domingo, 18 de dezembro de 2011

Como escrever um artigo segundo o Dr. Frankenstein

            Pode-se dizer que a receita para compor um artigo (literário) é a mesma usada para se criar um Monstro: Primeiro, escolhe-se um corpo (ou corpus) que lhe sirva de base (objeto). Corte-o em pequenos pedaços e reserve; em seguida, acrescente ao corpus esmiuçado partes de outros (textos), previamente selecionados a partir das especificidades do primeiro. Lembre-se que um fio condutor (elétrico ou temático) deve animar o conjunto. Costure, então, cada parte com esmero para que nada fique fora de lugar ou sobrando. Por fim, insira nas veias seu estilo e saber dando personalidade própria à criatura que se forma. It’s alive!


Eis um artigo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Repostagem: Comentário sobre um livro de Felipe Pena

Olá, pessoal, tudo bem?
Essa é uma postagem diferente, aliás, é uma repostagem do texto "Uma grata surpresa - Comentário sobre um livro de Felipe Pena" que postei em 19 de Julho de 2010...
De modo geral, nunca reposto meus textos, mesmo porque nem há tanto texto assim a ser repostado; não obstante, esse é um caso particular. Recentemente, o escritor Felipe Pena relançou seu livro O Analfabeto que passou no vestibular (Ed. 7 Letras, 2008) pela Ed. Record e o renomeou como Fábrica de Diplomas, o primeiro volume de sua Trilogia do Campus (cujos número 2 e 3 são, respectivamente, os livros O Marido perfeito mora ao lado e O verso do cartão de embarque). Essa nova versão, tem outro nome, outra capa, outra editora, e, por isso, pede uma nova postagem...
Felipe Pena é escritor, jornalista, psicólogo e professor doutor da Universidade Federal Fluminense - UFF - além de ser figura recorrente aqui no blog Cérebro-Casa, tendo sido inspiração para as reflexões expostas nos textos "Para Refletir... [4]" e "Em defesa dos best-sellers". Uma vez feitas as devidas reapresentações, vamos à respostagem, propriamente dita, mise à jour e remodelada.
Uma Grata Surpresa - Comentário sobre O Analfabeto que passou no vestibular / Fábrica de Diplomas, de Felipe Pena.
Conheci o Felipe Pena em julho de 2010, no lançamento do novo livro do Orlando Paes Filho, Angus Vol. 3. O Orlando é um escritor que conheço de longa data... É um dos responsáveis pelo meu gosto por literatura e de certa forma por eu ter feito Letras. Antes de ler sua obra eu não gostava de literatura brasileira (salvo Machado e Álvares de Azevedo, é claro) o que era um absurdo sem tamanho. Além disso, eu tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente quando lançou seu primeiro livro (na época eu devia ter uns 14 anos), e desde então eu acompanho seu fantástico trabalho e em todos os lançamentos lá estou para prestigiá-lo.
Pois bem, ano passado lá estava eu novamente para ver o novo livro do Orlando. O evento foi na livraria Cultura do Conjunto Nacional e além da tradicional seção de autógrafos houve um bate-papo muito interessante entre o Orlando e Felipe Pena, um outro escritor que na época eu desconhecia... Não preciso dizer que o bate-papo foi demais! Orlando e Felipe trataram de tudo um pouco, desde o e-book e o mercado editorial até os novos caminhos da literatura contemporânea e a literatura no meio acadêmico. Em outras palavras: foi demais!
O Felipe também estava lançando um livro aquele dia O Marido Perfeito mora ao lado, seu segundo livro de ficção, mas seu décimo (se não me falha a memória) livro publicado. Papo vai papo vem, e o Felipe nos convidou para um outro bate-papo que haveria naquela mesma semana na livraria Saraiva do Shopping Morumbi.
Como o achei um cara muito legal e me interessei por seus livros, fui a esse outro bate-papo, interessado em saber mais sobre seus livros e sobre o tipo de literatura que ele escreve... Lá comprei seu primeiro livro de ficção O Analfabeto que passou no vestibular (relançado em 2011 pela Ed. Record com o nome Fábrica de Diplomas). Conversamos bastante no evento e tal... Enfim, passados uns dias comecei a ler o livro que de tal forma me encantou que terminei em dois dias.
Confesso que jamais havia lido algo do gênero. Ano passado, ainda guardava certa resistência com a literatura contemporânea nacional, à exceção dos livros do Orlando Paes Filho e do André Vianco, como já comentei inúmeras vezes, porém o livro do Felipe abriu minha cabeça e me mostrou um outro mundo literário que eu desconhecia, mas que acabei adorando.
Sempre li muito mais a literatura do Século XIX (sobretudo francesa e inglesa), e nas vezes em que me aventurei a ler autores do Século XX ou XXI foram autores ingleses ou norte-americanos, que, em sua maioria, escreviam literatura fantástica... Ou seja, havia um verdadeiro abismo entre o que eu estava habituado a ler e O Analfabeto que passou no vestibular, um romance contemporâneo, de um autor brasileiro, cuja trama gira em torno de um assassinato que acontece às portas de uma favela no Rio de Janeiro. Mais diferente impossível, mas nem por isso menos legal.
Este livro se passa no meio universitário, mas aborda também outros pontos delicados de nossa conjuntura social como a política, as favelas, as drogas e a corrupção. Com uma narrativa leve surpreendente Felipe nos guia através de uma intriga policial: uma tentativa de assassinato que acaba por se mostrar muito mais complexa do que parecia ao início.
Romance-denúncia, é como Felipe o chama, pois mostra (ou denuncia) a incompetência de diversas instituições brasileiras. O livro é uma espécie de romance policial moderno no melhor sentido do termo; seu detetive, Antonio Pastoriza (detetive por acaso, não por profissão), não fica nada abaixo de meu ídolo Sherlock Holmes e nem de seus rivais Poirot e Dupin, não apenas em genialidade como na composição da personagem, que ao mesmo tempo cativa e surpreende com sua personalidade complexa e perturbada.
Além de Pastoriza há ao menos uns outros 8 personagens fantásticos (se não me esqueço de nenhum), super bem construídos, capazes de suscitar o ódio e a simpatia do leitor (e apenas não os descrevo um a um para não tirar a graça de quem for ler o livro, como espero que façam)... Realmente são ótimos personagens, daqueles que você passa a acreditar que, de fato, existem. (Não obstante, se alguém quiser, já os descrevi e comentei detalhadamente num outro lugar, então posso colar aqui, se for o caso).
Enfim... O livro do Felipe abriu meus olhos para uma literatura que eu desconhecia e que me encantou e me fez ver quanta coisa boa está sendo feita e publicada, e quanta coisa boa há além do Orlando e do Vianco, afinal a literatura não morreu com Clarice Lispector e Bandeira (na minha opinião os maiores escritores brasileiros do século XX, mas nem por isso os últimos).
Sou grato ao Felipe por ter me mostrado esse novo mundo literário, um mundo que eu ignorava, mas que traz toda uma nova gama de possibilidades literárias tão boas (senão melhores) do que as que estava, então, acostumado. Fez-me também ter ainda mais gosto pela literatura brasileira contemporânea, e, de fato agora, estou descobrindo novos caminhos...
É curioso a forma casual como tomei conhecimento de Felipe Pena e seus livros... Mas a vida tem dessas coisas... Realmente foi uma grata surpresa...
PS: Vejam o Blog do Felipe Pena...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para refletir... [4]

