sábado, 16 de outubro de 2010

Mitologia, História e a ilusão de Verdade

Para F. L.

O Herdeiro de Aquiles,

Estava eu andando pela faculdade e conversando com meu melhor amigo sobre Mitologia Clássica (Grega, Latina, Nórdica, Egípcia) e ele me dizia que lamentavelmente a Mitologia não era estudada no curso de História –, ao menos, não diretamente, eles até resvalam por ela, mas não a estudam propriamente. Por outro lado, nós do curso de Letras a estudamos, ao menos a Grega e a Latina, pois estão mais presentes na Literatura Ocidental, mas não exatamente enquanto Mitologia e sim enquanto matéria para a Literatura...

Mas enfim, continuamos conversando... e começamos a filosofar... É engraçado pensar como o modo de ver as coisas mudou através da história, não é?

Na Grécia Antiga não havia grande diferença entre Mitologia e História, entre Mitologia e Literatura, entre Mitologia e Religião... Tudo estava misturado, tudo estava ligado... A Religião era a Mitologia, que aparecia na Literatura que era o ponto de partida da História. Uma coisa ligada a outra em sua essência.

Quer um exemplo disso? Vejamos...

A Guerra de Tróia realmente aconteceu? Há indícios que sim, mas não se sabe... E caso tenha existido, teriam existido seus heróis? Aquiles, Odisseu, Páris, Helena, Agamêmnon? Pela lógica muitos diriam que não... São Mitos. Por outro lado, foi encontrada uma suposta máscara de Agamêmnon... Alguns dizem que foi forjada, outros que é legítima... Algum dia saberemos? Possivelmente não, mas sigamos em frente...

(Suposta máscara de Agamêmnon)

Heródoto, chamado “O Pai da História” escreveu páginas e páginas sobre Guerras verídicas gregas, dentre elas as ditas Guerras Médicas – entre os gregos e os chamados medos –, pois bem, vejamos que coisa curiosa...

As Guerras Médicas são históricas. Ninguém as questiona, e já estavam descritas em Heródoto, o Pai da História. Contudo, vocês sabem qual é o motivo atribuído por Heródoto para o início das Guerras Médicas? Pois afinal, tem de haver um motivo... E há um motivo evidente, ao menos para Heródoto. Para ele tudo começou com o rapto de Helena e com a Guerra de Tróia, ou seja, uma Guerra levou a outra... Mas, calma, a guerra de Tróia não era ficção? Ou, mesmo se fosse realidade, Helena teria existido?

A História começa a se misturar com a Mitologia. A Ilíada e a Odisséia, livros, teoricamente literários e supostamente escritos por Homero, que nasceram de mitos, ou seja, do que hoje chamamos de Mitologia, mas que antes era a Religião Grega, começam a servir de base para livros de História. Curioso não é? Como eu disse: é tudo junto e tudo misturado. Como separar?

Aí é que está: não se separa! E nem há motivos para isso... Embora hoje seja tudo separado, e haja inclusive rixas ridículas entre uma área e outra. Que grande retrocesso, eu diria, mas enfim, essa não é a minha questão, ao menos, não agora.

Outro caso curioso é o caso de Homero... que, como eu disse, supostamente é o autor da Ilíada e da Odisséia, por que supostamente? Pois muitos teóricos acreditam que ele não existiu, e que, caso tenha existido, dificilmente seria autor dos dois livros. Ou seja, começam a achar que é ficção uma provável personagem histórica. Confuso não? Essa dúvida se Homero existiu de fato ou não, é chamada de Questão Homérica.

Entretanto, vejamos o que diz Haroldo de Campos em sua breve introdução à sua tradução da Ilíada:

Quando já estava prestes a terminar esta minha Ilíada Brasileira [...], meu filho [...] assinalou-me o dito da pitonisa délfica sobre a questão homérica. [...] Trata-se da resposta da Pítia ao Imperador Adriano (A. D. 117-138), quando este a interrogou sobre o local de nascimento e a estirpe de Homero:

Sobre o que te é ignoto interrogaste-me:

a linhagem e a pátria da Sereia

ambrósio-canora. Ítaca é a terra

natal de Homeo. Foi seu pai Telêmaco

e sua mãe, Policeste, uma Nestóride.

Esse homem deles vem – polipansábio.

Essa é a verdade? Homero foi filho de Telêmaco (filho de Penélope e Odisseu) e de Policeste (filha de Néstor)? Ou isso também ficção? Afinal, Homero nem deve ter existido, não é? Qual é a verdade? Como saber?

Sinceramente?

O que importa?

Sinceramente?

Nada!

(ao menos para mim... e vou me explicar)...

O fato é que não faz diferença se Homero existiu ou não. O que importa são seus livros que, graças aos deuses, resistiram à história e chegaram até nós. Isso é o que importa, de fato. A verdade? Não passa de uma ilusão! Como saberemos se de fato tudo o que é supostamente história aconteceu de fato. Não dizem a todo momento a história foi escrita pelos vencedores? Pois é, mas mais do que isso ela foi escrita por homens, homens de memória falha e imaginação fértil. Quem poderia garantir se o que conhecemos por história não passa de um grande romance? Ou, quem poderia nos garantir que metade dos romances, peças, poesias antigas, não são, na verdade, baseados em fatos históricos? Sendo assim, tanto o que Homero escreveu pode ser verdade, quanto pode ser mentira tudo o que sabemos sobre a história greco-romana. Quem é mais real Homero que escreveu supostamente literatura ou Heródoto que teria escrito história?

