quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

"Como treinar o seu Dragão": um título, dois universos e os limites de uma adaptação


Pôster do filme Como treinar o seu dragão 2
         Como quase todas as séries de hoje, os filmes Como treinar o seu dragão 1 e 2 se basearam em uma série de livros. E, como quase todas as séries, a adaptação cinematográfica é bem diferente da versão literária. Até aí, nenhuma novidade. Porém, o que eu não sabia, quando fui ler a série de 12 livros escrita e ilustrada por Cressida Cowell, depois de ter visto os dois filmes da Dream Works dirigidos por Dean DeBlois (o primeiro ao lado de Chris Sanders), é que entre a série de filmes pouco tinha em comum com os livros além do título, dos nomes de alguns personagens e do fato de haver dragões em ambos os universos.
         A adaptação é, portanto, no mínimo muito livre.
O Soluço e o Banguela dos livros
         Se nos filmes de DeBlois, vemos uma Berk povoada por vikings que temem dragões e os caçam para sobreviver, vivendo em uma constante guerra que já perdura por gerações; nos livros de Cressida, o povo de Berk cria dragões e dependem inteiramente deles para praticamente todas as tarefas. Enquanto o Banguela dos filmes é um grande dragão preto da espécie “Fúria da Noite”, de personalidade dócil e amorosa, o Banguela dos livros é um pequenino dragão verde esmeralda, do tamanho de um gato, da espécie “Dragão Comum ou de Jardim” de temperamento irritável e extremamente egocêntrico. Por consequência, se nos filmes os dragões apresentam um comportamento semelhante ao de animais domésticos; nos livros, os dragões são praticamente gente e chegam até a falar uma língua complexa chamada “dragonês”, que pode, inclusive, ser entendida e aprendida por humanos. Isso sem falar que a aparência de Soluço, o protagonista, e Perna-de-Peixe, seu melhor amigo, mudaram muito de um para o outro (mas isso é um mero detalhe). O fato é que as diferenças são gigantescas e enumerei apenas as mais gritantes.
O Banguela e o Soluço dos filmes.
         E, veja bem, meu intuito com esse texto não é dizer que os livros são bem melhores do que os filmes (como é super comum quando se comparam adaptações), nem dizer que os filmes são melhores do que os livros (embora, confesso, eu os prefira aos livros, ainda que adore a obra de Cressida), queria apenas comentar minha surpresa pelo abismo que separa os dois, o que me fez refletir e levantar duas questões: como fica o autor da obra original diante de tudo isso? E até que ponto pode ir uma adaptação sem deixar de ser uma adaptação?
         Quero dizer, quando um autor autoriza a adaptação de sua obra, sabe que o resultado pode ser dos mais diversos, mas o que pensa um autor quando vê uma adaptação que nada tem a ver com o que você escreveu levar o nome de seu livro? Tenho muita curiosidade nessa resposta. Gostaria de saber o que a Cressida pensa dos filmes. Em última instância, fico pensando, até que ponto pode ir a adaptação para que a história ainda possa continuar sendo a mesma. No caso de Como treinar o seu dragão, por exemplo, acho custoso o uso do termo “adaptação”. O filme talvez devesse ter outro nome (como no caso do filme The Boxtrolls, adaptação do livro A gente é Monstro [Here be Monsters], de Alan Snow), o que destacaria as diferenças, e creio que o melhor seria dizer que ele foi “livremente inspirado na obra de Cressida Cowell”, ao invés de dizer que foi adaptado. No máximo. Embora, é claro, o uso do mesmo nome seja muito mais uma estratégia de marketing do que qualquer outra coisa, não vou, porém, entrar nesses méritos.
         Particularmente, como autor, acho que ficaria enfurecido se algo assim fosse feito a partir de algo que escrevi. Claro que entendo que o cinema é uma mídia diversa da literatura e que qualquer adaptação obviamente vai diferir em vários pontos do original. Um filme não é um livro e isso é ponto pacífico para mim. Cada mídia pede determinados recursos, logo sempre serão diferentes. MAS mudar a história TODA me parece um pouco demais e, ainda que o resultado seja excelente (como de fato foi), se eu fosse a Cressida, ficaria imensamente chateado... Sei de casos semelhantes em que de fato o autor ficou chateado. É o caso da adaptação de A Rainha dos Condenados, de Anne Rice, que depois disso nunca mais permitiu que adaptassem suas obras. J. K. Rowling, por outro lado, quis acompanhar bem de perto a produção dos filmes baseados em Harry Potter para garantir a sua fidelidade. Em outros casos, a adaptação é tão livre que o filme recebe outro nome, como mencionei acima, o que me parece muito honesto. Imagino que haja autores que não liguem para isso, que consigam olhar suas obras com desapego... ou que pensem só no quanto a adaptação vai alavancar as vendas (qualquer um pensaria nisso também, seria hipocrisia negar). Contudo, acho estranho, ainda mais quando você se dá ao trabalho de construir um mundo tão complexo como o de Cressida, no qual ela descreve e desenvolve toda uma sociedade viking fictícia, com uma cultura bem peculiar. No mínimo, isso levanta algumas questões...