Estava eu lendo o livro Crítica e Verdade, de Roland Barthes e me deparei com a seguinte passagem:

“Ouve-se frequentemente dizer que a arte tem por encargo exprimir o inexprimível: é o contrário que se deve dizer (sem nenhuma intenção de paradoxo): toda a tarefa da arte é inexprimir o exprimível, retirar da língua do mundo, que é a pobre e poderosa língua das paixões, uma outra fala, uma fala exata.”

(Roland Barthes, Crítica e Verdade, São Paulo, Perspectiva, p. 22).

Isso me fez refletir.

É comum se pensar que a arte é uma maneira de se dizer o indizível de se atingir o inefável (ao menos era assim que românticos e simbolistas pensavam), porém, segundo esse fragmento de Barthes a arte não exprimiria o inexprimível e sim o contrário: tornaria inexprimível o que é exprimível. Ou seja, tornaria, segundo minha leitura, mais complexo aquilo que é banal; em outras palavras, daria cor àquilo que vemos todo dia em tons de cinza. Talvez seja esse mesmo o papel da arte; ao tornar algo simples em algo complexo estamos lhe dando importância, fazendo com que o leitor (no caso da literatura) deva se esforçar para compreendê-la e assim lhe dê valor, valor que possivelmente não daria se tal coisa estivesse em sua roupagem tradicional. A arte complicaria o mundo para mostrar o óbvio que se perde na banalidade. Perdido em tais reflexões lembrei-me de outro fragmento, desta vez do poeta simbolista francês Stéphane Mallarmé que, embora pregue a busca pelo indizível, só vem a confirmar a teoria de Roland Barthes (ou assim me pareceu à primeira vista):