Veja, não estou diminuindo a História, pelo contrário, eu a adoro; não vejo, porém, necessidade de acreditar em tudo o que ela diz, ou não diz. A questão é que o fato de algo não ser exatamente verdade não tira nem um pouco a importância do fato, dá para entender? Eu exemplifico: O fato da Guerra de Tróia possivelmente ser ficção, não tira sua importância, pois em algum momento alguém acreditou que fosse verdade. Confuso? Sim, bastante. Continuemos...

Aristóteles nos dirá o seguinte a esse propósito em sua Poética:

É claro, também pelo que atrás ficou dito, que a obra do poeta não consiste em contar o que aconteceu, mas sim coisas quais podiam acontecer, possíveis no ponto de vista da verossimilhança ou da necessidade.

Não é em metrificar ou não que diferem o historiador e o poeta; a obra de Heródoto podia ser metrificada; não seria menos uma história com o metro do que sem ele; a diferença está em que um narra acontecimentos e o outro, fatos quais podiam acontecer. Por isso, a Poesia encerra mais filosofia e elevação do que a História; aquela enuncia verdades gerais; esta relata fatos particulares. Enunciar verdades gerais é dizer que espécie de coisas um indivíduo de natureza tal vem a dizer ou fazer verossímil ou necessariamente; a isso visa a Poesia, ainda quando nomeia personagens. Relatar fatos particulares é contar o que Alcibíades fez ou o que fizeram a ele.

(Trad. de Jaime Bruna, in A Poética Clássica, ed. Cultrix, p. 28).

As palavras de Aristóteles são sintomáticas... Por diversos motivos: primeiro por considerar a Poesia mais filosófica que a História, por aquela tratar daquilo que poderia acontecer (ou seja, a Literatura pode falar do que quiser, não apenas da verdade), segundo por considerar que a Poesia trata de coisas particulares, mas ora, tratar de Alcibíades que é um personagem histórico, é fazer Literatura ou História? Isso é confuso... Muito confuso...

O caso de Aristóteles, ele-mesmo, é também curioso... Ele foi preceptor de Alexandre (que se dizia filho de Zeus) e discípulo de Platão, que, por sua vez, fora, teoricamente, discípulo de Sócrates, que, por sua vez, é considerado por todos como apenas uma personagem de Platão. Novamente, o que é a verdade? Há uma verdade? Ou apenas a ilusão de uma?

Tudo o que chamamos de História hoje, pode ser nada mais que ficção, afinal, o que antes chamavam de História, hoje nós consideramos ficção. Então, eu coloco a questão, por que tentar saber a verdade? Não podemos simplesmente aceitar as coisas como elas são? Ou como nos foram contadas?

Eu particularmente prefiro acreditar que Homero existiu SIM! Era filho de Telêmaco, que era filho de Odisseu, que era filho de Laerte, que era neto de Hermes, o deus mensageiro, que era filho de Zeus.

Prefiro acreditar que Helena, também filha de Zeus, existiu e causou não apenas a Guerra de Tróia, mas também as guerras médicas... Prefiro acreditar que Sócrates existiu sim! e era um velhinho insuportavelmente chato! Quem me garantirá que Alexandre não era mesmo filho de Zeus?

Se estou subvertendo o conceito de História? Espero que sim...

Já que nada disso pode ser provado por que vou me atormentar com a dúvida? Já não vivemos uma ilusão de verdade? Uma alternativa ou outra, não são ambas ilusões? Aceitemo-las então. Isso dá mais graça às coisas. Torna tudo mais mágico e mais interessante. O mundo contemporâneo é chato, pois nada é mágico... Quero dizer, as pessoas não veem o que é de fato mágico como o Fogo e o Bluetooth de que já falei outro dia... Não consegue aceitar que há mais coisas entre o céu e a terra do que pensamos. Hamlet já o sabia há séculos!

Enfim, creio que já estou falando demais, não é? Mas o fato é que é uma grande pena as áreas não conversarem uma com a outra. História, Literatura, Filosofia, Mitologia, Religião, é tudo uma coisa só: Cultura, e é isso que deveríamos estudar. Uma área tem muito a aprender com a outra, nesse aspecto acho que nós ainda nos saímos melhor, quem estuda Letras, brinca com um pouco de todas as outras áreas...

A verdade? A verdade não importa, cada um deve acreditar no que quiser... Afinal, tudo o que sabemos foi contado por homens que acreditavam no que diziam, o que não significa que tudo era necessariamente verdade. Tudo é discurso, afinal. Ganha quem convencer o leitor de que o que está dizendo é verdade... Ou, no meu caso, de que não importa a verdade, e que, portanto, essa é a minha verdade. Tudo é discurso. E retórica, e então voltamos a Aristóteles, afinal... Mas disso falemos outro dia. Por enquanto fiquemos com a ideia de que tudo o que temos são pessoas tentando conversar as outras de que o que pensam é a verdade... (Ou a ilusão de Verdade)...

E aí consegui convencer alguém?

Ouvindo: I’m not mad, Alex Gardner

Lendo: Pequenos Poemas em Prosa – O Spleen de Paris, de Charles Baudelaire.