         A verdade é que não sei exatamente o que a autora achou dos filmes; pode ser que os tenha adorado, que os repudie ou até que tenha participado da produção, como George R. R. Martin que não está nem aí para as diferenças entre os livros e a série televisiva. E até parece se divertir com isso. Acho que no fim das contas o limite para uma adaptação é o bom senso e o respeito ao autor e à obra original, é claro. No caso de Como treinar o seu dragão o resultado, apesar de completamente diferente do que um leitor poderia esperar, é excelente. E louvo os produtores por isso. Mas, embora eu goste tanto dos livros quanto dos filmes, ainda fico curioso para saber, o que a Cressida achou do resultado? Talvez seja apenas porque sou metódico demais e gosto de ficar filosofando sobre as coisas que leio.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

“Grandes Olhos” [Big Eyes], a renovação de Tim Burton

Pôster oficial do filme.
            Quem me conhece sabe que sou um burtoniano inveterado, desde bem pequeno, por causa de filmes como Os Fantasmas se Divertem (1988), Edward Mãos de Tesoura (1990), Batman (1989) e O Estranho Mundo de Jack (1993)... desde então acompanho bem de perto a carreira de Tim, não apenas como diretor e produtor, mas também como poeta e desenhista (para quem não conhece, recomendo muitíssimo seu livro de poemas ilustrado O triste fim do Pequeno Menino Ostra e outras histórias e também os livros que reúnem seus desenhos, como L’Art de Tim Burton infelizmente, ainda inédito no Brasil e a galeria em seu site pessoal - o site é todo interativo, vale a pena conferir). Logo, não é surpresa nenhuma que eu tenha adorado Big Eyes... Mas não é apenas por ser fã declarado que gostei do filme, mesmo porque dois de seus últimos longas – a saber: Alice no país das Maravilhas (2010) e Sombras da Noite (2012) – deixaram um tanto quanto a desejar. Mas o fato é que seu novo filme é realmente muito bom.
            Para começar, a premissa em si já é incrível e praticamente inacreditável, apesar de ser baseada em fatos reais. Para quem não sabe, o filme é uma biografia (gênero ao qual Tim Burton só se dedicou uma vez, no genial Ed Wood, de 1994, ou seja, há mais de vinte anos) da pintora norte-americana Margaret Keane, cujos quadros com suas típicas crianças de grandes e sofridos olhos (cujos traços, aliás, lembram bastante vários desenhos do próprio Tim Burton, que sempre exagera no tamanho dos olhos, vide Frankenweenie e Noiva Cadáver) ficaram célebres nos anos 60. Se fosse só isso, porém, a história não renderia um caso de polícia e um filme de Tim Burton... O que há de surreal no caso de Margaret é que seus quadros foram por muito tempo vendidos e divulgados como sendo de autoria de Walter Keane, então seu marido. O caso terminou com uma briga judicial no Havaí, a maior da história da ilha.     
       O veredito foi favorável à Margaret que provou na frente de todos que era a legítima autora dos quadros de grandes olhos. Em resumo, eis o roteiro do filme. Sua graça, contudo, está na forma como as personagens de Margaret e Walter (Amy Adams e Christoph Waltz, respectivamente) se conhecem, se apaixonam e passam a se odiar devido à grande farsa de Walter; e também na forma como Margaret se vê coagida pelo marido, mas também pelo sistema, buscando em sua arte uma fuga, uma forma de proteger sua filha e, sobretudo, de redenção em uma busca por seu próprio caminho, retratando na figura de crianças atormentadas e entristecidas sua própria angústia. Mais do que isso, de maneira muito singela, o filme mostra a dificuldade de ser uma mulher e mãe separada, independente, e, pior, uma artista, nos anos 50, na preconceituosa América.
Amy Adams como Margaret Keane.
            A interpretação de Adams e Waltz é um show à parte, tanto que garantiram a ambos a indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz e de melhor ator (Adams recebeu o prêmio, inclusive, muito merecidamente). Ambos são papéis difíceis, mas por motivos diferentes. Margaret é pura introspecção; Walter é uma personagem forte e expansiva. No entanto, ao longo do filme, ambos se desenvolvem, ela com revolta; ele com louca cobiça (a loucura, aliás, permeia de forma sutil o filme todo). A transformação é bem gradual, pautada pelo sofrimento de Margaret que se traduz em seus quadros. Adams a executa com primor, demonstrando o estado de quase loucura a que Margaret chega (até o ponto de alucinar, no momento mais tipicamente burtoniano do filme), após anos e anos vivendo sob a pressão de uma grande mentira.
Christoph Waltz como Walter Keane.
            Já o camaleão Christoph Waltz se traveste como o mais sedutor dos pintores, rejuvenescido, galanteador, mas também perverso e psicopata (totalmente diferente do também genial Dr. Schultz, de Django Livre, de Tarantino, um de seus papeis mais recentes – e brilhantes), de uma maneira incrível, fazendo com que o espectador hesite em decidir se o ama ou o odeia, embora certamente seja impossível não admirá-lo de algum modo (e com algum remorso por isso).
            A trilha sonora do filme é mais uma vez assinada por Danny Elfman (como a maioria dos filmes do Tim), e traz sua sonoridade característica, embora um pouco mais introspectiva do que o habitual. A música tema de Lanna del Rey também captura a atmosfera do filme, o tormento de Margaret e seu amor por sua arte, não por menos foi também indicada ao Globo de Ouro como melhor canção original.
A verdadeira Margaret Keane e Amy Adams.
            Vale ainda mencionar a fotografia – que se desdobra no figurino e cenários simples, mas caprichados –, na qual predominam os tons pastéis, inusitados para um filme de Tim Burton, que, não apenas captam a atmosfera dos anos 50, como também refletem a paleta de cores da própria Margaret, na qual predominam o amarelo desbotado e o azul claro (cores aliás, da própria Margaret, cujo cabelo é de um loiro bem claro e os olhos de um azul cristalino), bem como diversos tons de cinza e de marrom. São cores suaves, mas frias e tristes, como os quadros e a própria vida de Margaret Keane. Personagem, quadros, figurino, cenários, enfim, tudo se corresponde cromaticamente.
            Por tudo isso, creio não ser exagero dizer que o filme, sem dúvida, marca uma nova fase na obra de Tim Burton, mais realista e interventiva, pintada em cores frias e pastéis, em contraste com as cores vibrantes e sombrias de seus filmes anteriores, sobretudo os últimos, como Sombras da Noite, Alice no País das Maravilhas e A Fantástica Fábrica de Chocolate, ainda que mantenha a atmosfera de loucura permeada de humor refinado que lhe é característica... Por outro lado, parece retomar um viés há muito deixado de lado em sua obra: o lirismo de Edward Mãos de Tesoura, pautado na melancolia e na relação do artista com sua obra (também visível em Ed Wood), na introspecção e na incompreensão de uma sociedade machista e preconceituosa. Margaret, como Edward, é uma criatura genial e gentil, ingênua aliás, perdida em meio ao preconceito, oprimida pela malícia dos que a cercam e explorada por isso, cujo único desejo é ser reconhecida pela sua arte. Assim como o próprio Tim Burton...
Tim Burton com sua coleção particular de Big Eyes.

