanha que postei sob os títulos: "Para refletir..." e "Para refletir...[2]", respectivamente.
Enfim, vamos ver o que vocês acham deste fragmento:
[...] o prazer do belo, o prazer verdadeiramente que dá a arte, tudo isto não é concedido senão a pouquíssimos, por motivo que para tal se requerem disposições extremamente raras e que os próprios privilegiados só podem usufruir como sonhos fugazes; e além disso tal superioridade de força intelectual torna essas criaturas susceptíveis de sentir a dor com uma intensidade de que não são capazes os seres medíocres [...] (SCHOPENHAUER, 1941: 81-2).
Desta vez não vou comentar, nem nada... Fica aqui para reflexão, quem sabe depois eu comente nos comentários propriamente ditos...
Eu não sei vocês, mas eu acho este fragmento simplesmente perfeito... Não apenas porque faz toda a lógica do mundo, mas também porque me faz pensar...
Ouvindo: Requiem for a Dream.

Para refletir... [2]

Faz tanto tempo que não apareço por aqui... A ausência quase total de tempo não me tem permitido esvaziar o meu Cérebro com a frequência que gostaria... Mas enfim, deixo aqui mais um poema para refletir, que, por puro acaso, e somente me dou conta disso agora, tem muita relação com o poema de Fernando Pessoa que postei anteriormente. Na verdade estou trabalhando sobre o poema abaixo em minha pesquisa e por isso quis compartilhá-lo com vocês. Achei muito bonito e profundo...
Soneto de Gelo
Camilo Pessanha
Ingênuo sonhador - as crenças d'oiro
Não as vás derruir, deixa o destino
Levar-te no teu berço de bambino,
Porque podes perder esse tesoiro.
***
Tens na crença um farol. Nem o procuras,
Mas bem o vês luzir sobre o infinito!...
E o homem que pensou, - foi um precito,
Buscando a luz em vão - sempre às escuras.
***
Eu mesmo quero a fé, e não a tenho,
- Um resto do batel - quisera um lenho,
Para não afundir na treva imensa,
***
O Deus, o mesmo Deus que te fez crente...
Nem saibas que esse Deus onipotente
Foi quem arrebatou a minha crença.
Bonito não é? E um pouco desesperador também... Os poemas do Camilo Pessanha assim como os do Fernando Pessoa têm normalmente esse efeito desistabilizador. Ao menos sobre mim... Mas talvez eu seja muito suscetível a levar em consideração o que leio em poesia... Mas enfim, o EU-lírico desse poema, e também de outro de Pessanha e Pessoa, normalmente é um sujeito tão perturbado, tão cindido, fragmentado e desiludido que só resta uma infindável descrença e um uma espécie de culo à dor, não a uma dor vulgar, mas a uma dor cósmica - a dor de estar vivo (Por trás disso há toda uma filosofia de viés schopenhaueriano, mas isso é matéria para uma outra postagem). Mas o que acho bonito de verdade é o conselho que o Eu dá ao leitor - "O Ingênuo Sonhador"; Embora ele tenha perdido toda e qualquer esperança, toda e qualquer fé nos deuses e nos homens, ele guarda a lembrança saudosa dessa época. Não existe nada mais acalentador do que acreditar, não lhe importa em que... Enquanto se acredita as coisas são mais mágicas e tudo pode ser possível... Viver torna-se mais fácil. Enfim, eis o conselho do Eu do poema de Pessanha, alguém que perdeu toda e qualquer Fé: Acredite o máximo possível! Tenha Fé e Esperança! Eis tudo.
Bonito não é? Sempre aprendo muito com os Poemas de Camilo... E acho que o título veio bem a calhar... Não há gelo propriamente dito, mas hoje está bastante frio... E eu adoro o frio.
PS: Sempre vejo isso nos blogs e acho interessante então começarei a fazer também:
Estou ouvindo Enya.
Assim contrasto o desespero do desiludido do poema de Pessanha com a calma e tranquilidade que a voz da Enya me proporciona...