quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Nova Defesa aos Best-Sellers (Ou de como Todorov confirmou minha teoria)

Não é segredo para ninguém que sempre defendi que toda leitura é válida e que o importante é ler. Que o livro acessível pode criar o gosto literário dos mais refinados e também não é segredo que se hoje estudo literatura devo isso aos livros da saga Harry Potter. A propósito disso, escrevi em 21 de Julho de 2010, o texto "Em Defesa dos Best-Sellers", defendendo exatamente essa ideia. Qual não foi, pois, minha surpresa (e alegria) ao ler o seguinte fragmento de Tzvetan Todorov, no livro, já aqui recomendadoA Literatura em perigo:

É por isso que devemos encorajar a leitura por todos os meios - inclusive a dos livros que o crítico profissional considera com condescendência, se não com desprezo, desde Os Três Mosqueteiros até Harry Potter: não apenas esses romances populares levaram ao hábito da leitura milhões de adolescentes, mas, sobretudo, lhes possibilitaram a construção de uma primeira imagem coerente do mundo, que, podemos nos assegurar, as leituras posteriores se encarregarão de tornar mais complexas e nuançadas.
(Tzvetan Todorov, A Literatura em perigo, Difel, 2009, p. 82).

Defender aquilo que tanto ignoram é muito difícil. Ver o livro que tanto se admira sendo citado por uma das maiores referências da crítica europeia é fantástico. Mas, sobretudo, ler aquilo que sempre se pensou sendo dito pelo seu crítico favorito, não tem preço! Já que fui, sem dúvida, um dos milhões de adolescentes que ele citou e que começou a ler com os livros de Rowling...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

“A Literatura pode muito” – Sobre um Fragmento de Todorov



Não é à toa que Tzvetan Todorov é meu crítico favorito, ele sabe das coisas e dispensa grandes comentários, pois ele mesmo já diz tudo:

A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro. [...] Como a filosofia e as ciências humanas, a literatura é pensamento e conhecimento do mundo psíquico e social em que vivemos. A realidade que a literatura aspira compreender é, simplesmente (mas, ao mesmo tempo, nada é assim tão complexo), a experiência humana. Nesse sentido, pode-se dizer que Dante ou Cervantes nos ensinam tanto sobre a condição humana quanto os maiores sociólogos e psicólogos e que não não há incompatibilidade entre o primeiro saber e o segundo.
(Tzvetan Todorov, A Literatura em Perigo, Ed. Difel, 2009, p. 76-7).

Mas não é por menos que ele é tão genial, ele foi aluno de ninguém mais do que Roland Barthes, que também sabia das coisas, e que também entendia o verdadeiro valor da Literatura como se nota pelos fragmentos que citei nas postagens: “Por que lemos?”, “Para refletir [4]” e, sobretudo, em “O Sentido da Vida e a Literatura”. Logo Barthes que é tão artista quanto crítico, dono de fantástica escrita hermética, foi ser mestre de Todorov, didático e claro ao extremo. Todorov que escreve para explicar e desvelar, que tal como Barthes, vai ao âmago do mais complexo, mas que, ao contrário do mestre, esforça-se para tornar o complexo acessível, sempre com toda a sensibilidade necessária ao trato da arte - sensibilidade que só os melhores críticos de fato têm. De certa forma, Barthes e Todorov são duas faces de uma mesma moeda: dois gênios da crítica, o primeiro mais poeta, o segundo mais cientista, ambos filósofos e artistas.

Mas falando mais especificamente de Todorov, ouso dizer que A Literatura em Perigo é talvez um dos ensaios mais lúcidos e bonitos – verdadeiro depoimento e desabafo – que já li. Registro da experiência de um dos fundadores da crítica moderna que vê seu próprio trabalho subvertido numa literatura que perdeu seu sentido primeiro, ao esquecer o valor do Belo.