Uma nota de revolta

Um dos quadros de "grandes olhos" de Margaret Keane.
            A despeito de tudo isso, o filme foi sumariamente ignorado pela Academia e não recebeu NENHUMA indicação ao Oscar, nem mesmo nas categorias em que foi aclamado no Globo de Ouro. É verdade que esse ano o Oscar está bastante concorrido com fortes filmes, como A Teoria de Tudo, Boyhood, Grande Hotel Budapeste e Birdman, mas, ainda assim, é de se estranhar que o filme mais “acadêmico” de Tim Burton, por assim dizer, tenha sido completamente deixado de lado naquele que é considerado o maior prêmio do Cinema, o que, aliás, vem sendo frequente na carreira do diretor. Só podemos especular o motivo dessa ausência de indicações, que mais parece um boicote a um diretor aclamado e reconhecido como ele. Puro recalque. Não que Tim Burton precise de alguma estatueta para mostrar o quanto é genial, o filme mostra isso por si só (assim como suas outras obras), mas seria justo algum reconhecimento, que, aliás, deveria ter vindo com Frankenweenie (que pelo menos foi indicado como melhor animação), outra injustiça que comentei AQUI. Achei que com Big Eyes seria diferente. Mas, deixa estar, assim como ele reconheceu a arte de Margaret Keane, nós, os fãs, reconhecemos sua Arte. E quem sabe seu próximo filme, a adaptação de O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares receba, finalmente, o reconhecimento da Academia que o Tim merece.