- Creio, [...], que, no fundo, os jovens estão mais próximos do ideal poético do que os parnasianos, que ainda tratam seus temas [...] apresentando os objetos diretamente. Penso ser preciso, ao contrário, que haja somente alusão. A contemplação dos objetos, a imagem alçando vôo dos sonhos por eles suscitados, são o canto; já os parnasianos tomam a coisa e mostram-na inteiramente: com isso, carecem de mistério; tiram dos espíritos essa alegria deliciosa de acreditar que estão criando. Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que consiste em ir adivinhando pouco a pouco: sugerir, eis o sonho. É a perfeita utilização desse mistério que constitui o símbolo: evocar pouco a pouco um objeto para mostrar um estado d’alma, ou inversamente, escolher um objeto e extrair dele um estado d’alma, através de uma série de decifrações.[1]

Para Mallarmé o poeta (ou o escritor, ou o artista, não importa) teria esse importante papel de fazer o leitor acreditar que está criando e isso só viria da complicação das coisas através do que ele chama de sugestão. Embora aqui complicação não pareça ser um termo apropriado; talvez seja melhor ocultação ou ainda mistificação, enfim.

(Acho que estou eu a complicar meu texto... Mas não é essa minha intenção... Eu juro.)

Ora, de certa forma Mallarmé tem razão, parece-me bem mais interessante algo que se mostre pouco a pouco do que uma história (ou poema) que se revela a um só olhar. Nada mais entediante. O trunfo da arte estaria então em complicar (ou ocultar), mas complicar-ocultar não seria, evidentemente, inviabilizar o acesso... Inviabilizar seria burrice. Fazer algo para que ninguém tenha acesso (no sentido de impedir a compreensão) não tem utilidade, tampouco fundamento. Não. Complicar aqui é, para mim, esconder o óbvio, simplesmente. Embora dentro do contexto do simbolismo pudesse, sim, significar inviabilizar o acesso da massa, mas isso era uma pretensão de dado grupo de poetas do século XIX que queria impedir, de certa forma, a comercialização da arte, e faziam isso ao produzir uma arte de difícil acesso ao público não-especializado. Havia lá sua coerência dentro do movimento; essa ideia, porém, não se encaixaria no século XXI quando o que realmente importa é ser lido e compreendido.

Mais confuso do que nunca, perdido em meu Cérebro-Casa, lembrei-me do que diz o professor e escritor Felipe Pena (citação, aliás, já comentada aqui no blog):

"Em literatura, entretenimento não é passatempo. É sedução pela palavra. Tudo é linguagem, mas a narrativa é a base da literatura. Uma história bem contada é o objetivo que perseguimos.A ficção brasileira precisa ser acessível a uma parcela maior da população. O que não significa produzir narrativas pobres ou mal elaboradas. A escrita simples não é superficial: é a tradução laboriosa da complexidade. Escrever fácil é muito difícil."
(Citação tirada do cabeçalho do Blog de Felipe Pena...)

Pena considera que o difícil mesmo é dizer algo complexo de forma fácil. E não dá para discordar. Ora, Mallarmé parece achar que ao esconder o óbvio o artista torna sua obra mais interessante e Barthes acha que a arte está em tornar o que é corriqueiro em algo extraordinário; o que também não dá para discordar. Tudo isso não seria contraditório? Possivelmente, mas de alguma forma os três raciocínios apresentam uma lógica inquestionável dentro de seus contextos teóricos e sócio-espaciais. Arrisco-me a dizer que se complementam. (Será que estou forçando a barra?)

Será que isso tem sentido? Vou tentar me explicar: Barthes aconselha (segundo minha leitura, é claro) a tornar complexo o que parece óbvio e extrair da língua aquilo que não é comum; Mallarmé aconselha a esconder o óbvio através de uma série de sugestões, possibilitando, por consequência, uma série de decifrações; Pena, por sua vez, aconselha a traduzir o complexo em linguagem assimilável e simples, mas nem por isso superficial. Ora não é possível mostrar o banal, cobrindo-o de mistério para atrair o interesse sobre ele através de uma linguagem acessível? A princípio sim, mas talvez eu esteja forçando uma aproximação entre teorias de três séculos diferentes que tinham sua coerência em seu contexto e que confrontadas não se sustentam conjuntamente... Será? Quem sabe?