Creio que todo mundo que trabalha com arte, sobretudo, com literatura deveria ler esse livro: professores, críticos, jornalistas, artistas, editores, etc. etc. etc. Esse livro abre um mundo, apontando o óbvio, mostrando que algo está muito errado. Em suma o livro quer dizer que A Literatura pode muito e dá sentido à vida, para mim, isso faz sentido.

Agora, mal posso esperar para ler: A Beleza Salvará o Mundo. E, bem, se Todorov diz que isso, eu acredito.


sábado, 29 de setembro de 2012

Tipos de pessoas interessantes, segundo Oscar Wilde


Vejam só como são as coisas: minha última postagem aqui no blog foi sobre a Lista de pessoas pouco interessantes proposta pelo escritor Charles Dantzig, qual não foi, pois, minha surpresa, ao ler O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e deparar-me com a seguinte frase:

Não há senão dois tipos de pessoas verdadeiramente interessantes: aquelas que sabem absolutamente tudo e aquelas que não sabem absolutamente nada...
(Fala de Lord Henry, em O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.)

Depois de muito pensar, acho que ambos estão certos, ainda que de certa forma, suas proposições sejam parcialmente contrárias. Mas creio que concordariam, afinal, que as pessoas verdadeiramente desinteressantes são as medíocres, isto é, as mais comuns que se perdem no todo.
Particularmente, penso que as pessoas menos interessantes são aquelas que fingem saber e ser o que não sabem e não são. Todas as outras podem vir a ser interessantes.



segunda-feira, 9 de julho de 2012

"Lista de categorias de pessoas pouco interessantes", segundo Charles Dantzig

Há tempos, quero escrever sobre o grande escritor e crítico Charles Dantzig autor do fantástico Dicionário Egoísta da Literatura Francesa, contudo, o tempo tem sido escasso. Por isso, enquanto não escrevo, deixo um pequeno trecho de sua Enciclopédia Caprichosa do Tudo e do Nada que acho simplesmente genial!



LISTE DE CATÉGORIES DE PERSONNES PEU INTÉRESSANTES

Celles qui n'ont jamais fait de latin.
Celles qui n'entrent jamais dans un musée.
Celles qui n'ont jamais lu un livre.
Celles qui s'intérresent à une oeuvre d'art pour son sujet.

(Charles Dantzig, Encyclopédie capricieuse du tout et du rien, p. 262).





Tradução:


LISTA DE CATEGORIAS DE PESSOAS POUCO INTERESSANTES


Aquelas que nunca estudaram latim.
Aquelas que nunca entram em um museu.
Aquelas que nunca leram um livro.
Aquelas que se interessam por uma obra de arte por seu assunto.


________________________________________________________________.


Abstenho-me de comentar. 
Dantzig é um gênio,
Sem mais.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Nomear, ato desmedido

Já fazia um tempo que queria postar algo no Cérebro-Casa, mas por falta de tempo acaba ficando sempre para depois. Hoje, porém, lendo um ensaio de Izabela Leal, sobre Camilo Pessanha, no livro Camilo Pessanha em dois tempos (de sua autoria em parceria com a professora Gilda Santos que gentilmente me presenteou com o livro), deparei-me com algumas reflexões filosóficas sobre a linguagem que de tal forma me arrebataram que tive de compartilhar, ao menos uma, aqui no blog... Trata-se de um fragmento sobre o ato de nomear, a partir de textos de Maurice Blanchot, grande crítico literário francês. Nesse texto, Leal fala da importância e dos perigos de se nomear algo. O que me fez pensar na dificuldade em que tenho muitas vezes para achar um bom título para um conto, um artigo, ou até mesmo para uma postagem do blog, ainda que ela estivesse pensando em nomear em um sentido absurdamente mais amplo. Isto é,a fala, o ato de enunciar. Afinal, em última instância, nomear é designar tudo e não importa o quê.
Para ela, uma coisa sem nome é algo terrível. Pensando nisso, cogitei nomear essa postagem como “O Horror do Inominável”, expressão dela. Mas não me precipitei, afinal, minha escolha para título poderia definir qual é o olhar que pretendia passar com esse texto. E não era o "horror do inominável" e sim a responsabilidade desse ato tão simples e, muitas vezes, impensado. Por isso refleti mais e levei em conta que para Izabela nomear, é também uma postura, repleta de responsabilidade... Percebi que tenho  responsabilidade pelos títulos de minhas postagens, pois mesmo que ninguém as leia, tenho o compromisso comigo mesmo de ser coerente com o que penso e postei, mesmo porque é escrevendo que, muitas vezes, meus próprios pensamentos tomam forma e só assim entendo o que queria mesmo dizer... Percebem como dar um nome é um ato difícil e de grande responsabilidade?
Perdido em meio a essas reflexões, lembrei-me de imediato do livro do professor Boris Schnaiderman: Tradução, ato desmedido, já que traduzir envolve igualmente muitas responsabilidades, posturas e escolhas. Assim me decidi. Achei que cairia bem, nomear essa postagem parafraseando jocosamente o título do livro do professor Boris. Afinal, se nomear é tão importante, não poderia começar o texto sem refletir sobre seu próprio título, perdendo-me assim em um mise-en-abyme digressivo metalinguístico e metadiscursivo, que, ao fim e ao cabo, diz tudo o que eu queria dizer quando me propus a escrever sobre isso. De uma forma ou de outra, refleti e nomeei com ponderação. Não foi um ato desmedido, mas só porque me adverti de antemão.
Enfim, depois de tantas voltas e desvios, deixo-lhes o trecho de Izabela Leal em que ela teoriza a força do ato de nomear, a partir de Blanchot. Ato de morte e de vida. Uma escolha crucial.

Voltemos, entretanto, ao ato de nomear. Blanchot caracteriza este ato como uma espécie de assassinato – mas um assassinato que é também a possibilidade da vida –, ilustrando-o todo o tempo através da máxima de que “a vida carrega a morte e se mantém na própria morte”. O que quer ele dizer com isso? Que o ato de nomear é aquilo que nos permite todo e qualquer conhecimento sobre o mundo, nossa própria ação no mundo. Um objeto sem nome é, para nós, um objeto impossível, mais do que desconhecido, insondável. Ao lhe atribuirmos um nome, tornamo-lo apreensível, passível de conhecimento. O horror, o grande horror, para nós, seres falantes, é sempre o horror do inominável. Mas esse ato não é assim tão simples, não se dispõe dele a um preço tão baixo: a cada vez que nomeamos um objeto cometemos um assassinato, que é ao mesmo tempo a aparição e a supressão do próprio objeto. Georges Bataille, no livro A experiência interior, cita o caso da palavra silêncio, afirmando que “entre todas as palavras é a mais perversa, ou a mais poética: ela é a própria garantia de sua morte.” (BATAILLE, 1992, p. 24).

No ato de nomear, a morte se faz então presente. E, paradoxalmente, se a fala afasta o objeto, ela é, ao mesmo tempo, a única possibilidade que temos de nos aproximar dele; apenas nessa morte, que é a fala, as coisas chegam a adquirir sentido. Perdida a fala – isto é, a linguagem –, perdemos toda e qualquer esperança de conhecimento e interação com o mundo. O assassinato que caracteriza o ato de nomear é o mesmo que dá vida ao homem, que o torna humano. Não se pode chegar a ser homem sem encarar de perto essa morte, essa distância entre o eu e as coisas.(LEAL, Izabela. In LEAL, Izabela. et SANTOS, Gilda. Camilo Pessanha em dois tempos. Rio de Janeiro, 7 Letras, 2007, p. 118).

Lido o fragmento, deixo-lhes com seus pensamentos e com o meu silêncio...