Meu objetivo não é chegar à conclusão nenhuma... (Sinto muito se você esperava isso... talvez você possa me dar uma conclusão, nesse caso comente). Eu queria apenas refletir acerca da arte e de seus fundamentos... (E esvaziar um pouco o Cérebro-Casa, confesso). Talvez toda essa abordagem seja excessivamente forçada, pois estabeleci conexão entre o pensamento de um poeta francês do Século XIX, um teórico da literatura e da linguagem, também francês, de meados do século XX e um jornalista, professor e romancista brasileiro do século XXI. Há pelo menos 50 anos separando cada um deles. É interessante notar, nessa perspectiva, como a visão da arte se altera em um período de tempo relativamente curto...

Bem, creio que já estou mais que perdido em excessivas reflexões já sem muito sentido (ou não)... Dane-se, o importante era só refletir mesmo... E você chegou a alguma conclusão?

AVISO: É sempre bom lembrar que muito provavelmente interpretei de forma questionável as três teorias deformando-as de modo a conseguir (ou ao menos tentar) achar um fio condutor que as unisse. A verdade é que eu estava lendo sobre tudo isso e precisava simplesmente esvaziar o Cérebro-Casa.


[1] Stéphane Mallarmé, “Poesia e Sugestão”, in: Álvaro Cardoso Gomes, A Estética Simbolista, p. 102.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Embriagado com Poesia - Sobre outro poema de Baudelaire

Há quanto tempo não venho esvaziar o meu Cérebro-Casa! Dezembro passou inteiro sem que houvesse tempo de passar aqui e janeiro já vai alto e só agora, finalmente, consegui vir postar aqui no blog – O Cérebro-Casa já está cheio; há tanto a postar. Fico devendo uma nova resenha para a próxima postagem, mas por enquanto para marcar o início de 2011, e, para não perder o costume, segue mais um poema em prosa do grande Baudelaire:

EMBRIAGUEM-SE

Há que estar sempre embriagado. Tudo está nisto: é a única questão. Para não sentir o fardo do Tempo que lhes dilacera os ombros e os encurva para a terra, embriagar-se sem cessar é preciso.

Mas de quê? De vinho, poesia ou virtude, a escolha é sua. Mas embriaguem-se.

E se às vezes, na escadaria de um palácio, na verdade relva de um barranco, na solidão morna de seu quarto, vocês acordarem, com a embriaguez já diminuída ou sumida, perguntem ao relógio, ao vento, à vaga, à estrela, às aves, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntem que horas são; e o relógio, o vento, a vaga, a estrela, as aves responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se! Sem cessar, embriaguem-se! De vinho, poesia ou virtude, a escolha é sua”. [1]

Particularmente acho esse poema fantástico! É uma teoria interessante esta de que para que não sintamos o peso do tempo é preciso estar sempre “embriagado”, porém, o melhor de tudo é que, para ele, “embriagar-se” possui múltiplos sentidos. Em outras palavras poder-se-ia dizer que o segredo da felicidade é se distrair, não importa qual forma seja usada, pois, uma vez que consigamos nos distrair, não sentimos nem o Tédio nem o Tempo que assustam e afligem. Os dois maiores problemas que alguém pode enfrentar.

Acho que já está claro qual modo eu escolhi para me embriagar, não é mesmo? (visto que meu blog é sobre literatura). E, você, se embriaga do quê?

Acabei hoje de ler o livro Trevas, de J. Modesto. Um livro fantástico, em breve farei uma resenha.

Ouvindo: “Nothing’s Changed”, do The Calling.


[1] Charles Baudelaire, Pequenos Poemas em Prosa, Ed. Bilíngüe, São Paulo, Hedra, 2009, pp. 176-7. (trad. de Dorothée de Bruchard)

ENIVREZ-VOUS

Il faut être toujours ivre. Tout est là : c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.

Mais de quoi ? De vin, de poésie ou de vertu, à vous guise. Mais enivrez-vous.

Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, à l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est ; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vous répondront : « Il est l’heure de s’enivrer ! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous ; enivrez-vous sans cesse ! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. »